Seca revela segredos profundos do Texas, nos EUA

Baixa nos níveis dos rios revelam corpos e objetos que atraem atenção de historiadores, investigadores e até da Nasa

The New York Times |

Por mais de três anos, o lago do rancho de Jack Mewbourn em Martin Mill, no Texas, guardou um segredo em um leito lamacento: um Chevrolet Monte Carlo de 1999. Seu neto foi o primeiro a notar o teto do carro a espreitar para fora da água. Não foi sorte ou mesmo destino. Foi a seca.

O nível da água no lago de 7 hectares caiu cerca de 5 metros por causa da falta de chuvas. Ficar em pé na margem de grama do lago de hoje seria estar com água até a cintura em outros anos.

Em um sábado recente, Mewbourn, um fazendeiro de longa data nesta comunidade rural a cerca de 90 minutos de Dallas, levou um barco para o meio do lago com dois de seus netos. Eles confirmaram que o pequeno objeto que eles pensaram a princípio ser um barril era de fato um carro. Mewbourn chamou um policial local e com a ajuda de um mergulhador e um caminhão de reboque, o veículo foi lentamente arrastado para fora. No interior, ainda afivelado no assento do motorista, estavam os restos mortais de Brenda Kay Oliver, desaparecida desde julho de 2008.

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A partir da direita: Jack Mewbourn, dono do rancho onde corpo foi encontrado; Arron, seu neto; e Pat Jordan, que respondeu ao chamado para a polícia

Parentes de Brenda disseram que ela nunca havia se recuperado do trauma do suicídio de seu filho de 19 anos, que se afogou em um lago próximo. As autoridades acreditam que Brenda, 55, tirou a própria vida atirando seu carro ao lago de Mewbourn, a cerca de uma milha de onde sua irmã, a última pessoa a vê-la viva, morava na época.

Nos últimos dias, Mewbourn e o xerife do Condado de Van Zandt, Pat Jordan, perceberam que estavam encarando uma coisa cruel, a seca, como uma estranha espécie de bênção. "Se não fosse pela seca", disse Jordan, "ela provavelmente ainda estaria no carro naquele lago."

A seca histórica que destruiu plantações e obrigou milhões de texanos em cidades pequenas e grandes a fazer uso restrito da água teve pelo menos um benefício: conforme os níveis dos lagos de todo o Estado diminuem, objetos de todos os tipos que estavam submerso por anos, décadas e mesmo séculos estão agora sendo revelados. Alguns dos itens descobertos são entulhos comuns, como monitores de computador, pneus e barcos afundados. Mas muito tem atraído a atenção de historiadores, antropólogos, investigadores criminais e, em um caso, da Nasa.

Lápides de mármore submersas da década de 1880 se tornaram visíveis no lago Buchanan, localizado na região central do Texas. Perto da fronteira entre Texas e Louisiana, as sepulturas de um cemitério do início do século 19 apareceram em um lago atingido pela seca. Pat Mercado-Allinger, diretor da divisão de arqueologia da Comissão Histórica do Texas, disse que uma autoridade de água estimou ter localizado certa de 200 sítios arqueológicos previamente desconhecidos.

"A seca no Texas foi tão grave e tão ampla no Estado inteiro que estamos ouvindo relatos de todas as partes", disse Mercado-Allinger, que estava relutante em discutir localizações precisas dos muitos sítios por causa de preocupações com o saque. "Há colecionadores de artefatos lá fora e saqueadores que buscam oportunidades para aumentar as suas coleções pessoais ou minar os sítios. Temos que ter muito cuidado."

No Lago Georgetown, ao norte de Austin, onde o nível da água caiu sete metros, pescadores encontraram um crânio humano no mês passado. A polícia de Georgetown inicialmente pensou que ele poderia estar relacionado com o desaparecimento em 2002 de uma mulher de 19 anos de idade, mas descobriram que o crânio encontrado tinha valor histórico e não um significado criminal. Acredita-se ser o crânio de um índio que viveu centenas ou milhares de anos atrás e está sendo estudado em um laboratório por antropólogos da Universidade Estadual do Texas, em São Marcos.

No leste do Texas, no Lago Nacogdoches, que baixou três metros na seca, os moradores tropeçaram em um objeto muito maior no final de julho. Era um tanque de alumínio esférico, com 4 metros de diâmetro, rachado no topo e que estava sentado na lama da beira do lago. Mais tarde, funcionários da Nasa determinaram ser um pedaço dos destroços do ônibus espacial Columbia, que se desintegrou durante a reentrada ao planeta em 2003, matando os sete astronautas a bordo.

O detrito, um dos 18 tanques criogênicos utilizados para armazenar o oxigênio e o hidrogênio que forneceram energia elétrica para o ônibus espacial, foi colocado em um caminhão e levado para o Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Apenas um dos 18 tanques continua desaparecido, segundo um porta-voz da Nasa.

No Reservatório Richland-Chambers no centro-norte do Estado, que baixou mais de dois metros, foi encontrado um cemitério de escravos libertos pós-Guerra Civil. Os caixões de madeira e os restos de mais de 20 afro-americanos, a maioria deles crianças, foram encontrados. Um crânio foi descoberto em 2009, após o nível do lago ter baixado ligeiramente, mas quando as águas subiram novamente o local permaneceu submerso, forçando os historiadores amadores a esperar.

"Todo mundo odeia a seca, mas eu precisava dela", disse Bruce F. McManus, presidente da Comissão Histórica do Condado de Navarro. "Eu sabia que estava lá."

Apesar de chuvas periódicas, temperaturas mais baixas e até mesmo alguma neve em Amarillo no mês passado, o Texas permanece em meio a uma de suas piores secas.

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Um tanque do ônibus espacial Columbia, encontrado em rio do Texas

De janeiro a outubro, as chuvas em todo o Estado totalizaram 279 milímetros, cerca de 380 milímetros abaixo da média. O período de doze meses de outubro de 2010 a setembro de 2011 foi o ano mais seco no Texas, pelo menos desde 1895, quando os registros climáticos tiveram início, quebrando o recorde anterior de 1956 por 64 milímetros.

"É a mais grave seca de um único ano no registro", disse John Nielsen-Gammon, climatologista do Estado e professor de ciências atmosféricas na Universidade A & M do Texas. "Não há comparação."

Nielsen-Gammon disse que a seca irá persistir e que a maior parte do Estado passaria por uma grande seca até o verão seguinte. "Teria que chover tanto para compensar que é improvável que isso aconteça na primavera e no verão", disse ele.

Os níveis de água em muitos dos lagos artificiais do Estado se tornaram um barômetro da seca. Eles diminuíram em todo o território, seja uma diferença mínima ou algo assustador, como 1,27 metro ou mais. Alguns lagos estão completamente secos e outros estão perto disso. O Lago E.V. Spence, no oeste do Texas, que normalmente tem uma profundidade máxima de 2,87 metros, está menos de 1% cheio.

Em Canton, no leste do Texas, a seca prejudicou Donna McWilliams - ela e seu marido perderam árvores e venderam o gado por causa da falta de feno -, mas também a ajudou. Ela é a irmã de Brenda, cujo corpo foi encontrado em Martins Mill.

Parentes de Brenda tinham enviado panfletos com sua foto para abrigos e clínicas, e os colocado em restaurantes e farmácias locais, sempre esperando, sempre se perguntando.

"Acho que 'encerramento' é a palavra que define o que eu sinto. Agora não precisamos mais nos perguntar", disse McWilliams, 60. "Acho que a seca é muito ruim, mas se há algo que pode acontecer de bom com ela, com certeza é isso. Foi uma bênção. "

Por Manny Fernandez

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