Romney tira lições de derrota política de sua mãe

Embora cite mais o pai, que governou Michigan, pré-candidato também é influenciado pela mãe, que concorreu ao Senado

The New York Times |

Mitt Romney tinha 22 anos quando seu pai recorreu a ele e a seus irmãos em busca de aconselhamento político. Isso aconteceu em dezembro de 1969. George Romney, ex-governador de Michigan, estava ponderando sobre as perspectivas eleitorais de outro membro da família: sua mulher, Lenore.

Uma estrela de Hollywood que parou de atuar para se casar, Lenore Romney tinha poucas credenciais políticas. Mas ela havia sido uma primeira-dama muito popular no Estado. Republicanos de alto escalão em Michigan a incentivavam a se candidatar para uma cadeira no Senado dos Estados Unidos.

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George e Lenore Romney posam para foto com os filhos, da esq para a dir: Mitt, Scott, Jane e Margo

"As crianças riram disso", escreveu Elly Peterson, uma confidente de Romney e estrategista do partido, em um livro de suas próprias memórias. "Então, primeiro Mitt e depois os outros começaram a mudar de ideia. Eles finalmente decidiram que ela deveria concorrer".

Hoje Mitt Romney é candidato à indicação presidencial republicana e enfrentou uma dura batalha para vencer as primárias em Michigan , o Estado onde nasceu e cresceu. Os folhetos de sua campanha, assim como seus comerciais, eram repletos de imagens em preto e branco dele com seu pai, um empresário que virou político.

Mas quando se presta atenção em Lenore, um dos membros menos conhecidos da família Romney, fica claro que Mitt Romney é mais parecido com sua mãe em termos de temperamento e visão.

Uma dona de casa mórmon que finalmente emergiu como defensora da participação das mulheres nos negócios e na política, Lenore Romney, que morreu aos 89 anos em 1998, tinha uma "vontade ferrenha", nas palavras de Phillip Maxwell, um amigo de infância de Mitt. Seu marido era franco e sincero, um militante que entrava em um local muitas vezes de maneira descontrolada e agressiva. Lenore era mais controlada e independente, características que os amigos dizem ver em Mitt, o filho mais novo.

"George era muito diferente de Mitt - ele parecia um touro entrando em uma loja de porcelana e sempre acabava dizendo o que estava pensando", disse Maxwell, um colega de Mitt Romney na Escola Cranbrook, um colégio particular de elite da região. "Lenore era muito mais comedida. Todo mundo quer compará-lo com seu pai, mas ele é realmente muito mais parecido com sua mãe pois é muito mais reservado."

Apenas dois anos depois de Romney ter aprendido sobre a brutalidade da política através da mal sucedida campanha presidencial de seu pai em 1968, ele presenciou a derrota de sua mãe em 1970. Em seguida, aos 23 anos e já casado, ele acabou usando parte de suas férias de verão na Universidade Brigham Young para fazer campanha para ela, aparecendo em universidades e feiras - uma experiência que, segundo ele, "me ensinou a sair, ver as pessoas e ouvir o que elas estão dizendo."

Ela estava mal preparada para os rigores da política - "Lenore não era tão forte quanto George nesse quesito", disse Bill Ballenger, editor de um boletim político de Michigan - e perdeu feio para um candidato popular democrata, Phil Hart, assim como Mitt Romney viria a perder a disputa para o Senado em 1994 em Massachusetts para outro democrata, Edward M. Kennedy.

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E embora Lenore Romney esperasse uma trajetória mais tranquila para a nomeação republicana por conta de seu sobrenome, ela enfrentou um difícil desafio em relação à direita de seu partido, assim como seu filho enfrenta hoje.

"Existem muitas discussões sendo levantadas em relação a Mitt Romney e se ele irá conseguir atingir os membros do movimento Tea Party e afins", disse Sara Fitzgerald, cuja biografia de Elly Peterson narra a luta árdua de Lenore Romney como candidata. "Uma das coisas que sua mãe teve de enfrentar foram os ataques da direita conservadora do Partido Republicano de Michigan. As pessoas comentam que ela enfrentou mais oposição por parte dos conservadores do que de Phil Hart."

Mitt Romney se recusou a ser entrevistado para esta reportagem, assim como outros membros da família. Durante a campanha, se ele menciona a mãe, fala dela apenas em relação ao papel de apoio que deu ao seu pai.

Mas embora Lenore Romney tenha sido uma tradicionalista – que quase não prestava atenção às "vozes estridentes" do movimento da libertação feminina e acreditava que "a mulher desempenha um papel vital no desenvolvimento do marido" - ela também tinha uma mensagem forte sobre o papel que as mulheres influentes poderiam desempenhar nos negócios e no governo.

Antigos colegas de Romney, incluindo alguns que não o apoiam, dizem que ele parece ter abraçado essa mensagem.

Quando ele levou a empresa de consultoria de Boston da Bain & Co. à uma reviravolta no início de 1990, lançou as bases para uma mulher, Orit Gadiesh, sucedê-lo.

Em 2002, escolheu uma mulher, Kerry Healey, como sua companheira na disputa para governador. Colegas de classe da Escola de Negócios de Harvard disseram que, nesse ambiente dominado pelos homens, Romney se destacava por estar disposto à pedir a opinião das mulheres. "Mitt não é machista", disse Ann Hagan, uma de suas colegas de classe e democrata.

Em uma questão - o aborto - Romney citou explicitamente a posição de sua mãe como base para formular a sua própria opinião. Durante sua disputa de 1994 contra Kennedy e novamente em 2002 quando concorreu a governador de Massachusetts, ele disse aos eleitores que sua mãe era contra o aborto, mas tinha tomado "uma posição muito ousada e corajosa" ao argumentar que "a mulher deve ter o direito de escolher". Ele disse que também pensava assim.

Republicanos de longa data de Michigan e analistas políticos, no entanto, não se lembram de Lenore Romney ter feito essa argumentação, e o que ela realmente acreditava não era muito claro. O aborto era legal em Michigan apenas em caso necessário para salvar a vida da mãe, e a disputa entre Romney-Hart aconteceu três anos antes do caso de 1973 de Roe contra Mark ter sido decidido pela Suprema Corte e transformado o aborto em um tema que já não era mais discutido. "Ninguém falava a respeito disso", disse Ballenger.

Os documentos internos da campanha de Lenore Romney, arquivados na Biblioteca Histórica de Bentley da Universidade de Michigan, indicam que seus assessores pediam que ela falasse a favor de expandir o acesso ao aborto. Mas em 1972, dois anos depois de ter perdido, ela tornou sua oposição pessoal sobre o assunto mais clara, assim como Mitt Romney eventualmente o fez depois de ter sido eleito governador. e"Não sou a favor de acabar com uma vida", disse ela a um entrevistador.

O romance de conto de fadas que existia entre George e Lenore Romney - ele disse que levava uma rosa para sua mulher todos os dias - mais tarde se tornou material para campanha. Quando Mitt Romney falava com amigos de sua mãe, ele muitas vezes compartilhava da reverência que seu pai tinha por ela.

"Ele disse que George não admitia que seus filhos desrespeitassem Lenore”, disse Dane McBride, que serviu como missionário na França com Mitt Romney e também o conheceu em Brigham Young. Hoje, os filhos de Mitt Romney dizem que seu pai pediu a mesma atitude deles com sua mãe.

Mas ao contrário do pré-candidato e sua mulher, Ann, George e Lenore viviam discutindo, de acordo com uma recente biografia de Mitt Romney escrita por Michael Kranish e Helman Scott, que também relata que os netos de Romney diziam que os bisavós sempre discutiam. Aqueles que conheceram Lenore Romney disseram que ela não tinha medo de retrucar os argumentos de seu marido.

"Ela tinha muita segurança nas coisas em que acreditava", disse Jerry Roe, um antigo republicano de Michigan que trabalhou nas campanhas de George Romney.

Em 1962, quando George Romney - que havia sido presidente da American Motors Corp – estava fazendo sua primeira campanha para governador, Lenore surgiu como uma defensora popular, fazendo discursos estimulantes para as mulheres republicanas. Mitt, então com 15 anos, estava muitas vezes presente durante os eventos.

Mas se Lenore Romney foi uma força que ajudou o marido e o filho a chegarem ao sucesso, como candidata ao Senado ela tentou se distanciar da crença de que George Romney era quem estava por trás de tudo. "Não sou representante de ninguém", disse ela ao jornal The Detroit News.

Os eleitores, porém, não acreditaram nela, e nem os especialistas. Ela perdeu, tendo 33% contra 67% dos votos. No ano seguinte, ela escreveu um artigo na revista Look lamentando o tratamento desdenhoso que recebeu quando era candidata.

"Nas fábricas eu me deparava com homens em pequenos grupos, rindo, gritando, 'Vá para a cozinha, George precisa de você lá. O que você sabe de política?'"

Por Sheryl Gay Stolberg

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