Saiba mais sobre a trajetória de Osama bin Laden

Líder da Al-Qaeda morto neste domingo era símbolo do mal nos EUA e ícone para a causa terrorista

The New York Times |

Osama bin Laden, que foi morto no Paquistão neste domingo , nasceu numa elite saudita cuja campanha radical e violenta para recriar um império muçulmano redefiniu a ameaça do terrorismo no século 21.

Com os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono em 11 de Setembro de 2001, Bin Laden foi elevado ao reino do mal no imaginário americano, local antes reservado para líderes como Hitler e Stalin. Ele passou a ser um novo inimigo nacional, com seu rosto em cartazes e seus vídeos arrogantes passando a assombrar os Estados Unidos e a civilização ocidental.

"Você quer que Bin Laden seja morto?", perguntou um jornalista ao presidente George W. Bush seis dias após os ataques do 11 de Setembro. "Eu quero que ele...Eu quero justiça", o presidente respondeu. "E há um cartaz do velho oeste que, se bem me lembro, dizia: ‘Procurado: Vivo ou Morto’”.

A caçada foi marcada por uma batalha em dezembro de 2001 em uma montanha afegã chamada Tora Bora, perto da fronteira com o Paquistão, onde Bin Laden e seus aliados estavam escondidos. Apesar de dias de bombardeio por parte das forças americanas, Bin Laden escapou. Cinco anos mais tarde, acreditava-se que ele estivesse vivo, escondido em algum lugar seguro ao longo da fronteira entre Afeganistão e Paquistão, e planejando novos ataques.

Muito antes disso ele já havia se tornado um herói em grande parte do mundo islâmico, um mito mais do que um homem – o que um oficial de longa data da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) chamou de "Estrela Norte" do terrorismo global. Ele havia unido diferentes grupos militantes, do Egito à Chechênia, do Iêmen às Filipinas, sob a bandeira da organização Al-Qaeda e de seu ideal de uma fraternidade sem fronteiras do Islã radical.

Antes de Bin Laden, o terrorismo era geralmente patrocinado pelo Estado - mas ele foi um terrorista que patrocinou um Estado. Durante cinco anos, de 1996 a 2001, ele pagou pela proteção do Taleban, na época os governantes do Afeganistão. Ele comprou o tempo e a liberdade que precisava para fazer de seu grupo, a Al-Qaeda – nome que significa "a base" –, uma multinacional que exportava terrorismo a todo o mundo.

Durante anos, após o 11 de Setembro, o nome da Al-Qaeda e a fama de Bin Laden se propagaram como uma praga política do século 21. Grupos que se denominavam Al-Qaeda, ou agindo em nome de sua causa, atacaram tropas americanas no Iraque, bombardearam pontos turísticos em Bali e explodiram trens de passageiros na Espanha.

Até hoje, o alcance exato do seu poder ainda é desconhecido. Ninguém sabe realmente quantos são os integrantes da Al-Qaeda, em quantos países suas células penetraram, e se, como Bin Laden se gabava, ele buscou armar o grupo com armas químicas, biológicas e nucleares.

Ele empreendeu uma guerra santa com métodos distintamente modernos. Ele enviou fatwas – decretos religiosos – por fax e declarou guerra aos americanos em uma mensagem de email transmitida por satélite a todo o mundo. Membros da Al-Qaeda mantinham manuais de fabricação de bombas em CD-ROM e se comunicavam através de memorandos criptografados em computadores portáteis, levando um oficial americano a declarar que Bin Laden possuía melhor tecnologia de comunicação que os Estados Unidos. Ele protestava contra a globalização mesmo enquanto seus agentes na Europa e América do Norte se aproveitavam de um mundo globalizado para realizar seus ataques, insinuando-se na própria cultura ocidental que desprezavam.

Ele se recriou como um asceta muçulmano, o filho de um bilionário que abandonou tudo por sua causa. Mas ele tinha consciência da mídia e de sua imagem – antes que uma equipe da CNN que o entrevistou em 1997 fosse autorizada a partir, seus assessores de comunicação insistiram em editar cenas que não lhe faziam jus. Ele convocava repórteres a uma caverna no Afeganistão quando precisava transmitir sua mensagem, mas como a maioria dos CEOs mais controladores, ele insistia em receber as perguntas por escrito com antecedência.

Sua voz esganiçada parecia desmentir a imagem de guerreiro que ele cultivava, um homem cuja companheira constante era uma Kalashnikov que se gabava de haver tirado de um soldado russo que matou. O terrorista mais ameaçador do mundo, ele também era conhecido por tomar broncas de sua mãe. Embora Bin Laden tenha construído uma reputação sobre sua experiência de combate contra as tropas soviéticas no Afeganistão na década de 1980, mesmo alguns de seus apoiadores questionam se ele realmente lutou.

E embora ele afirmasse seguir a forma mais pura do islamismo, muitos estudiosos insistem que ele ignorava editais do Islã que falam contra o assassinato de inocentes e civis. O Islã coloca limites sobre onde e porque a guerra santa pode ser travada, enquanto Bin Laden declarou o mundo como território justo para ataques.

Mas os Estados Unidos, Bin Laden insistia, é que eram os culpados da contradição.

"Os EUA querem ocupar nossos países, roubar nossos recursos, impor agentes para nos governar e depois querem que concordemos com tudo isso", ele disse à CNN na entrevista de 1997. "Se nos recusamos a fazer isso, dizem que somos terroristas. Quando crianças palestinas jogam pedras contra a ocupação israelense, os Estados Unidos dizem que elas são terroristas. Mas quando Israel bombardeou o edifício das Nações Unidas no Líbano enquanto ele estava cheio de crianças e mulheres, os Estados Unidos interromperam qualquer plano para condenar Israel. Ao mesmo tempo que condenam qualquer muçulmano que exige os seus direitos, eles recebem o principal oficial do Exército Republicano Irlandês na Casa Branca como um líder político. Onde quer que olhemos, encontramos os Estados Unidos como líder do terrorismo e da criminalidade no mundo".

Virada

Tanto para Bin Laden quanto para os Estados Unidos, a virada veio em 1989, com a derrota dos soviéticos no Afeganistão.

Para os Estados Unidos, que haviam apoiado a resistência afegã com bilhões de dólares em armas e munições, a derrota marcou o começo do fim da Guerra Fria e o nascimento de uma nova ordem mundial.

Bin Laden, que tinha apoiado a resistência com dinheiro, equipamentos de construção e habitação, viu a retirada dos soviéticos como uma afirmação do poder muçulmano e uma oportunidade para recriar o poder político islâmico e derrubar governos infiéis através da jihad, ou guerra santa.

Ele declarou a um entrevistador: "Estou confiante de que os muçulmanos serão capazes de acabar com a lenda da chamada superpotência que é a América". Ele construiu sua própria lenda, moldando a si mesmo à imagem do profeta Maomé, que no século 7 levou o povo muçulmano a derrotar os infiéis, ou não crentes, do Norte da África e Oriente Médio. Como o Alcorão foi revelado a Maomé em meio a intensa perseguição, Bin Laden viu as suas próprias expulsões durante a década de 1990 – da Arábia Saudita e, em seguida, do Sudão – como uma afirmação de que era um escolhido.

Em sua visão, ele seria o "emir", ou príncipe, em uma restauração do califa, um império político emitido do Afeganistão a todo o mundo. "Esses países pertencem ao Islã", disse ao mesmo entrevistador em 1998, "não aos governantes".

A Al-Qaeda se tornou a infraestrutura para o estabelecimento de seu sonho. Com a organização, Bin Laden criou uma rede de empresas – algumas legítimas, outras nem tanto – para obter e mover armas, produtos químicos e o dinheiro de que precisava. Ele criou campos de treinamento para seus soldados, um gabinete de comunicação social para espalhar sua palavra, e até mesmo "shuras", ou conselhos, para aprovar seus planos militares e suas fatwas. Nos anos 1990, a Al-Qaeda evoluiu e se tornou vagamente conectada de relações simbióticas: Bin Laden deu a grupos terroristas afiliados dinheiro, formação e especialização, e eles lhe deram cobertura operacional e um aprofundamento da sua causa. Talvez a mais importante dessas alianças tenha sido com o Taleban, que subiu ao poder no Afeganistão em grande parte graças à ajuda de Bin Laden, e por sua vez lhe forneceu refúgio e espaço para lançar sua guerra santa.

Muito antes dos ataques do 11 de Setembro, embora as evidências fossem tênues, as autoridades dos Estados Unidos consideravam Bin Laden pelo menos parcialmente responsável pela morte de soldados nos Estados Unidos, na Somália e na Arábia Saudita; pelo primeiro ataque ao World Trade Center, em 1993; pelo atentado contra as Torres Khobar, na Arábia Saudita e por um frustrado plano de sequestrar uma dúzia de aviões, derrubar uma aeronave na sede da CIA e matar o presidente Bill Clinton. Em 1996, oficiais descreveram Bin Laden como "um dos patrocinadores financeiros mais significativos do extremismo islâmico no mundo”. Mas na época acreditava-se que ele era essencialmente um financiador do terrorismo e não alguém que fosse capaz de orquestrar conspirações terroristas internacionais.

Quando os Estados Unidos criaram uma lista dos terroristas mais procurados em 1997, nem Bin Laden nem a Al-Qaeda estavam nela. Mas Bin Laden pediu para ser notado. Em fevereiro de 1998, ele declarou que o dever de todo muçulmano é "matar americanos onde quer que eles sejam encontrados”. Após os atentados contra duas embaixadas americanas na África, em agosto de 1998, Clinton declarou Bin Laden o "Inimigo Público Número 1".

A CIA passou a maior parte dos três anos seguintes à caça de Bin Laden. O objetivo era capturá-lo com agentes afegãos recrutados ou matá-lo com um míssil de precisão teleguiado, de acordo com o relatório de 2004 da comissão do 11 de Setembro e das memórias de George J. Tenet, diretor da CIA de julho de 1997 a julho de 2004.

As informações nunca foram boas o suficiente para que os EUA puxassem o gatilho. No verão de 2001, a CIA estava convencida de que a Al-Qaeda estava perto de realizar um ataque espetacular. Mas ninguém sabia onde ou quando ele aconteceria.

O início da vida

Pelos relatos de pessoas próximas à família, Osama Bin Muhammad bin Awad bin Laden nasceu em 1957, o sétimo filho homem e 17º criança entre as mais de 50 geradas por seu pai, Muhammad bin Awad bin Laden.

O pai de Bin Laden havia emigrado para o que viria a ser a Arábia Saudita em 1931 da aldeia ancestral da família em uma província conservadora no sul do Iêmen. Ele encontrou trabalho em Jidda como carregador de malas para os peregrinos a caminho de Meca, e anos mais tarde, quando já era dono da maior empresa de construção da Arábia Saudita, ele expunha uma das malas que carregava na principal sala de recepção de seu palácio como um lembrete de suas origens humildes.

De acordo com amigos da família, a ascensão da família Bin Laden começou com um risco – quando o pai se ofereceu para construir um palácio para o rei Saud em 1950 por muito menos do que a menor oferta. Na década de 1960 ele caiu nas graças da família real saudita e o rei Faisal decretou que todos os projetos de construção deveriam ser atribuídos ao grupo Bin Laden. Quando a mesquita Al-Aksa, em Jerusalém, foi incendiada por um turista enlouquecido em 1969, o idoso Bin Laden foi escolhido para reconstruí-la. Logo depois, ele também foi escolhido para remodelar as mesquitas de Meca e Medina. Em entrevistas anos depois, Osama Bin Laden recordou com orgulho que seu pai tinha, algumas vezes, orado em todos os três lugares santos em um só dia.

Seu pai era um muçulmano devoto que recebia peregrinos e clérigos em sua casa. Ele exigia que todos os filhos trabalhassem na empresa da família, o que significa que Osama passava os verões trabalhando em projetos rodoviários. O ancião Bin Laden morreu em um acidente de avião quando Osama tinha 10 anos. Cada um dos irmãos herdou milhões – o valor exato ainda é discutido – e levaram uma vida parecida com a da realeza. Osama – nome que significa "leão" – cresceu brincando com os príncipes sauditas e aos 15 anos já tinha seu próprio estábulo de cavalos.

Mas algumas pessoas próximas à família retratam Bin Laden como o desajustado da família. Sua mãe era da Síria - a única das quatro mulheres de seu pai que não era da Arábia Saudita. O pai de Bin Laden a havia conhecido durante as férias e Osama era seu único filho. Dentro da família, ela ficou conhecida como "a escrava" e Osama bin Laden como "a criança escrava".

Entre a elite saudita, era raro ter ambos os pais nascidos fora do reino. Em um perfil de Osama bin Laden publicado na revista "The New Yorker", Mary Anne Weaver citou um amigo da família que sugeriu que ele se sentia alienado em uma cultura tão obcecada com a linhagem: "Deve ter sido difícil para ele. Osama era quase duplamente um estranho. Suas raízes paternas estão no Iêmen e sua mãe não era nem da Arábia, nem do Iêmen, mas da Síria".

Segundo seu irmão, Osama foi o único filho que nunca viajou ao exterior para estudar. Uma biografia de Bin Laden, entregue ao programa de televisão "Frontline" da emissora PBS por um amigo da família não identificado, afirma que ele nunca viajou para fora do Oriente Médio.

Essa falta de exposição à cultura ocidental se provaria uma distinção crucial. Os outros irmãos passaram a levar uma vida que não seria estranha para a maioria dos americanos. Eles assumiram o negócio da família, agora estimado em US$ 5 bilhões, distribuindo bebidas Snapple, carros Volkswagen e produtos Disney em todo o Oriente Médio. Em 11 de Setembro de 2001, vários irmãos Bin Laden viviam nos Estados Unidos.

Bin Laden havia sido educado – e de fato mergulhado, como muitas crianças sauditas – em wahabismo, a veia do islamismo que é puritana e fervorosamente antiocidental. Mesmo anos mais tarde, ele desprezava tanto a proximidade da família real saudita com as nações ocidentais que se recusou a se referir à Arábia Saudita por seu nome moderno, passando a chamá-la de "o País dos Dois Lugares Santos".

Jornais citaram fontes anônimas – em particular um barbeiro libanês não identificado – a respeito de um período selvagem de bebidas e mulheres na vida de Bin Laden. Mas de acordo com a maioria dos relatos, ele era devoto e tranquilo, e se casou com uma parente, a primeira de suas quatro esposas, aos 17 anos.

Logo depois, ele começou a estudar na Universidade King Abdul-Aziz, em Jidda, onde moldou sua futura militância. Ele se envolveu com a Irmandade Muçulmana, um grupo de radicais islâmicos que acredita que a maior parte do mundo muçulmano, incluindo os líderes da Arábia Saudita, vive como infiéis, em violação ao verdadeiro significado do Alcorão.

E ele caiu sob a influência de dois eruditos islâmicos: Muhammad Quttub e Abdullah Azzam, cujas ideias se tornariam a base para a Al-Qaeda. Azzam tornou-se um mentor para o jovem Bin Laden. A jihad é uma responsabilidade de todos os muçulmanos, ele ensinou, até que as terras antes pertencentes ao Islã sejam recuperadas. Seu lema: "Apenas jihad e fuzil: nenhuma negociação, nenhuma conferência e nenhum diálogo".

Em 1979, quando Bin Laden estava na universidade, o Oriente Médio se tornava cada vez mais instável. No Irã, muçulmanos xiitas armaram uma revolução islâmica que derrubou o xá e começou a ter os Estados Unidos como alvo. Egito e Israel assinaram um tratado de paz. E ao final do ano, as tropas soviéticas ocuparam o Afeganistão.

Bin Laden chegou ao Paquistão, na fronteira do Afeganistão, duas semanas depois da ocupação. Ele disse mais tarde que havia sido convidado pelas autoridades sauditas, que estavam ansiosas para apoiar o movimento de resistência. Em seu livro "Taleban", o jornalista paquistanês Ahmed Rashid disse que os sauditas inicialmente tinham a esperança de que um membro da família real pudesse servir como um líder inspirador no Afeganistão, mas que aceitaram Bin Laden como a melhor solução quando nenhum príncipe se voluntariou.

Ele viajou como um diplomata mais que como um soldado, se encontrando com líderes e observando os refugiados que chegavam a Peshawar, Paquistão. Como o amigo da família afirmou, "foi uma espécie de estudo exploratório, em vez de uma viagem de ação”. Ele voltaria duas vezes por ano nos próximos anos, entre terminar a universidade e fazer lobby entre os membros da família para apoiar os mujahedin afegãos.

Bin Laden começou a atravessar a fronteira com o Afeganistão em 1982, trazendo máquinas de construção e recrutas. Em 1984, ele e Azzam começaram a montar casas de hóspedes em Peshawar, que serviam como a primeira parada para guerreiros sagrados em seu caminho para o Afeganistão. Com o dinheiro que tinha arrecadado na Arábia Saudita, eles criaram o Escritório de Serviços, que se ramificou em todo o mundo para recrutar novos jihadistas.

Os homens passaram a ser conhecidos como os Árabes Afegãos, mas eles vinham de todo o mundo, e seus números foram estimados em torno de 20 mil. Em 1986, Bin Laden também havia começado a criação de campos de treinamento para eles e estava pagando cerca de US$ 25 mil por mês para subsidiá-los.

Para jovens aspirantes a recrutas em todo o mundo árabe, a história de Bin Laden tinha grande apelo: o filho de um bilionário que desistiu de tudo para combater para a causa. Suas próprias descrições das batalhas que tinha visto, de como perdeu o medo da morte e dormiu sob fogo de artilharia, criavam uma figura quase divina.

Mas fontes da inteligência insistem que Bin Laden participou do combate apenas uma vez, em uma barragem de uma semana elaborada pelos soviéticos em Jaji, onde os Árabes Afegãos haviam cavado cavernas como esconderijos usando os equipamentos de construção de Bin Laden.

"O Afeganistão, a jihad, foi uma oportunidade de publicidade fantástica para muita gente", disse Milton Bearden, o agente da CIA que descreveu Bin Laden como a "Estrela Norte", em uma entrevista ao programa "Frontline". "Há muito de ficção ali”.

Ainda assim, Jaji se tornou uma espécie de pedra fundamental na construção do mito Bin Laden. Histórias enviadas do campo de batalha aos jornais árabes, e fotografias de Bin Laden em roupa de combate, poliram sua imagem.

A grande quantidade de jovens que o seguiram até o Afeganistão levou à criação da Al-Qaeda. A questão era essencialmente burocrática. Bin Laden queria uma maneira de acompanhar os homens, para poder dizer a suas famílias o que tinha acontecido com eles. A documentação que a Al-Qaeda fazia tornou-se um banco de dados primitivo de jovens jihadistas.

O Afeganistão também colocou Bin Laden em contato com líderes de outros grupos militantes islâmicos, incluindo Ayman Al-Zawahiri, o médico de óculos que mais tarde iria aparecer ao lado de Bin Laden em mensagens televisivas das cavernas do Afeganistão. Em última análise, o grupo de Zawahiri, a Jihad Egípcia, e outros iriam fundir-se com a Al-Qaeda, fazendo da organização de Bin Laden uma centralizadora de vários grupos terroristas.

O movimento

Quando pensamos no 11 de Setembro, parece irônico que os americanos e Osama bin Laden tenham lutado do mesmo lado contra os soviéticos no Afeganistão – como se os americanos tivessem de alguma forma criado o monstro Bin Laden, fornecendo armas e dinheiro para os árabes. O complexo em Tora Bora, onde os membros da Al-Qaeda se esconderam, havia sido criado com a ajuda da CIA como base para os afegãos combaterem os soviéticos.

Reuters
Em pronunciamento na TV, Barack Obama confirma a morte de Osama bin Laden e diz que a "justiça foi feita"

O próprio Bin Laden descreveu a luta no Afeganistão desta forma: "Lá eu recebi voluntários que vieram do reino da Arábia e de todos os países árabes e muçulmanos. Criei o meu primeiro acampamento, onde os voluntários foram treinados por oficiais paquistaneses e americanos. As armas foram entregues pelos americanos, o dinheiro pelos sauditas”.

Mas na verdade o contato americano não era feito diretamente com Bin Laden. Ambos trabalharam tendo o serviço de inteligência paquistanês como intermediário.

No revisionismo do mito Bin Laden, seus defensores mais tarde diriam que ele não tinha trabalhado com os americanos, mas que os tinha apenas tolerado como um meio para atingir seu objetivo. Como prova, eles insistem que ele fazia declarações antiamericanas desde 1980. Bin Laden diria que, em retrospecto, ele estava sempre ciente de quem eram os seus inimigos.

"Para nós, a ideia era não nos envolvermos mais do que o necessário na luta contra os russos, que era um problema dos americanos, mas sim mostrar a nossa solidariedade com nossos irmãos islâmicos", disse ele a um jornalista francês em 1995. "Eu descobri que não era suficiente lutar no Afeganistão, mas que teríamos de lutar em todas as frentes contra o comunismo ou a opressão ocidental. O mais urgente era o comunismo, mas o próximo alvo era a América”.

O Afeganistão havia infundido o movimento com uma nova confiança.

"O maior benefício para mim foi ter destruído o mito da superpotência não apenas na minha mente, mas também nas mentes de todos os muçulmanos", disse Bin Laden a um entrevistador. "O sono e o cansaço desapareceram, assim como o terror que os Estados Unidos usariam em seus meios de comunicação atribuindo-se o status de superpotência, ou que a União Soviética usava atribuindo-se como uma superpotência”.

Ele voltou à Arábia Saudita recebido como um herói e assumiu os negócios da família. Mas a realeza saudita ficou cada vez mais desconfiada de como ele passou a atacar mais abertamente o governo.

O ponto de ruptura – para Bin Laden e os sauditas – veio quando o Iraque invadiu o Kuwait em agosto de 1990. Bin Laden disse aos sauditas que os homens e equipamentos que ele tinha usado no Afeganistão poderiam defender o reino. Ele ficou "chocado", disse um amigo da família, ao saber que os americanos – na sua cabeça, o inimigo – iriam defendê-lo em seu lugar. Para ele, era o cúmulo da arrogância americana.

Os Estados Unidos, disse ele, mais tarde, a um entrevistador, “haviam começado a ver a si mesmos como senhores deste mundo e estabelecido o que chamavam de a nova ordem mundial".

O governo saudita o restringiu a Jidda, temendo que sua franqueza ofendesse os americanos. Bin Laden fugiu para o Sudão, que se oferecia como uma espécie de porto seguro para os terroristas, e ali começou a constituição de empresas legítimas que poderiam ajudar a financiar a Al-Qaeda. Ele também armou suas reservas em 1992, pagando cerca de 500 mujahedin que tinham sido expulsos do Paquistão para virem trabalhar para ele.

O terrorismo

Acredita-se que foi durante esse tempo que ele aperfeiçoou sua decisão contra os Estados Unidos. Dentro da Al-Qaeda, ele argumentou que a organização deveria colocar de lado suas diferenças com os grupos terroristas xiitas, como o Hezbollah no Líbano, para melhor se concentrar no seu inimigo comum: os EUA. Ele convocou ataques contra as forças americanas na Península da Arábia Saudita e no Chifre da África.

Em 29 de dezembro de 1992, uma bomba explodiu em um hotel em Aden, no Iêmen, onde tropas americanas estavam hospedadas a caminho para a Somália. As tropas já haviam partido e a bomba matou dois turistas austríacos. Autoridades da inteligência americana mais tarde disseram acreditar que este foi o primeiro ataque de Bin Laden.

Em 26 de fevereiro de 1993, uma bomba explodiu em um caminhão estacionado na garagem subterrânea do World Trade Center, matando seis pessoas. Bin Laden depois elogiou Ramzi Yousef, que foi condenado pelo atentado.

Em outubro do mesmo ano, 18 soldados americanos foram mortos – alguns de seus corpos arrastados pelas ruas – durante uma missão de paz na Somália; Bin Laden ficou claramente empolgado com as mortes.

"Depois de deixar o Afeganistão, os combatentes muçulmanos seguiram para a Somália e se prepararam para uma longa batalha, pensando que os americanos eram ‘como os russos’", disse ele a um entrevistador.

“Os jovens ficaram surpresos com a baixa moral dos soldados americanos e perceberam que eles eram tigres de papel e que depois de alguns golpes abandonariam a disputa derrotados”,'disse Bin Laden. "E a América esqueceu toda a propaganda e o estardalhaço da mídia sobre ser o líder mundial e o líder da nova ordem mundial. Após alguns golpes, eles esqueceram este título e partiram, arrastando os seus cadáveres e sua derrota vergonhosa".

Em 1994, Bin Laden havia estabelecido novos campos de treinamento no Sudão, mas ele se tornou um homem sem país. O governo saudita congelou seus ativos e revogou sua cidadania. Sua família, que havia enriquecido por causa de suas relações com a realeza, o denunciou publicamente depois que ele foi pego contrabandeando armas no Iêmen.

Mas aparentemente isso apenas o tornou mais interessado. Ele enviou uma carta aberta ao rei Fahd, que listava os pecados do governo saudita e convocava uma campanha de ataques de guerrilha para expulsar os americanos da Arábia Saudita. Três meses depois, em novembro de 1995, um caminhão-bomba explodiu em um centro de formação da Guarda Nacional da Arábia operada pelos Estados Unidos, em Riade, matando sete pessoas. Naquele ano, investigadores belgas encontraram uma espécie de manual para terroristas em um CD-ROM. O prefácio era dedicado a Bin Laden, o herói da guerra santa.

No mês de maio seguinte, quando os homens acusados do atentado de Riade foram decapitados na praça central da cidade, eles foram obrigados a ler uma confissão em que reconheciam a conexão com Bin Laden. Em junho, um caminhão-bomba destruiu as Khobar Towers, um prédio que servia de residência para militares americanos em Dhahran. Ela matou 19 soldados.

Bin Laden fugiu para o Afeganistão naquele verão, depois que o Sudão o expulsou expulsou sob pressão dos americanos e sauditas, e forjou uma aliança com o mulá Muhammad Omar, líder dos Talebans. Em agosto de 1996, da fortaleza nas montanhas de Tora Bora, no Afeganistão, Bin Laden divulgou sua "declaração de guerra contra os americanos que ocupam o país das Duas Mesquitas Sagradas".

“Os muçulmanos queimam com raiva da América", dizia. A presença de forças americanas nos Estados do Golfo Pérsico "vão provocar o povo do país e induzir a agressão a sua religião, sentimentos e orgulho, os obrigando a assumir a luta armada contra os invasores que ocupam sua terra".

O desequilíbrio de poder entre as forças americanas e as forças muçulmanas exigia um novo tipo de luta, escreveu ele, "em outras palavras, iniciar uma guerra de guerrilha, onde os filhos da nação, e não as forças militares, tomem parte".

Naquele mesmo mês, em Nova York, um júri federal começou a se reunir para analisar as acusações contra Bin Laden. Disputas surgiram entre procuradores, policiais e oficiais da inteligência americana sobre quais ataques contra interesses americanos poderiam realmente ser atribuídos a Bin Laden – se de fato ele tinha, como foi depois acusado, cobrado, treinado e pago os homens que mataram os americanos na Somália.

Seus soldados, em depoimento, ofereceram retratos diferentes do envolvimento real de Bin Laden. Em alguns casos ele pode ser tão distante como qualquer chefe com milhares de empregados. Porém, um dos homens condenados por atentados às embaixadas disse que Bin Laden havia estado tão envolvido que ele havia usado fotos de vigilância para orientar onde o caminhão-bomba deveria ser estacionado.

Bin Laden estava se tornando mais ousado, convocando jornalistas ocidentais aos seus esconderijos no Afeganistão para transmitir a sua mensagem: ele declararia guerra contra os Estados Unidos e seus aliados se Washington não retirasse suas tropas da região do Golfo.

"Então, nós dizemos aos americanos como um povo", ele disse à emissora ABC News, "e dizemos às mães dos soldados e às mães americanas em geral que, se valorizam suas vidas e as vidas de seus filhos, encontrem um governo nacionalista, que cuide de seus interesses e não dos interesses dos judeus. A continuação da tirania vai trazer a luta para a América, como Ramzi Yousef e outros fizeram. Esta é a minha mensagem ao povo americano: procurem um governo sério que cuide de seus interesses e não ataque os outros, suas terras ou a sua honra".

Em fevereiro de 1998, ele publicou o edital de convocação de ataques contra os americanos em qualquer lugar do mundo, declarando isso um "direito individual" de todos os muçulmanos.

Em junho, o júri reunido dois anos antes publicou o seu indiciamento, acusando Bin Laden de conspiração para atacar os Estados Unidos no exterior, por liderar a Al-Qaeda e financiar atividades terroristas ao redor do mundo.

No dia 7 de agosto, o oitavo aniversário do envio das tropas americanas à região do Golfo, duas bombas explodiram simultaneamente em embaixadas americanas em Nairóbi, no Quênia, e Dar es Salaam, na Tanzânia. A bomba de Nairóbi deixou 213 mortos e 4.500 feridos; a bomba em Dar es Salaam matou 11 e feriu 85.

Os Estados Unidos revidaram duas semanas mais tarde, com ataques contra supostos campos de treinamento terrorista no Afeganistão e a uma fábrica farmacêutica no Sudão, que as autoridades afirmavam – erroneamente, como descobriram depois – produzir armas químicas para a Al-Qaeda.

Bin Laden havia engajado os Estados Unidos em uma escalada de tensão na qual as ações de defesa ou de retaliação afirmariam os males que, segundo ele, provocaram os ataques em primeiro lugar. Em entrevista à revista "Time" em dezembro daquele ano, ele menosprezou as ameaças de Clinton contra ele e referiu a si mesmo na terceira pessoa, como se reconhecesse ou incentivasse a noção de que tinha se tornado maior do que uma simples pessoa.

© AP
Avião atinge torre do World Trade Center em Nova York (11/09/2001)
"Nos chamar de o ‘Inimigo Público Número 1’ não nos machuca", disse ele. "Osama Bin Laden está confiante que a nação islâmica irá cumprir o seu dever".

Em janeiro de 1999, o governo dos Estados Unidos emitiu um indiciamento que afirmava o poder que Bin Laden tinha procurado o tempo todo, declarando a Al-Qaeda uma organização terrorista internacional em uma conspiração para matar cidadãos americanos.

Consequências

Após os atentados de 11 de Setembro, Bin Laden fez o que já havia se tornado rotina: ele foi à televisão árabe. Ele pareceu, na sua declaração para o mundo, estar no topo de suas competências. O presidente George W. Bush declarou que as nações do mundo estavam com os americanos ou contra eles na questão do terrorismo; Bin Laden fez uma declaração semelhante, declarando o mundo dividido entre os infiéis e os crentes.

Bin Laden nunca havia aceitado a responsabilidade por ataques terroristas antes disso. Em uma fita de vídeo encontrada na cidade afegã de Kandahar semanas após os ataques, ele firmemente assumiu a responsabilidade – e demonstrou grande alegria – pelo horror do 11 de Setembro.

"Calculamos de antemão o número de baixas do inimigo, que seriam mortos com base na posição da torre", disse ele. "Nós calculamos que os pisos que seriam atingidos seriam três ou quatro andares. Eu fui o mais otimista de todos”.

No vídeo, que o mostra falando com seguidores quase dois meses depois dos ataques, Bin Laden sorri, ouve a aprovação do grupo, e nota com orgulho que os ataques geraram uma onda de interesse no Islã em todo o mundo.

Ele explicou que os sequestradores dos aviões – "os irmãos que conduziram a operação" – não sabiam qual seria a missão até pouco antes de embarcar. Eles sabiam apenas que estavam indo para os Estados Unidos em uma missão suicida.

Bin Laden escapou das forças aliadas que o procuraram durante meses movendo-se à noite com suas esposas e filhos, aparentemente entre cavernas nas montanhas. No entanto, ele estava determinado que se tivesse que morrer, também seria um mártir.

Segundo seus apoiadores, sua maior esperança era que, se morresse nas mãos dos americanos, o mundo muçulmano se levantasse e derrubasse a nação que o assassinou.

Por Kate Zernike, Michael T. Kaufman e Tim Weiner

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