Seguindo um mapa diferente para um destino semelhante

WASHINGTON ¿ Mais de quatro anos após seu predecessor declarar a missão dos EUA de acabar com a tirania ao redor do mundo, o presidente Barack Obama tenta reformular um grande objetivo que agora é mal visto em muitas comunidades.

The New York Times |


Obama usou seu discurso no Cairo, capital do Egito, na semana passada, para reavivar e reformar a agenda democrática que era central na política externa do presidente George W. Bush. Mas mesmo adotando uma aspiração retórica, Obama deixou incerto o quão agressivo planejava ser com os regimes repressivos que não aceitassem um acordo.

O foco do presidente na democracia ¿ um dos sete princípios do discurso ¿ foi sua discussão mais expansiva sobre essa questão desde que tomou posse. A decisão em dirigir-se a isso diretamente culminou em um esforço de quatro meses com a administração, entre aqueles que não aceitavam nada que considerassem parte da cruzada ideológica e duvidosa de Bush e aqueles que argumentavam que os EUA ainda deveriam promover liberdade de uma maneira modesta.

Eu acho que isso é um sinal para aqueles em sua administração, que se moveram em uma direção neorealista fortificada, de que ele não quer abandonar essa questão, disse Jennifer Windsor, diretora-executiva da Freedom House, organização de advocacia. Eu sei que as batalhas eram bem intensas mesmo para conseguir chegar até lá.

Divergências internas

Mas o debate provavelmente não acabou. Eu não acho que isso já coloque a questão de como eles vão distanciar a si mesmos de Bush, mas ainda exigem a tradição da promoção americana da democracia, disse Tom Malinowski, diretor de advocacia da Human Rights Watch, em Washington.

Bush colocou a democracia no centro da política externa americana em seu segundo discurso de posse, em 2005, prometendo desafiar cada ditador e cada nação para garantir a liberdade. Mas, seu fervor, sua aplicação inconsistente e a guerra no Iraque deixaram muitas pessoas irritadas e desconfiadas. Após Obama tomar posse, 163 advogados especialistas em democracia escreveram cartas pedindo a ele para usar uma proteção que evitasse os erros de seu predecessor.

Discurso

No discurso no Cairo, o presidente americano implicitamente contrastou sua visão de promoção da democracia com a de Bush, ao dizer que ela não pode ser imposta por uma nação e ao deixar claro que as eleições não são o suficiente. Ele disse que os EUA não ousaria escolher o resultado de uma eleição pacífica, e que respeitaria os vencedores com os quais discorda desde que fossem pacíficos e governassem todo seu povo com respeito.

Eu tenho uma crença persistente de que todas as pessoas sentem falta de certas coisas ¿ a capacidade de falar com sua mente e ter um diálogo sobre como você governa, a confiança no poder da lei e da administração igualitária da justiça, o governo que é transparente e não rouba as pessoas, a liberdade para viver como se cada um escolher, disse o presidente. Essas não são ideias apenas americanas. São os direitos humanos. E é por isso que as apoiaremos em todos os lugares.

Obama foi aplaudido no momento em que usou a palavra democracia e, depois, mais três vezes durante a sessão de seu discurso. Quando terminou essa passagem, alguém na platéia gritou, Barack Obama, nós te amamos!.

Sem ataques

Mas ainda assim, Obama manteve suas palavras neutras e não fez nada para contestar o anfitrião egípcio, presidente Hosni Mubarak, cujo governo prendeu opositores, censurou notícias da mídia e reprimiu protestos. De fato, a administração de Obama recentemente, enquanto aumentava o financiamento de programas de democracia em todo lugar, cortou o fornecimento para o Egito e em entrevista antes de deixar Washington, o presidente disse que não considerava Mubarak um autoritário.

Não, eu tendo a não usar rótulos nas pessoas, disse ele à BBC. Ao invés disso, ele disse que Mubarak é uma força boa e de estabilidade no Oriente Médio. Enquanto Obama reconhece que houve críticas na maneira como a política opera no Egito, ele disse que seu trabalho não é ensinar, mas incentivar, para melhorar o que achamos que são os valores de todas as pessoas.

Críticas

Para advogados como Larry Diamond, o tratamento gentil a Mubarak minou seu forte discurso. Eu queria que ele fosse, em algum ponto de sua visita ao Egito, um pouco mais explícito nas preocupações crescentes sobre o que é um regime autoritário muito duro, disse Diamond, sócio sênior da Hoover Institution e diretor do Centro Universitário Stanford de Democracia, Desenvolvimento e Regulamentação da Lei.

Robert Kagan, um especialista da Carnegie Edowment pela Paz Internacional disse: eu acho que ele fez o mínimo possível. Obviamente ele e seus conselheiros sabiam que se não mencionasse democracia em nenhum momento, a mídia falaria sobre isso. Mas Obama disse poucas coisas que causariam a Mubarak, ou a qualquer outro autocrata do mundo, nada mais do que uma azia.

Elliot Abrams, representante de Bush no conselho de segurança nacional pela estratégia de democracia global, foi quem mais o apoiou, notando que Obama sustentava expansão da liberdade e falou que os governos livres eram mais seguros e bem-sucedidos. Mas ele questionou se Obama recuaria no discurso, quando tivesse de agir.

O problema é que os escritórios de democracia e direitos humanos em seu governo viraram ruínas, especialmente na NSC, disse Abrams, refererindo-se ao Conselho Nacional de Segurança. Para levar adiante a política proposta por ele, Obama precisará ter certeza de que tem as pessoas no lugar certo e de que eles têm o poder de influenciar. Até agora, esse simplesmente não é o caso.

A incerteza sobre como Obama procederá foi destacada pela resposta do Human Rights Watch ao seu discurso. Primeiramente, eles divulgaram um relato condenando o discurso sob o título Obama se esquivou da questão dos direitos. Menos de uma hora depois a organização retirou o relato. Finalmente, divulgou um novo intitulado Discurso de Obama no Oriente Médio apoia direitos e democracia.

Malinowski disse que não viu a primeira versão antes de ser divulgado, e quando a viu, achou-a injusta. Então ele disse ter decidido engolir o constrangimento de retirá-la e divulgou uma nova para refletir coisas importantes e positivas do discurso.


Por PETER BAKER


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