Sacrifício pessoal unia voluntários executados no Afeganistão

Médicos mortos no norte do país sacrificaram a própria segurança para ajudar população afegã

The New York Times |

Sua devoção é mais evidente naquilo que eles abandonaram para cumprir sua missão: Dr. Thomas L. Grams, 51, deixou uma próspera clínica odontológica; Dr. Karen Woo, 36, se afastou do alto salário como cirurgiã; Cheryl Beckett, 32, não tinha tempo para namoro ou casamento.

Mas acima de tudo, os dez médicos executados no norte do Afeganistão há cerca de duas semanas – seis americanos, um alemão, um britânico e dois afegãos – sacrificaram a sua própria segurança, em uma aposta calculada contra o risco para a distribuição de óculos e escovas de dente, remédios e kits pré-natal em aldeias remotas que alcançaram a pé.

AP
Em cima, a partir da esq: Glen D. Lapp, Tom Little, Dan Terry, Thomas Grams; embaixo: Brian Carderelli, Karen Woo, Daniela Beyer, Mahram Ali

Dirk Frans, diretor-executivo da Missão Internacional de Assistência, que organizou a viagem, disse que tinha mencionado preocupações sobre a segurança de um grupo muito grande de estrangeiros. Mas, segundo ele, o líder da equipe, Tom Little, com 35 anos de experiência no Afeganistão, frustrou-se em viagens anteriores por ter poucas mãos para tratar tantas pessoas, disse Frans.

Mesmo Charles Beckett, o pai de uma das vítimas, defendeu os colegas de sua filha.

“Estas são pessoas brilhantes”, disse. “Não é como se elas fossem ingênuas e ignorantes e tivessem alguma fantasia sobre viajar para ajudar algumas pessoas em zonas perigosas”.

Na segunda-feira, grupos de ajuda prometeram continuar o seu trabalho apesar do ataque, que uma organização chamou de “o pior crime à comunidade de ajuda humanitária que já ocorreu no Afeganistão”. Abed Ayoub, diretor executivo da Islamic Relief USA (Apoio Islâmico EUA, em tradução livre), disse que “atualmente não existem planos imediatos para diminuir o nosso trabalho ou o tamanho da equipe no país”.

Ainda assim, os ataques alimentaram temores de que a situação da segurança no Afeganistão está enfraquecendo e que o costume de longa data de permitir a passagem segura para voluntários de ajuda humanitária chegou ao fim. O Taleban e outro grupo insurgente reivindicaram a responsabilidade pelo ataque, com o Taleban acusando os voluntários de espionagem e tentativa de disseminar o cristianismo.

A violência envolvendo voluntários estrangeiros aumentou em 2007 e 2008, depois diminuiu no ano passado conforme as condições pioraram, especialmente em áreas rurais, e grupos de ajuda se tornaram mais cautelosos. No primeiro semestre de 2010, 17 voluntários estrangeiros e afegãos foram mortos, juntamente com 19 sequestrados, mas os ataques a organizações não-governamentais caiu 35% em comparação com o mesmo período em 2009.

O grupo que foi atacado estava retornando de uma missão de três semanas em Nuristan, que incluiu dois voluntários veteranos: Little, de 61 anos, um optometrista, e Dan Terry, 64 - ambos chegaram ao Afeganistão na década de 1970. Little e sua esposa, Libby, criaram três filhas no país.

Little havia encontrado combatentes do Taleban em muitas ocasiões e chegou a dizer a amigos que sempre carregava um frasco de solução salina calmante para aliviar problemas oculares, pelo menos temporariamente, caso os insurgentes exigissem tratamento.

Embora muitas das vítimas sejam cristãs e trabalhem para organizações cristãs, amigos e familiares das vítimas negaram as acusações feitas pelos Talebans de que eram espiões ou catequisadores. “Eles tentavam ser as mãos e os pés de Jesus”, Charles disse Beckett, “não a boca de Jesus”.

Muitos dos trabalhadores tinham viajado o mundo em missões de ajuda. Grams caminhou por aldeias do Monte Everest, carregando equipamentos odontológicos em caiaques, e no Afeganistão tinha aprendido a negociar a etiqueta da burca para que pudesse examinar os dentes de mulheres locais que de outra maneira nunca teriam visto um dentista.

Em 2007 ele desistiu de uma próspera clínica em Durango, no Colorado, para tratar pacientes para os quais a visita de um dentista significava uma mudança de vida com o fim da dor, disse Laurie Mathews, fundadora da Global Dental Relief (Alívio Dental Global, em tradução livre), organização baseada em Denver em nome da qual Grams trabalhava.

A britânica Woo também tinha um espírito aventureiro. Aos 16, ela treinou como bailarina contemporânea e, em seguida, trabalhou como trapezista de um circo voador, realizando acrobacias presa à asa superior de um avião biplano, vestida em um macacão escarlate.

Aos 22 anos, ela entrou na escola de medicina e, finalmente, ofereceu-se para participar de missões na África do Sul, Austrália, Papua Nova Guiné e Trinidade e Tobago. Dois anos atrás, depois de visitar um amigo em Cabul, ela largou o emprego onde recebia US$ 150 mil por ano para se mudar para o país. Lá, ela tinha tartarugas de estimação e encontrou tempo para fazer um desfile de moda para arrecadar dinheiro para caridade. Ela iria se casar em apenas algumas semanas.

Mas era seu trabalho médico que ancorava a sua vida. Sua futura sogra disse ao "Sunday Times" de Londres que Woo resolveu fazer mais para promover os direitos das mulheres no Afeganistão após tratar uma menina de 14 anos que tinha sido queimada depois de se recusar a casar com um homem mais velho.

Em março, Woo escreveu em seu blog que estava "cheia de frustração" após dois dias de exames médicos em homens afegãos. “Eles dizem que as mulheres estrangeiras são tratadas como uma raça de terceira – não são homem nem mulher a seus olhos – e estou sentindo isso agora. Me sinto muito estranha, na minha atitude, na minha educação”.

Cheryl Beckett também tinha viajado o mundo, muitas vezes em missões patrocinadas pela igreja, antes de ir para o Afeganistão seis anos atrás. Lá, ela trabalhou em clínicas de mulheres, plantou hortas e tentou reformar um parque na zona leste de Cabul, destruído depois de anos de guerra. Ela chegou a escrever aos trabalhadores de um parque nacional americano no qual foi estagiária, pedindo conselhos sobre programas de pós-graduação na área florestal.

“Como você pode supor, as pessoas com quem estou trabalhando querem algo que possa ajudá-las a sobreviver, algo que possam usar”, ela escreveu. Ela foi convidada para a expedição de Nuristan principalmente como intérprete porque falava Dari fluentemente, disse Charles Beckett.

Daniela Beyer, 35 anos, era filha de um pastor e também falava Dari. Pierre Grosse, presidente do conselho da igreja na comunidade alemã de Wittgensdorf da qual ela era membro, lembrou dela como uma mulher profundamente religiosa, que traduziu livros para línguas afegãs. “Ela era uma pessoa um pouco tímida, não alguém que iria chamar atenção para si mesma”, afirmou Grosse.

Glen D. Lapp, 40, de Lancaster, Pensilvânia, era uma enfermeira que coordenava um programa de cuidados com os olhos e escrevia para casa sobre “tentar ser um pouco como Cristo nessa parte do mundo”. Brian Carderelli, 25, de Harrisonburg, Virgínia, foi escoteiro e cinegrafista e trabalhava no Afeganistão desde setembro. Ele publicava suas fotografias e vídeos online.

A caminhada médica foi provavelmente extenuante, disse J.D. Patton, ancião na igreja de Carderelli. “Uma experiência muito difícil, escalar aquelas montanhas, passar por rios cheios por causa da chuva”, disse Patton.

Um dos dois afegãos mortos, Jawed Ahmed, 24, cozinheiro, pensava com ansiedade sobre o que faria com os US$ 20 por dia em horas extras que iria ganhar na viagem. Jawed era o principal sustento de sua esposa, três filhos e família próxima, e ele era conhecido em seu bairro pela coleção de 500 fitas cassetes de música que usava para animar casamentos ou festas. A segunda vítima afegã, Mahram Ali, 51, sustentava dois filhos com dificuldade com seu salário de US$ 150 por mês.

Abdul Bagin, irmão de Jawed, disse sobre os assassinos: “Eles eram infiéis, não humanos, não muçulmanos. Eles mataram meu irmão sem qualquer julgamento, sem falar com ele”.

Bagin viu o corpo no necrotério em Cabul e disse que havia uma única ferida de bala, que a equipe forense explicou ter sido disparada a curta distância, no coração.

Por Shaila Dewan – Com reportagem de Joseph Berger, Dan Frosch, Homola Victor, Kulish Nicholas, Nephin Dan, Rod Nordland, Sahak Sharifullah, Somaiya Ravi, Stephanie Strom, Abdul Waheed Wafa e Zezima Katie

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