Seis meses após tsunami, cidade japonesa ainda sofre com ruínas

Residentes de Minamisanriku sentem-se negligenciados por Tóquio; cerca de 500 mil toneladas de destroços permanecem sem destino

The New York Times |

Seis meses após o terremoto que atingiu o Japão , a estrutura de aço nu do antigo Centro de Gestão de Desastres se ergue como uma lápide sobre o terreno hoje coberto de detritos que já foram o centro desta cidade. As pessoas vêm de perto e de longe para rezar diante da estrutura de três andares, transformando-a em uma espécie de templo em homenagem aos funcionários da cidade que morreram ali.

NYT
Estrutura de aço do antigo Centro de Gestão de Desastres em Minamisanriku vira templo depois da tragédia de 11 de março

Em meio às flores brancas, incenso e garrafas de cerveja e uísque deixados no local para confortar os mortos, há também sinais de rancor. Uma longa carta manuscrita e plastificada para protegê-la da chuva critica a manutenção da estrutura e classifica como desprezo em relação às famílias daqueles que morreram.

"Essa coisa deve ser destruída imediatamente", exige a carta, que é assinada pelo pai de uma vítima.

O povo do nordeste do Japão ganhou admiração mundial por sua dignidade estóica e espírito comunal após o desastre de 11 de março, que devastou centenas de quilômetros de costa e deixou mais de 20 mil mortos e desaparecidos, além de centenas de milhares de desabrigados. Mas atualmente, a unidade está se desgastando em meio à frustração em cidades remotas como esta, que se sentem deixadas para trás.

Em algumas das áreas atingidas pelo tsunami, particularmente nas regiões mais prósperas, perto da cidade de Sendai, a retirada de milhões de toneladas de detritos está progredindo rapidamente. Grandes instalações improvisadas estão transformando concreto e madeira destruídos em material de aterro para a reconstrução. Mas nas regiões mais pobres de pesca, mais ao norte ao longo da costa montanhosa, muitas cidades mal concluíram as primeiras tarefas básicas de sobrevivência.

Minamisanriku finalmente terminou de instalar o último de seus moradores sem-teto em uma das 2.200 casas pré-fabricadas que construiu em terrenos vazios. A maioria da cidade estava sem água corrente ou serviço de esgoto até um mês atrás.

O centro ainda está tomado por carros danificados, lascas de madeira de casas destruídas e pedaços eviscerados de alguns edifícios de concreto sobreviventes, parecendo estranhamente inalterados desde o tsunami.

"As pessoas querem continuar a viver nesta cidade, mas olha essa bagunça", suspirou Minoru Sato, 65, que foi contratado pela cidade para coletar os destroços depois que o tsunami destruiu a serraria onde trabalhava.

De fato, os moradores de Minamisanriku dizem sentir-se como se estivessem no limbo, à espera de algum sinal para colocar na reconstrução da cidade o mesmo esforço que demostraram ao retirarem-se uns aos outros dos escombros. Esse sinal ainda não veio.

Um dos motivos para a paralisia cívica é que o tsunami literalmente varreu o governo local do mapa, destruindo não apenas o centro do desastre, mas também o quartel, a delegacia de polícia, o principal hospital e a prefeitura, com todos os seus registros. O prefeito e outras autoridades que sobreviveram instalaram novos escritórios em trailers estacionados em quadras de tênis, e o governo só agora está novamente ao seu alcance.

Ainda nem mesmo encontraram lugar para colocar as 500 mil toneladas de escombros deixados pelo tsunami. Equipes de trabalho empilharam temporariamente alguns dos destroços ao longo da orla devastada, separados em pilhas enormes de metal retorcido, concreto quebrado e pneus, mas o lixo não pode ficar lá permanentemente.

Ainda assim, os residentes direcionam a maior parte de sua indignação ao governo nacional. Eles se sentem negligenciados por Tóquio, que dizem estar mais preocupada com a usina nuclear de Fukushima ou com as manobras políticas usadas no mês passado para a eleição de um novo premiê, Yoshihiko Noda, o sétimo do Japão em cinco anos.

Autoridades municipais dizem que não podem resolver como reconstruir, muito menos começar sem o financiamento de Tóquio.

"Temos tentado elaborar nossos próprios planos, mas o que podemos fazer até que o governo nacional decida?", perguntou Kenji Endo, vice-prefeito de Minamisanriku. "A frustração está aumentando porque não vemos qualquer ação em direção à reconstrução."

A cidade diz que, com um orçamento no ano passado de apenas US$ 40 milhões, ela não tem escolha a não ser buscar ajuda do governo central para financiar os enormes custos da reconstrução. Alguns em Tóquio pediram para que cidades vulneráveis como essa sejam realocadas para o topo de montanhas próximas. Mas outros dizem que o Japão não pode mais se dar ao luxo de jogar dinheiro em tais projetos, que custariam cerca de US$ 3 bilhões apenas para Minamisanriku, segundo oficiais locais.

Até que Tóquio tome uma decisão, os moradores locais sentem como se tivessem sido colocados em espera.

Em sua frustração, eles estão começando a procurar uns aos outros. Há queixas amargas sobre as autoridades locais que impediram a limpeza das estradas sem permissão oficial ou a decisão da prefeitura de proibir qualquer construção nas áreas atingidas pelo tsunami até que um plano de reconstrução seja definido para toda a cidade.

A comunidade também está sendo atingida pela desigualdade do desastre. Algumas casas foram destruídas, outras estão intocadas.

Os ressentimentos vêm à tona quando o assunto é o futuro do Centro de Gestão de Desastres, cujo esqueleto vermelho se tornou um símbolo do desastre conhecido nacionalmente. Alguns querem preservá-lo como um monumento, mas outros o veem como uma lembrança muito dolorosa dos seus entes queridos perdidos.

"Não podemos deixar que algo assim divida a cidade ou nunca vamos nos recuperar", disse Ikuko Takahashi, 60, cuja casa foi destruída, juntamente com a clínica médica de seu marido.

Minamisanriku era uma comunidade de pescadores obscura da qual poucos japoneses tinham ouvido falar antes da onda de 15 metros transformá-la não apenas em um cenário de devastação – matando mil de seus 17 mil moradores – , mas também de heróicos esforços de resgate.

Hoje, as principais estradas foram reabertas e há pontes provisórias sobre os rios, mas apenas uma meia dúzia de empresas voltaram ao local. Uma delas é o posto de gasolina de Satoru Abe, que limpou seus escombros e colocou uma bomba em funcionamento, no princípio manual, até que a energia elétrica fora restabelecida em maio. Seu escritório permanece um emaranhado de metal retorcido e lama.

"Eles não nos deixam reconstruir, mas não podemos apenas esperar por uma decisão", disse Abe, 43. "Nós temos que comer de alguma forma."

Realmente, dezenas de moradores disseram que o que mais os preocupa é como ganhar a vida na cidade. As ondas destruíram os barcos de pesca e fábricas de processamento de frutos do mar que eram a espinha dorsal da economia local. Oficiais da prefeitura disseram que mais de mil moradores, na sua maioria jovens, já foram embora em busca de emprego.

"A maioria dos jovens não pode esperar até os empregos voltarem, por isso eles foram embora", disse Kiyohiko Goto, 36, um pescador. Após o tsunami, ele encontrou o seu barco em uma encosta terrestre, mas não poderia arcar com o custo de US$ 200 mil por um novo motor.

"A cidade vai sobreviver", disse Goto, "mas eu me pergunto quantas pessoas ainda irão viver aqui."

* Martin Fackler

    Leia tudo sobre: japãotsunamiterremotothe new york times

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG