Seis anos em coma após derrame, Ariel Sharon ainda resiste

Em livro, filho de ex-premiê de Israel diz que pai responde a pedidos, tem olhar penetrante e ganhou peso

The New York Times |

Há quase seis anos, quando era primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon sofreu um acidente vascular cerebral. Apesar de permanecer em estado de coma e ser alimentado por via intravenosa, ele responde a alguns pedidos e ganhou peso, de acordo com seu filho Gilad Sharon.

AP
O ex-premiê Ariel Sharon, em foto de dezembro de 2005
"Quando está acordado, ele olha para mim e move os dedos quando eu peço", disse Gilad em entrevista por telefone. "Tenho certeza de que ele me ouve."

Detalhes da saúde de Sharon têm sido muito bem guardados pela família. Gilad concordou em falar sobre o assunto, enquanto se prepara para divulgar a biografia de seu pai, que concluiu depois de quatro anos e meio.

Intitulado "Sharon: A Vida de um Líder", o livro será lançado nesta semana em hebraico e inglês, e diz sobre o famoso ex-general: "Ele está na cama e parece o senhor da casa, dormindo tranquilamente. Grande, forte, seguro. A sua bochecha tem um saudável tom de vermelho. Quando está acordado, ele olha com um olhar penetrante. Não perdeu um único aquilo, pelo contrário, ganhou alguns".

Um ano atrás, Sharon, que agora tem 83 anos, foi transferido de um hospital de Tel Aviv para a fazenda da família no sul de Israel. Mas Gilad Sharon disse que a estadia foi breve e seu pai voltou para o hospital, onde ainda está. Ele espera que no próximo ano seu pai volte para casa permanentemente. "O problema é a burocracia israelense", disse Gilad Sharon. "Acho que seria melhor para ele estar em casa". Ele acrescentou que desde o acidente vascular cerebral seu pai recebeu visitas todos os dias dele, de sua esposa Inbal ou de seu irmão Omri. "Não faltamos um único dia", acrescentou.

Ele disse que nos últimos tempos não houve melhora na condição de seu pai.

O livro de Gilad Sharon afirma que médicos e enfermeiros encorajaram a família a deixar Ariel Sharon morrer depois de seu acidente vascular cerebral, em janeiro de 2006. Um médico chegou a dizer: "Com base na tomografia computadorizada, o jogo acabou". Ele e seu irmão não quiseram saber e insistiram em uma operação e outros esforços para manter o pai vivo.

"Disse a eles sobre um sonho que eu tinha há muitos anos", ele relata no livro, falando de suas conversas com a equipe médica do Hospital Universitário Hadassah, em Jerusalém.

"Nesse sonho eu estava com meu pai no hospital. Ele estava deitado na cama, cercado por uma equipe médica, e todos tinham desistido ou perdido a esperança e estavam prestes a sair, e meu pai não dizia nada, mas ele olhava para mim e eu sabia que ele nunca iria desistir e que eu simplesmente não iria deixá-lo. Este era um sonho que eu tinha quando meu pai era saudável e forte e o cenário era completamente diferente da realidade. Não contei a ninguém sobre o sonho na época, mas compartilhei com eles meu medo de que aquilo estava acontecendo e que eu nunca seria capaz de me perdoar se não lutasse até o fim."

Embora em Israel acredite-se que Ariel Sharon foi mantido vivo devido à insistência de seus filhos, o livro oferece o primeiro reconhecimento público e os detalhes da decisão por trás disso. Ariel Sharon ficou viúvo duas vezes e seus filhos estão a cargo de sua fazenda e de seu cuidado.

Gilad acrescenta no livro que, enquanto ele insistia em não deixar seu pai morrer por instinto e sentimento, ele descobriu que tinha a medicina ao seu lado – o exame tinha sido mal interpretado. Os médicos reconheceram após a operação que seu pai estava mais saudável do que eles tinham avaliado, segundo Gilad.

Ariel Sharon foi eleito primeiro-ministro em 2001 e estava no auge de seu poder quando teve o acidente vascular cerebral. Tendo passado a sua carreira como um defensor do movimento dos colonos – algo amplamente documentado na nova biografia – ele chocou sua base política com a remoção de colonos e soldados israelenses de Gaza um mês antes, no verão de 2005. Em seguida, deixou sua casa política no partido de direita Likud e criou o centrista Kadima.

No livro, Gilad Sharon diz que deu a seu pai a ideia de Israel se retirar unilateralmente de Gaza, dizendo que havia se tornado impossível proteger adequadamente os colonos judeus assentados ali e que a maioria dos israelenses não queria pagar o preço para manter o território.

Dois meses após o derrame de Ariel Sharon, seu vice, Ehud Olmert, foi eleito primeiro-ministro.

Gilad Sharon, que era um confidente de seu pai e teve acesso aos seus documentos particulares, não é gentil com o rival de longa data de seu pai, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense e líder do Likud. Gilad Sharon diz no livro que em 1997 Netanyahu prometeu fazer de seu pai ministro das Finanças, mas depois renegou.

"Netanyahu convocou meu pai para uma reunião", escreve ele. "Parado na entrada do gabinete e encerrando a mais curta reunião da história do primeiro-ministro, meu pai disse a Netanyahu: ‘Um mentiroso você foi e um mentiroso você permaneceu’”. O gabinete de Netanyahu negou que Ariel Sharon tenha dito isso.

Recontando a decisão de seu pai de se retirar da Faixa de Gaza, Gilad diz que Netanyahu – então ministro das Finanças – hesitou e exigiu que a retirada fosse sujeita a um referendo. Ariel Sharon recusou e Netanyahu saiu do Parlamento com a votação sobre a retirada em andamento. No final, de acordo com o livro, Netanyahu voltou e votou a favor da medida.

"Esta foi uma verdadeira manifestação do caráter de Netanyahu", Gilad escreve. "Ele não foi apenas subversivo, mas também covarde".

Um porta-voz do escritório de Netanyahu disse: "Gilad Sharon tem uma longa história de ser altamente crítico do primeiro-ministro Netanyahu e essas acusações não são novas nem surpreendentes."

O porta-voz, que falou sob condição de anonimato, acrescentou que o voto parlamentar em questão era processual e que quando a verdadeira decisão sobre a retirada de Gaza ocorreu, no verão seguinte, Netanyahu votou contra e deixou o governo.

Gilad Sharon entrou para a oposição no partido Kadima no ano passado e acredita-se estar interessado em entrar para a política. Ele disse, no entanto, que tendo acabado o livro, ele ainda está contemplando qual será seu próximo passo.

Por Ethan Bronner

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