Rostos dos jovens de Sitra predizem futuro sombrio para o Bahrein

Autoridades sugerem que a crise no país terminou, mas ninguém em Sitra parece concordar

The New York Times |

Às vezes, um nome sugere uma condição. Como Beirute, uma geração atrás, e Bagdá mais recentemente. No Bahrein, um Estado do Golfo Pérsico tão polarizado que a própria verdade é uma questão de interpretação, esse nome é Sitra. Aqui, os rostos dos jovens parecem revelar um futuro para o país que se assemelha aos escombros das ruas repletas de violência da cidade.

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Parentes de Ahmed Farhan, que foi morto em 15 de março de 2011 velam seu corpo três dias depois em Sitra, Bahrein
Em uma noite recente, após confrontos que ocorrem quase diariamente, um deles entrou na casa de um parente, pressionando os olhos como se tivesse saído de um calabouço para a claridade do sol. Gás lacrimogêneo. Seu amigo sorriu quando ele mostrou as cicatrizes deixadas por balas de borracha disparadas contra sua perna e peito. Outro encolheu os ombros quando ele tirou a camisa e revelou suas costas marcadas. "Sitra", disse o amigo, Sanad, "é a crise".

Quando os protestos começaram no Bahrein em fevereiro , ativistas os consideraram parte das revoltas árabes , uma onda de tumultos que derrubou a velha ordem da Tunísia à Síria . Isso foi antes de a Arábia Saudita intervir militarmente , antes de uma repressão ter sido imposta sobre a maioria xiita que foi tão arrebatadora que chegou a ser comparada com o apartheid (sistema de segregação racial da África do Sul), antes de elementos de uma família governante sunita de linha dura tornarem-se mais perceptíveis.

Autoridades do governo atualemente sugerem que a crise acabou, mesmo que reconheçam os danos que foram causados nas relações entre sunitas e xiitas em um país que tinha conseguido relativa abertura e até mesmo um certo cosmopolitismo apesar de sua desigualdade entrincheirada.

"Uma ferida aberta", disse o xeque Abdel-Aziz bin Mubarak Al-Khalifa, um conselheiro sênior do governo. Mas, acrescentou, "estamos em um lugar muito melhor do que estávamos há três meses".

Ninguém em Sitra parece concordar. Essa cidade xiita de 80 mil de habitantes, antes uma aldeia bucólica da pesca e agricultura, transformou-se em um quadro de angústia urbana tão impaciente que até mesmo os líderes da oposição sacodem a cabeça diante de seu desafio. Quase um terço dos manifestantes mortos – dez até agora – veio de Sitra, localizada a uma hora de carro da capital, Manama, que virou um caldeirão de dificuldades, politização e repressão.

Embora os confrontos não sejam novidade – a década de 1990 testemunhou ataques semelhantes –, a persistência e amplitude revelam o quão irascível está o conflito do Bahrein e espelham a agitação entre a polícia e os jovens em outras cidades xiitas negligenciadas.

"Sitra é uma versão miniatura do Bahrein", disse Muhammad, outro jovem local, que, como outros entrevistados, não quis ser identificado por seu nome completo. Sanad, seu amigo, acrescentou: "Ainda estamos aqui, temos exigências e existimos."

Em cenas que lembram Hama, na Síria, ou partes da Praça Tahrir, no auge da revolta do Egito , os jovens constroem barricadas durante a noite para impedir a entrada da polícia, em seguida removem algumas delas na parte da manhã. Há postes telefônicos e blocos de cimento e cadeiras de sala de estar e caçambas de lixo com seu conteúdo despejado pelo chão. A polícia tem feito patrulhas a pé, dada a dificuldade de caminhar pelas ruas. Os jovens ficam nas esquinas trocando informações pelo Twitter e Skype.

Até as paredes de fortaleza ao redor da delegacia de polícia local está repleta de pichações, apesar de sua limpeza constante. Os slogans que permanecem levam mensagens dos jovens. "Abaixo Hamad", lê-se, em uma mensagem contra o rei Hamad bin Isa Al-Khalifa."Só ajoelharemos diante de Deus", diz outra. Perto dali, um slogan em vermelho diz: "O movimento continua".

"Quando eles caírem", disse Muhammad sobre a família Khalifa, que governa o país há dois séculos, "haverá sangue. Não quero que isso aconteça. Nosso sangue não é barato. Mas não vejo isso acontecendo de outra forma. Eles só conhecem a brutalidade. Essa é a língua deles."

A oposição tradicional reconhece uma verdade sobre Sitra: moradores de cidades como essa são mais radicais do que os demais. O maior dos grupos de oposição xiita, o Al-Wefaq, toma o cuidado de não pedir uma república, apenas uma monarquia constitucional. O grupo também evita insultar o rei ou fechar canais de relacionamento que espera usar para implementar um parlamento eleito e capacitado.

Para ambos os xiitas e sunitas, que temem a dominação pelos xiitas, o tempo é muitas vezes curto. Jovens xiitas falam da conquista de Bahrein pelos Khalifas como algo da memória recente. O mesmo vale para alguns sunitas e a revolução iraniana de 1979, cujo exemplo acreditam ainda motivar ativistas xiitas.

"Nossos avós sofreram com o Khalifas, nossos pais passaram por isso e agora sofremos", disse um jovem que pediu para não ser identificado. "Eles nos governam por meio do sangue, não do consentimento, e essa batalha de 230 anos continua até agora."

Um das vítimas em Sitra foi Jawad Ali Ahmed, um manifestante de 14 anos que morreu em 30 de agosto. Sua família diz que uma bomba de gás lacrimogêneo feriu sua cabeça. Ninguém aqui acredita na versão do governo, de que ele foi vítima de um ato criminoso.

Seu nome foi rabiscado nas paredes externas da casa de seu pai, e ele foi declarado um mártir. No interior, seu retrato está pendurado com os dizeres: "O povo quer a derrubada do regime."

Quando finalmente viu seu corpo ainda vestido com uma camisa de futebol italiano e shorts, sua cabeça completamente enfaixada, seu pai disse que não pode encontrar lugar para beijar seu rosto. "Por que eles tiveram de matar o meu filho?", perguntou. "Ele era apenas um menino. Por que não apenas o prenderam?", disse balançando a cabeça. "Não, eles tiveram de matá-lo."

No Ministério do Interior, que é responsável pela polícia que patrulha Sitra, o seu porta-voz, o brigadeiro general Tariq Alhassen, refletiu sobre o que está por vir nessa cidade e em outras. "Como isso acabará?", perguntou. "Não sei."

Alhassen sustentou que apenas uma pequena fração dos residentes de Sitra tomou parte nos protestos, e que aqueles que o fizeram estão empenhados em criar caos. Ele catalogou as armas – pedras, estilingues com rolamentos de esferas e bombas de gasolina. Ele chamou os jovens de "enganados e equivocados". "Jovens, como você sabe, são muito energéticos", disse. "São aventureiros."

No entanto, a narrativa política da agitação é inevitável, como é a sensação aqui de que se está diante de uma presença policial cada vez mais radical e mais inflexível, que muitas vezes se sente atuando contra uma ocupação. Os moradores locais trocam vídeos por celular do que dizem ser abusos policiais. Nas ruas, apontam para carros cujos para-brisas dizem ter sido quebrados pela polícia.

"As pessoas estão ficando mais nervosas, o que, para ser honesto, é assustador", disse Muhammad.

Ele previu mais instabilidade em um país que serve como base para a Quinta Frota da Marinha dos EUA. "Pode explodir a qualquer momento", disse ele, conforme o leve rastro de gás lacrimogêneo pairava no ar. Sanad acrescentou: "Eles estão criando uma comunidade com nada a perder. As pessoas ainda têm algo a perder. Pelo menos agora elas têm. Mas por quanto tempo?"

O pai de 44 anos de idade de um manifestante morto ouvia a conversa tendo em seu rosto a dor de um pai que sobreviveu a seu filho. "Só vou aceitar a queda de Hamad", disse.

Por Anthony Shadid

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