Rússia insulta e dá recado à Bielo-Rússia via TV

Documentário exibido por emissora russa mostra protestos contra políticas do presidente Alexander Lukashenko, desafeto de Moscou

The New York Times |

A irritação da Rússia com a vizinha Bielo-Rússia se tornou mais evidente na semana passada, depois que uma estação de televisão estatal transmitiu um documentário condenando a forma como o presidente bielorrusso administra a economia, que segundo programa levou ao corte de cerca de um oitavo da eletricidade do país por falta de pagamento. Segundo o documentário, outra fornecedora de energia da Bielo-Rússia foi capaz de compensar com outras fontes de eletricidade, e nenhum apagão foi relatado.

A Rússia, uma aliada intermitente da Bielorússia, país ex-confederado da União Soviética, tem travado disputas econômicas com o presidente Alexander G. Lukashenko, que governa o país com mãos de ferro, chegando a retirar os seus produtos lácteos do mercado russo naquilo que ficou conhecido como "guerra do leite". Mas as relações têm piorado, com disputas recentes sobre empréstimos e pressão russa sobre a Bielo-Rússia para privatizar suas indústrias estatais.

O documentário foi transmitido pela emissora russa NTV, uma estação de propriedade da companhia de fornecimento de energia controlada pelo governo russo, a Gazprom. Transmitido a cidades bielorrussas, o documentário abre com cenas simpáticas de encontros silenciosos realizados como protesto em praças públicas na Bielo-Rússia. Lukashenko, um homem de bigode muitas vezes conhecido como o último ditador da Europa, está no governo desde 1994. Mas a agitação tem crescido conforme a economia mergulha em crise. Muitos líderes da oposição foram presos. Os protestos em silêncio, organizados anonimamente em sites de redes sociais, evitam até mesmo cantos políticos para evitar uma repressão policial imediata.

AP
Manifestantes protestam em Minsk contra política econômica do governo de Alexander Lukashenko (29/6)
O documentário parecia encorajar tais protestos. "Eles estão indo às ruas porque não têm como viver", o locutor disse tristemente sobre as imagens de um desses encontros, descrevendo os participantes como bielo-russos comuns cansados de suas dificuldades econômicas.

O filme criticou Lukashenko, mostrando ele enquanto fazia afirmações absurdas sobre políticas econômicas e incluindo videoclipes que pareciam destacar sua personalidade megalomaníaca, tudo isso de uma maneira que a NTV nunca ousaria fazer em um programa sobre os líderes linha dura da própria Rússia.

"Se não temos sapatos, vamos trabalhar 30 horas por dia", para fazê-los, proclamou Lukashenko em um clipe. "Se não temos roupas vamos trabalhar 50 horas por dia", disse ele, batendo com o punho em um pódio.

Apesar de ser mostrada na televisão estatal russa, o documentário escarneceu da emissora bielorrussa local, usando um de seus clipes de Lukashenko e seu filho posando dentro de um cofre de ouro do banco central da Bielo-Rússia, uma cena aparentemente destinada a conter as vendas de pânico da moeda nacional.

O documentário terminou com cenas de Lukashenko dizendo que esperava encontrar petróleo e desta forma resolver os problemas econômicos de seu país. A Bielo-Rússia não tem campos de petróleo conhecidos. O programa russo citou um especialista dizendo que a Bielo-Rússia deve abandonar a sua moeda e usar o rublo russo em seu lugar. Uma hora depois, a fornecedora de energia elétrica russa Inter RAO desligou todas as exportações de eletricidade para a Bielo-Rússia.

Relação

O mau relacionamento entre a Rússia e a Bielo-Rússia acontece por causa de disputas por grandes negócios e dos fracassos na abordagem de política externa de Lukashenko – uma série infindável de ações que tentaram colocaram a Rússia contra o Ocidente. Em dezembro, depois que a polícia espancou e prendeu os candidatos da oposição depois de uma eleição presidencial fraudada, países ocidentais impuseram sanções à Bielo-Rússia. Com a falta de apoio do Ocidente, Lukashenko ficou sozinho e vulnerável à Rússia.

O governo russo impôs tarifas altas sobre as exportações de petróleo bruto, minando os rentáveis negócios de refino da Bielorrússia que vendiam gasolina para a Europa Ocidental, criando assim um déficit comercial que enfraqueceu a moeda local. A Rússia também forneceu uma solução parcial, na forma de um resgate de US$ 3 bilhões através de um fundo da antiga União Soviética para economias em dificuldades. Mas as autoridades em Moscou exigiram que em troca Lukashenko privatizasse US$ 2,5 bilhões em propriedade do Estado anualmente.

A Gazprom está em negociações para comprar os 50% do sistema nacional de gás da Bielo-Rússia que ainda não possui. Também em andamento estão negociações para fundir empresas de exploração mineral russas e bielo-russas, a Uralkali e a Belaruskali, para criar a maior produtora mundial de cloreto de potássio, ingrediente crucial na agricultura moderna, uma vez que é usado para elevar o rendimento das culturas de grãos, especialmente em climas mais quentes.

Essa fusão, que está por trás do conflito político, formaria um gigante de fornecimento agrícola que controlaria cerca de 42% do mercado mundial de cloreto de potássio, algo que provavelmente seria lucrativo em um momento no qual há grande preocupação sobre a oferta mundial de alimentos.

Lukashenko, no entanto, exigiu uma avaliação da estatal Belaruskali superior ao preço de mercado atual da Uralkali na bolsa de valores russa, ajustado de acordo com a produção das duas empresas. Analistas dizem que os russos não irão aceitar esse preço, portanto as negociações continuam.

*Por Andrew E. Kramer

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