Sarkozy gera polêmica com plano de museu histórico em Paris

Presidente francês se inspira em antecessores e lança projeto de 'revolta cultural', com Maison de L'Histoire, prevista para 2015

The New York Times |

O sonho de Georges Pompidou era um centro de arte moderna. Valery Giscard d'Estaing assinou o popular Museu d'Orsay. Todo presidente francês depois de De Gaulle imaginou algum monumento cultural faraônico para honrar La Grande Nation, termo usado pela mídia alemã para ocasionalmente zombar de seu vizinho gaulês e consagrar a si próprio, é claro. François Mitterrand se tornou um quase Ramsés II com a abertura da Ópera da Bastilha, de uma nova Biblioteca Nacional, do Instituto do Mundo Árabe e da Pirâmide do Louvre.

Em contrapartida, Nicolas Sarkozy há muito parecia ostentar impaciência com a alta cultura. Presidente Bling-Bling é como o jornal satírico Le Canard Enchainé chama esse político com seus óculos de aviador espelhados e relógios caros, que sai com os amigos do showbiz, tem uma fotografia de si mesmo com Lionel Richie em seu gabinete e se casou com uma modelo e cantora italiana, a famosa Carla Bruni. Sua maior iniciativa cultural foi a apoiar os chefs franceses que fizeram campanha para adicionar a cozinha francesa à Lista de Patrimônio Mundial da Unesco.

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Foto de novembro de 2010 mostra Sarkozy em Lisboa para reunião da Otan
Mas agora Sarkozy decidiu que quer um legado cultural. Ele criou a Maison de L'Histoire de France, o primeiro museu nacional do país sobre a história francesa, que será inaugurado em 2015, em uma ala do palácio localizado no bairro Marais de Paris, atualmente ocupada pelo Arquivo Nacional. A ideia é destilar séculos de glória gaulesa em uma exposição cronológica, acompanhada de palestras, seminários e exposições temporárias apoiadas pelos materiais já abundantes nos museus de história locais e regionais do país.

Pelo menos esse é o plano. Durante meses, manifestantes têm reagido horrorizados à ideia do museu. A maior "revolta cultural" do mandato do presidente é o que um jornal britânico maldosamente chamou de o último contratempo francês.

O problema? Tudo se resume a algumas questões: O que significa ser francês no século 21? E qual "história" deve ser comemorada? Em um país cada vez mais rebelde e multicultural, essas perguntas não têm respostas simples.

Os opositores chamam o museu de história de um truque transparente de Sarkozy para conquistar os eleitores de extrema direita antes das eleições do próximo ano. Uma pesquisa publicada na terça-feira o mostrou 4 pontos atrás de Marine Le Pen, candidata de extrema direita. Durante a última eleição ele usou a identidade nacional para se defender de um desafio do pai de Marine, Jean-Marie Le Pen.

Agora Sarkozy abriu um novo debate sobre o multiculturalismo. No outro dia, ele declarou em uma entrevista na televisão que a França "tem um problema com o islã", e na semana passada em Le Puy-en-Velay, uma cidade de peregrinação cristã no centro da França, ele exaltou o "magnífico patrimônio da civilização e da cultura que o cristianismo deixou para nós" (Não importa que um dos avós de Sarkozy tenha sido judeu). "É sempre perigoso esquecer a sua história", ele alertou.

Sobre a Maison de L'Histoire ele acrescentou: "Os franceses querem se reapropriar de sua história".

Ele apresentou a ideia de uma Maison de L'Histoire pela primeira vez alguns anos atrás, quando inventou o Ministério da Imigração e Identidade Nacional. O presidente descreveu os dois projetos como respostas à diminuição da moral do país. Seu ministro da Cultura, Frederic Mitterrand, opinou prometendo que o museu de história irá iluminar a "alma" da França, seja lá o que isso signifique. Henri Guaino, autor dos discursos do presidente sobre questões de identidade nacional e um importante participante na proposta do museu, foi mais longe, prevendo a Maison como uma solução para a "crise de identidade" da nação.

Sarkozy, desde então, inverteu sua postura sobre o ministério em face a uma avalanche de críticas, devolvendo a imigração para o ministro do Interior e abandonando a questão da identidade nacional. Quanto ao museu, seus companheiros insistem que será uma instituição séria e independente que veiculará todos os pontos de vista, e não um instrumento político.

Os opositores simplesmente não aceitam isso.

"A história de Bling-Bling" é como Nicolas Offenstadt, um jovem professor de História da Universidade Sorbonne, descreveu a situação. Ele parecia bastante irritado outra tarde no requintado café Left Bank. "Sarkozy disse que esse será um museu para dar ao povo francês um forte senso de identidade, que a história é o cimento que une o povo francês. História de quem? A ‘alma’ não é um assunto para cientistas e historiadores. É um conceito moral e político".

A própria ideia de um museu de história especificamente francês é ideológica, Offenstadt acrescentou. "Para saber sobre a Argélia francesa você precisa saber sobre a Argélia antes de a França chegar lá", explicou. "Se precisamos de qualquer museu de história, seria um museu de história mundial, não um museu de história da França, para nos dar uma perspectiva real sobre quem somos e qual é a França de hoje".

Jean-Pierre Rioux, o historiador veterano apontado para dirigir a Maison de L'Histoire, naturalmente discorda. Ele intitulou um livro recente de La France Perd la Memoire (A França Perde sua Memória, em tradução livre), implicando que, tal como Sarkozy e os nacionalistas de extrema direita afirmam, a França perdeu o contato com heróis como Luís XIV e Joana d'Arc, com a avenida principal de sua própria história, que, como a própria língua francesa, há muito era usada para unir e definir a nação.

"O único pecado desse museu é que ele foi criado por Nicolas Sarkozy", sustentou Rioux em uma manhã recente, sentado em sua sala de estar antiquada. Ele nunca teria aceitado o trabalho se não tivesse sido prometido liberdade intelectual, disse. "Alguns historiadores podem não gostar da palavra ‘alma’, mas nesse território geográfico há um acúmulo de circunstâncias culturais, políticas e econômicas de onde vem o conceito de França. É o momento certo para o museu", acrescentou. "Hoje, a crise nacional é que as diferentes comunidades na França se sentem isoladas da nação. Nós precisamos compreender essas fraturas e levantar essa pergunta em um contexto histórico: o que une as pessoas que vivem neste território chamado França?”

Debate

Sarkozy tem usado exatamente esse argumento em seus discursos. O debate histórico não é acadêmico em um país onde o festival anual de história em Blois, na França central atrai milhares de aficionados. Os estudos históricos regularmente compõem as listas de livros mais vendidos e antigos historiadores franceses como Georges Duby e Fernand Braudel não são nomes desconhecidos em muitas casas do país.

Isso é em parte porque na França a "política e identidade são muitas vezes debatidas através da história", como Herve Lemoine, diretor do Arquivo Nacional recém-apontado por Sarkozy, disse em uma tarde recente.

Enquanto Lemoine se estabelecia em seu novo escritório, não muito distante dali trabalhadores do arquivo faziam piquete. Antecipando o anúncio de Sarkozy há cerca de um mês de que o museu será estabelecido no edifício dos arquivos, ao contrário de outros possíveis locais que haviam sido considerados, eles abandonaram seus postos de trabalho em biblioteca e salas de armazenamento para ocupar uma ala do antigo palácio com bandeiras, acampamentos e jantares de fondue.

"Desde a Revolução, os arquivos são livres e abertos a todos, um símbolo público", declarou Pierre-Yves Chiron, um dos arquivistas. Um sans-culotte moderno e cabeludo, ele se disse envergonhado por ver que "os arquivos se tornaram uma ferramenta para as ambições do presidente".

Nesse mesmo tom, uma carta furiosa de um grupo de arquivistas e historiadores foi publicada no Le Monde na semana passada, uma das muitas que ressaltaram o triste "paradoxo" de um museu de história francesa deslocar alguns dos registos nos quais o público e os historiadores franceses confiam para basear sua história.

Política

O paradoxo real pode acabar sendo diferente. Os historiadores poderão olhar para trás e ver a situação de Sarkozy, agradando eleitores de extrema direita que clamam pela restauração da identidade francesa, tal como ela é, enquanto seus adversários irão parecer esnobes acadêmicos. Se a Maison de L'Histoire atuar no seu papel de propaganda antes de abrir, mas em seguida o presidente mantiver sua palavra e permitir que o museu evolua em uma instituição acadêmica independente, Sarkozy pode até mesmo ser incluído ao lado de seus antecessores como um patrono cultural.

Essa certamente seria uma nova identidade para o presidente Bling-Bling. Como Offenstadt colocou, "a identidade é apenas uma construção".

*Por Michael Kimmelman

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