Rússia: Com cautela, Medvedev busca se distanciar de Putin

Em encontro com investidores e chefes de Estado estrangeiros, presidente russo falou sobre riscos de sistema político construído em torno da personalidade de um homem

The New York Times |

Com a próxima eleição presidencial marcada para março, o atual presidente russo, Dmitri Medvedev, complicou a situação política do país com um discurso na sexta-feira em que criticou implicitamente seu antecessor e potencial rival, o primeiro-ministro Vladimir Putin.

No discurso, dirigido a investidores e chefes de Estado estrangeiros em um fórum econômico realizado em São Petersburgo, Medvedev advertiu para uma nova era de estagnação caso o Estado continue a controlar a economia russa. E ele falou, como fez anteriormente, sobre os riscos inerentes a um sistema político construído em torno da personalidade de um homem.

"Nós devemos dizer adeus aos maus hábitos", disse Medvedev depois de descrever como o governo se intrometeu na economia, quando Putin foi presidente entre 2000 e 2008. Ele não fez, contudo, menções ao nome de Putin. Ao longo do discurso, Medvedev repetidamente demarcou uma posição independente, mas não chegou a discordar explicitamente da posição de Putin.

AFP
Medvedev (E) e Putin conversam depois de cerimônia em homenagem aos soldados soviéticos mortos durante a invasão nazista, que completou 70 anos (22/6)
Investidores como os presentes no evento de sexta-feira analisaram cuidadosamente os comentários de Medvedev nesse tipo de posicionamento delicado, porque ele é visto como ocupando um lugar politicamente precário atualmente.

Para sair da sombra de Putin e se tornar um candidato confiável aos olhos dos eleitores urbanos de classe média, seu principal eleitorado, Medvedev precisa demonstrar sua independência. Mas ele tem de tomar cuidado para não aparecer abertamente desleal ao homem que é considerado o mais poderoso da Rússia.

Putin e Medvedev disseram que irão chegar a um acordo particular sobre qual deles irá concorrer à presidência no próximo ano, e oficiais do Kremlin dizem que o anúncio será feito em setembro ou outubro. Medvedev aproveitou a ocasião do Fórum Econômico, um encontro anual, para destacar suas credenciais como um reformador liberal.

"Se tudo começar a funcionar como um sinal vindo do Kremlin - isso acontece e eu sei por experiência pessoal - significa que o sistema é insustentável e deve ser organizado em torno de um indivíduo", disse ele. "Isso é ruim. Significa que o sistema deve ser alterado”.

Comentando a prática das empresas estatais de estocar seus ativos, algo comum durante a presidência de Putin, Medvedev disse: "Outra estagnação poderia se esconder atrás da chamada estabilidade”.

"Os empresários privados devem governar a economia russa", disse. "As economias são como paraquedas: elas só funcionam quando estão abertas".

Sinais

Políticas internas do Kremlin têm vazado para a esfera pública várias vezes este ano, muitas vezes na forma de Medvedev respondendo aos comentários de Putin com uma réplica tão leve que poderia passar despercebida em outros países, mas que na Rússia são importantes. Por exemplo, depois de Putin chamar a intervenção do Ocidente na Líbia de uma "cruzada", Medvedev disse que a palavra era inapropriada - apesar de não ter chegado a mencionar especificamente que Putin a havia usado.

Da mesma forma, quando Putin disse que Mikhail B. Khodorkovsky, um bilionário que se opunha a ele politicamente, era um ladrão que deveria "sentar-se na prisão", Medvedev fez uma observação de advogado dizendo que os tribunais devem decidir essa questão.

O recente discurso de Medvedev abriu um pouco esse espaço entre os dois.

Daniel Treisman, professor de ciência política da Universidade da Califórnia, Los Angeles, descreveu as manobras de Medvedev como "uma estratégia verbal passiva-agressiva" para expressar suas opiniões políticas.

A divergência em suas posições públicas também sugere que eles estão tentando apelar para diferentes públicos, disse Treisman. Medvedev é mais popular entre líderes ocidentais e investidores estrangeiros como os que estavam presentes no Fórum Econômico, onde o presidente tradicionalmente faz um discurso sobre política econômica.

Neste ano, a mensagem parecia ser que Medvedev discorda da política econômica de Putin. "Medvedev sutilmente mostra que está muito chateado com alguma coisa, mas não revela nada", disse Treisman.

Há indícios ocasionais de uma violação mais substantiva. Na semana passada, o jornal Vedemosti informou que Medvedev havia demitido Aleksei Anichin, vice-ministro do Interior e um dos mais altos oficiais da polícia russa. Anichin foi colega de classe de Putin.

O governo russo está tentando vender US$ 30 bilhões de ações de empresas estatais, que pretende privatizar.

Os executivos do Citigroup e do Bank of America, Vikram S.Pandit e Brian T. Moynihan, estavam entre os líderes que discutiram oportunidades nesta semana em São Petersburgo. Falando de sua agenda econômica, Medvedev disse: "Esse projeto deve ser realizado independentemente de quem ocupa qual trabalho em nosso país nos próximos anos”.

E, então, ele ofereceu esse enigma: "Eu vou garantir isso pessoalmente, como presidente do Estado, juntamente com meus colegas”. Seria difícil que ele fizesse isso sem conquistar mais um mandato no cargo.

*Por Andrew E. Kramer

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