Rivalidades impedem formação de governo na Líbia

Dificuldade do CNT de preencher vácuo político prejudica esforços para unificar país e exercer autoridade sobre milícias

The New York Times |

Quando os combatentes que derrubaram Muamar Kadafi encontraram esconderijos onde estavam suas armas, não as entregaram ao novo governo provisório da Líbia. Em vez disso, transportaram-na de volta para suas cidades natais, como Misrata, Zintan, Yafran ou Rujban. E quando capturaram integrantess do governo de Kadafi, eles também os levaram para casa.

"Por que não deveríamos?", questionou Mohamed Benrasali, membro do Conselho Nacional de Transição, a autoridade interina de governo, em Misrata. "Chamamos isso de espólios de guerra".

Anwar Fekini, um líder da cidade de Rujban, localizada na montanha de Nafusa, concordou: "Todos fizemos o mesmo."

Conforme os ex-rebeldes da Líbia tentam montar um governo para substituir o de Kadafi, a apreensão silenciosa de armas e prisioneiros ilustra as divisões causadas por rivalidades regionais e a desconfiança mútua que continuam a impedir o progresso.

NYT
Rebelde líbio carrega munição roubada de depósito do governo Kadafi nos arredores de Trípoli (23/08)

Já se passaram quase dois meses desde que os líderes do Conselho Nacional de Transição prometeram montar um novo gabinete, em meio às recriminações sobre o assassinato ainda sem explicação de seu principal comandante militar. A promessa foi renovada mais de um mês atrás, após a queda de Trípoli.

Mas depois de uma reunião no domingo em que tentaram novamente chegar a um acordo, autoridades de alto escalão do conselho ainda não conseguiram superar as disputas regionais sobre a composição do Conselho de Ministros, embora seja esperado que esse órgão detenha o poder apenas nos primeiros oito meses posteriores à declaração oficial de "libertação" da Líbia.

Este vácuo de governo, por sua vez, impede esforços para unificar o país, exercer autoridade civil sobre milícias desgovernadas e obter o controle das armas que agora inundam as ruas.

As negociações estão num impasse, segundo os membros do conselho, sobre como dividir o poder entre grupos de diferentes regiões. Líderes de Benghazi, Misrata, Zintan e outras cidades argumentam que todos os seus sofrimentos e contribuições durante a revolta devem lhes atribuir uma voz maior.

Alguns também questionam a atual face do conselho para o mundo, Mahmoud Jibril, ex-professor de ciência política da Universidade de Pittsburgh que acumulou os cargos de premiê e ministro das Relações Exteriores. Ele enfrenta oposição especialmente em Misrata, um centro de fabricação e comércio cujos combatentes suportaram um cerco devastador imposto pelas tropas de Kadafi, e que emergiu como a força mais potente dos rebeldes. "Misrata nunca vai aceitar Mahmoud Jibril", disse Benrasali, porta-voz dos combatentes da cidade.

Ele culpou o primeiro-ministro de passar pouco tempo na Líbia nos anos de Kadafi e quase nenhum tempo no país durante a revolta. "Ele é uma fonte de tensão e não uma figura unificadora de todos", disse Benrasali. "Ele deveria fazer a coisa honrosa e simplesmente desaparecer".

Alguns em Misrata agora querem acusar Jibril de "traição", disse Benrasali, por enfraquecer a transição ao se manter no poder.

Muitos apoiam um nativo da cidade para o cargo de primeiro-ministro: Abdul Rahman al-Swehli, um engenheiro formado na Grã-Bretanha e membro de uma proeminente família local. "O próximo primeiro-ministro tem que ser um líbio – um líbio que não tem um segundo passaporte, um líbio que viveu na Líbia durante os últimos 42 anos", disse Benrasali.

Mas os combatentes das montanhas Nafusa – especialmente da cidade de Zintan, que sofreu seu próprio cerco – também querem um maior papel no gabinete. Observando que o atual presidente do conselho, Mustafa Abdul Jalil, vem de Al Baida, no leste do país, eles dizem que os demais cargos de alto escalão devem ir para pessoas do oeste – de Misrata ou das montanhas – que merecem crédito por acabar com o domínio de Kadafi em Trípoli.

"Como Misrata, somos aqueles que pagaram o preço mais alto", disse um membro do conselho das montanhas, falando sob condição de anonimato para discutir conversas privadas. "Então não há dúvida de que vamos assumir o cargo de primeiro-ministro, ministro da Defesa, ministro do Interior, ministro das Relações Exteriores, ministro da Justiça – durante esta fase de transição, esses cargos certamente devem ir para pessoas que comandaram a revolução".

Enquanto isso, os moradores de Benghazi, a maior cidade do leste do país, observaram que eles começaram a revolta e trabalharam durante meses para fornecer armas e dinheiro por barcos e aviões para os rebeldes em Misrata e nas montanhas Nafusa. "Benghazi carregou o peso do país durante esse período difícil", disse Abdul Shamsiddin Molah, um porta-voz do CNT.

Ele disse que o conselho é "fraco" e está beco sem saída, e reconheceu que combatentes estão apreendendo armas e prisioneiros. Mas ele disse esperar que as eleições deem legitimidade a um novo governo.

Partidários de Jibril, entretanto, dizem que o impasse resulta de uma luta de poder entre Misrata, Zintan e outras cidades das montanhas, e que Jibril desempenhou um papel crucial na rebelião através da obtenção do apoio internacional. Sem ataques aéreos da Otan, segundo eles, nenhuma das brigadas rebeldes poderia ter triunfado.

Durante uma coletiva de imprensa em Benghazi esta semana, Abdul-Jalil, o presidente do conselho, rejeitou as exigências para atribuir poder político com base no saldo de revolta. Embora cidades como Zintan e Misrata mereçam "prioridade na reconstrução" e reconhecimento por sua ação histórica, disse ele, "luta e dificuldades não são medida para a representação no governo”.

"Ser membro do Conselho Nacional de Transição e do novo governo é um direito garantido a todos nós", acrescentou. O conselho decidiu reservar representação tanto para os moradores das fortalezas de Kadafi quanto para as cidades mais rebeldes. "Temos dois assentos para Sirte, o mesmo que para Tobruk, independentemente do apoio inicial de Tobruk à revolução e do apoio atrasado de Sirte," ele disse.

Ainda assim, Jibril tem tentado indicar um novo gabinete desde o início de agosto, quando o principal líder militar rebelde, o general Abdul Fattah Younes, foi morto em circunstâncias que pareciam implicar autoridades do conselho. Convocado a Benghazi sob suspeita de trair os rebeldes, Younes e dois assessores foram mortos a tiros – por vingança, segundo as autoridades, pelo papel do general em suprimir uma insurgência islâmica em 1996.

O assassinato foi embaraçoso para o governo provisório, bem como para a poderosa tribo de Younes, e nenhuma acusação foi feita. "Não é do interesse de ninguém resolver isso", disse um ex-oficial rebelde.

Por David D. Kirkpatrick e Kareem Fahim

    Leia tudo sobre: mundo árabelíbiakadaficntotanonueua

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG