Ruínas antigas do Iraque enfrentam nova onda de saques

Milhares de sítios arqueológicos importantes estão desprotegidos, permitindo as chamadas escavações ilegais

The New York Times |

A pilhagem de antigas ruínas do Iraque voltou a prosperar. Dessa vez não é um resultado do caos descuidado que se seguiu à invasão dos Estados Unidos, em 2003, mas sim da indiferença burocrática do novo governo soberano do Iraque. 

Milhares de sítios arqueológicos - que contêm alguns dos mais antigos tesouros da civilização - foram deixados sem proteção, permitindo o que as autoridades do órgão de antiguidades do Iraque dizem ser a retomada de escavações ilegais, principalmente no sul do país.

Uma nova força policial para a defesa das antiguidades, criada em 2008 para substituir as tropas americanas retiradas do país, deveria ter mais de 5 mil agentes até agora. Ela tem 106, o suficiente para proteger sua sede em uma mansão da era otomana na margem oriental do rio Tigre, em Bagdá, e não muito mais.

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Beduínos observam tumba suméria saqueada perto da vila de Dhahir, no sul do Iraque (21/05/2010)
No caso das antigas ruínas do Iraque, o custo tem sido a perda de inúmeros artefatos das civilizações da Mesopotâmia, uma história que os líderes do país muitas vezes evocam como parte da grandeza do passado e futuro iraquianos, antecipando a pesquisa arqueológica e o turismo.

"As pessoas que tomam essas decisões falam muito sobre a história em seus discursos e conferências", disse o diretor do Conselho Estadual de Antiguidades e Patrimônio, Qais Hussein Rashid, referindo-se à situação da nova força policial, "mas não fazem nada".

Em Dhahir, o saque é evidente nos pedaços estilhaçados de civilizações - peças de cerâmica, vidro e pedra esculpida - que se espalharam por grande parte de um deserto que foi outrora uma cidade comercial suméria conhecida como Dubrum.

Até a criação da polícia para as antiguidades em 2008, a responsabilidade de proteger os sítios arqueológicos era da Polícia de Proteção Federal, uma força criada, equipada e treinada pelos militares dos EUA.

A polícia federal, no entanto, também é responsável por oficiais do governo e seus edifícios, como escolas e museus. As ruínas, algumas apenas manchas desoladas no deserto, tornaram-se a última prioridade da força.

Rashid também disse que o pedido de sua agência por um orçamento de US$ 16 milhões em 2010 foi reduzido para US$ 2,5 milhões. Os policiais prometidos pelo Ministério do Interior simplesmente não foram entregues, apesar de uma ordem ter sido emitida no fim do ano passado pelo primeiro-ministro Nuri Al-Maliki.

Amir Abdul Razak Al-Zubaidi, o inspetor em Dhi Qar, comparou a crise atual à pilhagem do Museu Nacional em Bagdá, um saque convulsivo que chocou o mundo.

O destino do museu continua a atrair muito mais atenção do governo e de doadores internacionais. "A maioria das peças que roubadas do Museu Nacional vai voltar", disse Al-Zubaidi. "Cada peça foi marcada e registrada."

Quase metade das 15 mil peças saqueadas do Museu foi devolvida. "As peças que foram roubadas aqui nunca serão devolvidas", disse. "Elas estão perdidas para sempre."

*Por Steven Lee Myers

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