Apesar de papel importante na revolta que derrubou Hosni Mubarak, egípcias ainda enfrentam restrições do sistema patriarcal

Inicialmente, Samira Ibrahim estava com medo de contar a seu pai que soldados egípcios a detiveram na Praça Tahrir, no Cairo, tiraram sua roupa e a fizeram se submeter a um teste de virgindade .

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Samira Ibrahim, que foi detida na praça Tahrir e submetida a um teste de virgindade, olha pela janela do prédio da Iniciativa Egípcia por Direitos Humanos no Cairo
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Samira Ibrahim, que foi detida na praça Tahrir e submetida a um teste de virgindade, olha pela janela do prédio da Iniciativa Egípcia por Direitos Humanos no Cairo

Mas quando seu pai, um conservador religioso, viu as marcas de violência em seu corpo, ele lembrou da época em que foi detido e torturado durante o governo do presidente Hosni Mubarak . "A história está se repetindo", disse à sua filha, e juntos prometeram abrir um processo judicial contra os governantes militares, para reivindicar "seus direitos", como Ibrahim recordou mais tarde.

Foi um caso bem sucedido e pela primeira vez um tribunal desafiou a autoridade do conselho militar e conseguiu proibir que esse tipo de teste voltasse a acontecer .

Mas mesmo após quase um ano da queda de Mubarak a história de Ibrahim ainda ilustra a posição paradoxal da mulher no novo Egito . Encorajadas pela revolução para reivindicar uma nova voz na vida pública, muitas estão descobrindo que ainda dependem da proteção dos homens e que seu maior poder não é o de atuar diretamente mas sim de representar símbolos da repressão do governo militar.

Não é exatamente o que as mulheres egípcias esperavam conquistar nos dias inebriantes da revolução , quando desempenharam um papel ativo, lado a lado com os homens, para derrubar ao ditador. "Mudar a cultura patriarcal não é tão fácil assim", disse Mozn Hassan, 32, diretora-executiva do Nazra um grupo para estudos feministas que existe há 6 anos.

Manifestantes do sexo feminino sofreram agressões sexuais nas mãos dos soldados egípcios que estavam protegidos por tribunais militares. Grupos de direitos humanos dizem ter documentado casos de pelo menos 100 mulheres que foram abusadas sexualmente por soldados durante o governo militar, incluindo a experiência de Ibrahim, em março, e da mulher anônima que foi gravada em vídeo no mês passado sendo espancada e despida, expondo seu sutiã azul , enquanto os militares retiravam manifestantes da Praça Tahir. A grande maioria dos casos aconteceu durante a repressão das manifestações ao longo de três semanas, que tirou mais de 80 vidas.

Mesmo quando as mulheres faziam uma manifestação no final do mês passado, em uma marcha histórica pelo centro do Cairo - muitas delas carregando a foto da mulher “do sutiã azul” - elas o fizeram apenas porque tinham a proteção e aprovação dos homens. As manifestantes estavam cercadas por homens e muitas das vezes seus tutores masculinos pareciam direcionar a multidão ou até mesmo puxar os gritos do protesto, muitos dos cânticos entoados pelas mulheres pareciam pedir mais "cavalheirismo" por parte dos homens egípcios.

Como representantes da oposição popular, muitas dessas mulheres correm o risco de se tornar mascotes da dominância masculina, disse Hassan, uma das muitas feministas egípcias que disseram estar entusiasmadas com a magnitude da marcha - mas que ao mesmo tempo se preocupam com a demonstração da dependência das mulheres em relação aos homens.

"Pedir aos homens que a protejam é algo muito ruim, pois assim eles vão te definir e continuar cumprido seus papéis tradicionais”, disse Hassan, que observou que mesmo entre os grupos feministas, haviam poucas organizações compostas apenas por mulheres egípcias e que dos fundadores dessas 13 organizações, seis eram homens.

Ao mesmo tempo, a revolução abriu as portas para a ascensão dos partidos conservadores islâmicos, incluindo extremistas religiosos que querem reverter alguns dos direitos que as mulheres possuem. A Irmandade Muçulmana está pronta para ganhar quase da metade das cadeiras no Parlamento quando as votações forem concluídas essa semana, enquanto os salafistas da oposição devem conseguir mais de 20%.

Enquanto os líderes da Irmandade falam a respeito de incentivar os papéis tradicionais, ainda que respeitando as escolhas profissionais das mulheres, muitos se opõem a permitir que as mulheres desempenhem papéis de liderança e são a favor de regras como as de vestimenta para estabelecer os padrões islâmicos de modéstia. "Estamos muito preocupados porque o que eles estão propondo é muito opressivo", disse Ghada Shabandar, uma ativista veterana.

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Até mesmo hoje, as mulheres não exercem nenhum papel de liderança nos vários grupos ativistas que se formaram depois do protesto que derrubou Mubarak e elas ocupam menos de dez das cerca de 500 cadeiras no Parlamento.

Os debates eleitorais não têm discutido muito as questões femininas – de tópicos como a mutilação genital feminina até a discriminação no ambiente de trabalho, que é legalmente sancionada apesar das estatísticas oficiais mostrarem que um terço dos lares egípcios dependem de assalariados do sexo feminino.

"Nós não temos nenhum movimento feminista hoje em dia", disse Hala Mustafa, editora do Democracia, um jornal estatal.

As feministas dizem que durante décadas as forças de segurança egípcias vem sequestrando e abusando sexualmente de mulheres como uma forma de pressionar os homens de suas famílias. Num caso célebre de 2005, a jornalista Nawal Ali tentou prestar queixas contra os capangas do governo que a espancaram e a despiram durante um ataque.

No entanto, o cenário não é completamente ruim. Alguns argumentam que a revolução está ajudando a revitalizar o movimento das mulheres que estava até então adormecido, mesmo que seja apenas conseguindo uma abertura política para que Ibrahim pudesse ter a oportunidade de comparecer ao tribunal ou para que milhares de mulheres possam marchar a favor da mulher do sutiã azul.

"Essa é a diferença que a revolução egípcia fez", disse Shabandar. "O muro do medo caiu e agora, quando marchamos pela 'mulher do sutiã azul' também marchamos por Nawal Ali".

Algumas feministas mais jovens, no entanto, dizem que essa filosofia mantém as mulheres sempre no banco de trás. "Essa é a mesma coisa que lhes disseram após a revolução", disse Masa Amir, 24, relembrando quando o conselho militar elegeu um painel composto apenas por juristas homens para elaborar uma Constituição temporária.

Mas o resultado foi um documento sugerindo que o presidente só poderia ser do sexo masculino (e estipulou-se que sua esposa não poderia ser uma estrangeira) - talvez porque ninguém na mesa tenha questionado a decisão. Mas o estigma associado às vítimas de abuso sexual continua a forçar muitos a permanecerem em silêncio.

Ativistas montam uma clínica médica improvisada em Boulaq, um bairro pobre de Cairo
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Ativistas montam uma clínica médica improvisada em Boulaq, um bairro pobre de Cairo

Outras seis mulheres foram submetidas aos "testes de virgindade" pelos soldados na mesma noite que Ibrahim. Segundo seu relato, a humilhação foi tão grande que inicialmente ela quis morrer. "Eu ficava dizendo a mim mesma, as pessoas têm ataques cardíacos, por que eu não tenho um ataque cardíaco agora e morro também?"

O conselho de sua mãe foi que não dissesse nada a ninguém, caso quisesse se casar ou até mesmo para que leve uma vida digna na sua aldeia na zona rural do Alto Egito, disse em uma entrevista.

Mas quando Ibrahim contou sua história, ela disse que a mídia egípcia a ignorou e que apenas a imprensa internacional a ouviu. Ela recebeu telefonemas com ameaças de estupro e de morte. Mas com o apoio de seu pai - um ativista islâmico que foi detido e torturado há duas décadas - ela continuou e na próxima semana vai voltar ao tribunal militar na tentativa de também responsabilizar seus perpetradores.

Quando viu o vídeo da "mulher do sutiã azul" sendo espancada, redobrou sua determinação. "Eu senti que tinha que fazer algo por ela também", disse Ibrahim.

Por David D. Kirkpatrick

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