Robô semelhante a uma foca dá alento a idosos com demência

Após anos de esforço para conseguir empatia de máquinas, robôs projetados para nos dar apoio e fazer companhia saem do laboratório

The New York Times |

Nada que Eileen Oldaker fizesse conseguiria acalmar sua mãe quando ela telefonou do asilo, desorientada e angustiada nas fases iniciais de demência. Então Oldaker desligou, telefonou para o posto de enfermagem e lhes implorou que conseguissem um Paro para ela.

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Idosa segura "robô pessoal", modelado com objetivo terapêutico para pacientes com demência
Paro é um robô feito à semelhança de um bebê foca. Ele vibra e se move quando acariciado, pisca quando luzes são acesas, abre os olhos quando há barulho e geme quando manipulado sem cuidado.

Dois microprocessadores sob o pêlo sintético branco ajustam seu comportamento com base em informações de dezenas de sensores escondidos que monitoram som, temperatura, luz e toque. Ele responde ao ser chamado pelo nome ou ser elogiado, após certo tempo para aprender as palavras.

"Oh, este é o meu bebê", a mãe de Oldaker, Millie Lesek, exclamou naquela noite de inverno quando uma enfermeira lhe entregou o aparelho. "Venha, Paro, venha comigo." "Meeaakk", respondeu o bebê eletrônico, piscando para ela com seus longos cílios.

Janet Walters, agente da Casa Vicentina em Pittsburgh, que recordou o acontecimento, disse que pediu que Millie cuidasse de Paro por um instante. "Preciso de alguém para cuidar dele", disse. "Não se apresse", disse Millie, acariciando a pelúcia antisséptica de Paro em um movimento que o fez se contorcer de alegria. "Ele pode passar a noite comigo."

Depois de anos de esforço para conseguir empatia por meio de circuitos elétricos, dispositivos destinados a acalmar, dar apoio e nos fazer companhia se aventuram fora dos laboratórios.

Paro, com o nome derivado dos primeiros sons das palavras "robôs pessoais" em inglês, é um dos poucos que assumem formas que muitas vezes são estranhas, primitivas e, ainda assim, pelo menos para alguns dos primeiros usuários, estranhamente atraentes.

Para aqueles com um anseio por um companheiro próprio e com US$125 mil para gastar, uma cabeça robótica falante pode ser modelada na personalidade de sua escolha. Ela vai rir de sua próprias piadas e reconhecer rostos familiares.

Para pessoas em dieta, um robô de 15 polegadas com uma barriga feita de tela de toque, olhos grandes e uma voz feminina fica no balcão da cozinha e oferece incentivo após o cálculo das calorias e exercício físico feito de um dia. "Volta amanhã para conversarmos?" pede o robô no final de cada sessão. "É bom que possamos discutir o seu progresso a cada dia."

Robôs guiados por alguma forma de inteligência artificial agora exploram o espaço sideral, jogam bombas, realizam cirurgias e jogam futebol. Computadores com software de inteligência artificial lidam com atendimento ao cliente e vencem humanos no xadrez.

Máquinas companheiras

Mas construir uma máquina que preenche a necessidade humana básica de companhia se mostrou mais difícil. Mesmo em sua tecnologia de ponta, a inteligência artificial ainda não pode manter uma conversa ampla, ou, digamos, dizer pela expressão quando alguém está prestes a chorar.

Ainda assim, os novos dispositivos tiram proveito da inata necessidade de muitas pessoas de objetos que pareçam se importar - ou precisam que alguém cuide deles.

Seu surgimento em asilos, escolas e na sala de estar ocasional está alimentando fantasias de ficção científica sobre máquinas com as quais as pessoas podem se relacionar e confiar. Mas também trazem uma dimensão pessoal ao debate sobre o que as máquinas devem poder ou não fazer.

Eileen Oldaker, assistente administrativo em período parcial, disse que está contente que Paro fez companhia para sua mãe quando ela não pode. Nos meses que antecederam à morte de Millie Lesek em março, o robô se tornou presença constante na sala, mesmo durante as visitas da própria filha.

Como a terapia com animais de estimação sem um animal de estimação, o Paro pode ter benefícios para os pacientes que são alérgicos e mesmo aqueles que não são.

Ele não precisa ser alimentado ou limpo, ele não morde e pode, em alguns casos, oferecer uma alternativa aos medicamentos, tornando-se um recurso padrão para pacientes deprimidos ou de difícil controle.

No Japão, cerca de 1 mil Paros foram vendidos para asilos, hospitais e consumidores individuais. Na Dinamarca, as autoridades de saúde do governo estão tentando quantificar o seu efeito na pressão sanguínea e outros indicadores de estresse.

Uma vez que o robô foi posto à venda nos Estados Unidos no ano passado, algumas instalações de atendimento aos idosos compraram um; outras instituições, acreditando na sua funcionalidade, assinaram contratos de aluguel com a fabricante japonesa.

Mas alguns críticos sociais veem o uso de robôs com os pacientes como um sinal do status inferior dos idosos, especialmente aqueles com demência.

Conforme a tecnologia melhora, diz Sherry Turkle, psicóloga e professora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, será cada vez mais tentador substituir a família, amigos e até mesmo animais reais por Paro e esse tipo de aparelho em um número cada vez maior de situações.

"Paro é o começo", disse. "É o que nos permite dizer: 'Um robô faz sentido nessa situação'. Mas faz mesmo? E depois? Que tal um robô que lê para seu filho? Um robô para quem você conte seus problemas? Quem entre nós acabará por merecer a atenção de outras pessoas?"

Mas por mais que exista razão no argumento de que as pessoas devem aspirar mais a seus entes queridos do que a um relacionamento emocional com máquinas, alguns sugerem que tais relações não precisam ser estranhas. Quem entre nós, afinal, nunca finge interesse em outra pessoa? Ou rompe abruptamente com seus afetos?

Em qualquer caso, a questão, segundo alguns aficionados da inteligência artificial, não é evitar os sentimentos que as máquinas amigáveis evocam em nós, mas descobrir como lidar com eles.

"Nós, como espécie, temos de aprender a lidar com essa nova gama de emoções sintéticas que estamos vivenciando - sintética no sentido de que são provenientes de um objeto fabricado", disse Timothy Hornyak, autor de "Loving the Machine", um livro sobre robôs no Japão, onde a população de envelhecimento mais rápido do mundo está mostrando uma crescente aceitação dos cuidados robóticos. "Nossa tecnologia", argumenta ele, "está passando na frente da nossa psicologia".

Mais proficientes nas relações emocionais e menos parecidos com brinquedos do que seus precursores - como o cão Aibo ou as quinquilharias que foram manias nos Natais passados - ainda é pouco provável que esses dispositivos substituam o melhor amigo de alguém. Mas conforme o custo de fabricação cai, eles podem passar a competir por um lugar de silício em nossas afeições.

* Por Amy Harmon

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