Ricos de NY trocam carros de luxo por vans especialmente projetadas

Em meio à crise, americanos gastam até US$ 500 mil (R$ 932) em veículos equipados com TV, mesa de reuniões e cadeira de massagem

The New York Times |

Steve Kantor admite que gosta de viajar em grande estilo. Ele é um banqueiro preocupado em ostentar sua riqueza, mas dirige por Manhattan, em Nova York, no que parece ser uma simples van preta de entregas.

Naturalmente, a maioria das vans não têm motoristas, como a de Kantor. Ou um escritório personalizado instalado. "Tenho duas televisões de tela grande e um sofá que vira cama", disse Kantor. "Tenho quatro poltronas que reclinam e fazem massagem, além de uma mesa e um interfone para realizar reuniões ali se quiser."

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Modelo Sprinter da Mercedes-Benz passa por rua de Nova York (03/11)

À medida em que a economia americana continua se arrastando e mais atenção é dada à privilegiada elite do país, os chamados “1%”, alguns dos nova-iorquinos mais ricos optaram por dirigir pela cidade em veículos que não esbanjam riqueza nem privilégio. Em seu interior, porém, as vans podem ser tão ricamente decoradas quanto os vagões de trem privados mantidos por industrialistas da virada do século.

Alguns donos usam esses veículos como escritórios móveis, decorados cadeiras de couro fino e tapetes persas, mas as vans também podem funcionar como salas de jogos sobre rodas para as crianças, equipadas com um aspirador de pó automático para limpar a sujeira.

E embora alguns proprietários se digam atraídos pelo exterior comum dos veículos, seu tamanho costuma chamar a atenção: são mais de 7 metros de comprimento e quase 3 metros de altura que diminuem quase tudo que os cerca nas ruas de Nova York. E isso antes de as antenas parabólicas serem levantadas.

As vans são um contraponto surpreendente e às vezes indesejável para outras tendências vistas nas ruas da cidade, nas quais minúsculos carros inteligentes circulam em torno de táxis híbridos e nas quais faixas de tráfego antes reservadas para veículos que queimam gasolina agora são destinadas a bicicletas ou pedestres.

"Usar seu veículo como um salão de luxo é usurpar o espaço público para seu próprio uso privado", disse Michael Murphy, porta-voz do Transportation Alternatives (Alternativas de Transporte, em tradução literal), um grupo que encoraja os nova-iorquinos a trafegar pela cidade com mais responsabilidade. "As ruas são espaços compartilhados e pertencem à comunidade."

No entanto, durante a manhã diante da academia Soul Cicle, os espaços de estacionamento não acomodam as vans Sprinter, Range Rover e Lexus que às vezes ficam estacionadas em fila dupla. Uma van Mercedes preta de propriedade da Philip A. Falcone, o chefe da Harbinger Capital Partners, se tornou um marco no Upper East Side ao permanecer estacionada em fila dupla diante da loja Michael Kors da Avenida Madison.

Jill Kargman, escritora e mãe de três filhos que mora no Upper East Side, disse que as brincadeiras nas vans de ultraluxo são melhores porque as crianças podem "apenas entrar em uma sala à prova de balas sobre rodas".

O modelo mais popular é feito pela Mercedes: a versão básica da van Sprinter começa em US$ 41.315 (cerca de R$ 77.052). A versão de Kantor, que a Mercedes-Benz Manhattan personalizou para ele, está equipada com televisão por satélite, rede Wi-Fi e monitores de tela plana. Custa US$ 189 mil (R$ 352 mil).

Mas mesmo isso não é o bastante para alguns nova-iorquinos. Muitos contratam designers para detalhes personalizados ainda mais caros e que facilmente elevam o custo total para US$ 500 mil (R$ 932 mil).

Um porta-voz da Mercedes-Benz, Daniel Barile, disse que como muitos compradores estavam optando por decorar o interior de sua van, a empresa lançou sua própria versão no início de 2010 e vendeu 8 mil unidades no primeiro ano. Em 2011, foram vendidas 13 mil vans deste tipo.

E embora a Mercedes modificada seja popular em várias cidades grandes, Howard Becker, presidente da Becker Automotive Design em Oxnard, Califórnia, disse que Nova York, com seus executivos das finanças, se tornou seu melhor mercado.

Ryan Hyde, designer que trabalhou com uma família rica de Nova York na decoração do interior de sua Mercedes Sprinter, disse que os clientes queriam acessórios banhados a ouro para cada botão que pudesse ser apertado. O proprietário instalou um aspirador de pó para que o motorista pudesse remover todas as migalhas e grãos de areia sempre que as crianças saíssem da van.

A opção do aspirador pode ser vista em uma manhã recente na Avenida Park, quando Carmelo Umpierre, um motorista de 44 anos de idade, parou a van de US$ 425 mil (R$ 792) que dirige para um executivo de Connecticut. É quase impossível encontrar um espaço para o estacionamento de um veículo desse tipo, então Umpierre muitas vezes espera por seu chefe cometendo infrações de trânsito e dando a partida quando a polícia chega perto.

O dono do carro se recusou a ser entrevistado, dizendo não querer chamar a atenção para si mesmo. Mas ele permitiu que Umpierre mostrasse o interior da van: os bancos foram estofados com couro fortemente perfumado e o bar tinha iluminação individual para cada copo de vinho e taça de champanhe.

Umpierre disse que aspira o interior toda noite e, quando chove, cobre o tapete personalizado de lã cinza com toalhas. Ele tenta usar ruas menos movimentadas para que os curiosos não possam espreitar quando seu patrão desce do carro.

"Ele gosta de manter a privacidade", disse Umpierre sobre seu empregador. "Não gosta de ser visto."

Na semana passada, Martin Brass, um executivo de 43 anos que trabalha como investidor em Wall Street, avaliava uma Mercedes Sprinter em uma concessionária de Manhattan. Brass, que viaja muito a trabalho, disse que pretende comprar um modelo básico e depois realizar algumas melhorias no seu interior.

Ele não quer um “banho de luxo”, mas, simplesmente, "fazer reuniões e apresentações nos veículos".

Os apetrechos mais luxuosos, disse ele, não fazem parte de seu estilo. "Mas estamos em Nova York", disse ele. "Algumas pessoas têm quantidades infinitas de dinheiro."

Por Christine Haughney

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