Revoltas árabes levam diplomatas a refazer vidas e carreiras

Desertores de governos ditatoriais, como a Líbia, tentam se reinventar como representantes de governos que ainda não existem

The New York Times |

As empregadas domésticas que varriam o chão de mármore branco da residência do embaixador líbio na capital americana voltaram para as Filipinas depois que seus vistos foram revogados, assim que Ali Suleiman Aujali deixou o emprego. O motorista também foi embora. Muito em breve, Aujali acredita, o Departamento de Estado irá retomar as placas oficiais do mercedes e do audi estacionados em sua garagem. Mas Aujali está suspenso, preso em uma diplomática terra de ninguém.

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Ali Suleiman, ex-embaixador da Líbia nos EUA, no Clube Nacional de Imprensa em Washington (18/3/2011)
A embaixada que ele dirigiu por mais de dois anos – um escritório no sétimo andar do Watergate, com vista para o rio Potomac – foi fechada pelo Departamento de Estado. Então Aujali, que renunciou ao cargo de embaixador da Líbia em Washington quando rompeu com Muamar Kadafi no fim de fevereiro, se estabeleceu em casa. A partir de uma série de computadores ligados na sua sala de jantar, ele está tentando se reinventar como representante oficial de um novo governo da Líbia de Washington – um que ainda não existe.

"Eu não estou mais representando o regime – eu estou representando o povo", declarou Aujali, com seu neto de 15 meses de idade sobre seu joelho. Ou, como Aly R. Abuzaakoouk, um líbio defensor dos direitos humanos e amigo de Aujali explica: "Agora, ele é o embaixador da revolução”.

Aujali, que serviu à Líbia durante 40 anos, faz parte de um amplo grupo de ex-diplomatas que estão exibindo coragem incomum ou, dependendo do ponto de vista, um instinto esclarecido de autopreservação. O embaixador da Líbia nas Nações Unidas e outros oficiais nos Estados Unidos também passaram a apoiar os revolucionários, assim como os diplomatas líbios na França, Índia e China. Três embaixadores iemenitas – na ONU, Síria e Líbano – pediram demissão de seus cargos em protesto contra a repressão às manifestações por parte do governo.

Esses rompimentos não são novos. Durante o governo Reagan, o embaixador do Panamá em Washington declarou a sua independência e relação ao general Manuel Noriega, que tinha acabado de perpetrar um golpe. Em julho de 2001, dois diplomatas iraquianos desertaram e procuraram asilo em Nova York. (Aujali disse que não está à procura de asilo.) O que faz da atual safra algo incomum, segundo David Mack, ex-embaixador americano na Líbia, é a sua dimensão.

"Houve casos que foram comemorados", disse Mack. "Mas eu não me lembro de tantos casos acontecerem ao mesmo tempo”.

Em Washington, onde os diplomatas muitas vezes não têm rosto, o fervor democrático que tem tomado conta do mundo árabe também os forçou a se ajustar. Embaixadores da Tunísia e Egito, onde as revoluções foram em grande parte pacíficas, permaneceram em seus postos. Mas para aqueles de países onde os protestos se tornaram violentos, como Bahrein, Iêmen e, especialmente, a Líbia, as escolhas parecem mais complexas.

Mundo árabe

O embaixador do Bahrein Houda Ezra Nonoo tem mantido um perfil discreto. Assim como o embaixador do Iêmen, Abdulwahab Abdulla Al-Hajjri - apelidado de "reitor da diplomacia de Washington” pela revista Time, em parte por seus jantares e festas noturnas, “alguns dos quais acabam nas primeiras horas da manhã”.

Al-Hajjri, cunhado do presidente do Iêmen, parece que irá permanecer no lugar. Mas o embaixador do Iêmen para a ONU, Abdullah Alsaidi, deixou o cargo. "Com atiradores nos telhados das casas atirando na cabeça e no pescoço das pessoas, eu não posso em sã consciência articular a posição do governo às autoridades da ONU", disse Alsaidi em uma entrevista por telefone na terça-feira.

Agora, ele está procurando um lugar para morar. O governo do Iêmen indicou seu substituto e deve desistir de seu apartamento governamental em Manhattan.

Seus três filhos foram educados nos Estados Unidos e ele obteve um mestrado em filosofia pela Universidade de Columbia. Mas agora, despojado de suas credenciais diplomáticas, ele talvez não possa permanecer no país. Ele tem algum dinheiro guardado e pretende tirar algum tempo "para ler e refletir".

Aujali, o ex-embaixador da Líbia, está tomando um rumo mais agressivo. Filho de um agricultor e de uma dona de casa de um oásis perto de Benghazi, Aujali, 66 anos, um homem franzino com olhos cor de chocolate, serviu na Malásia, Argentina, Brasil e Canadá antes de chegar a Washington em 2004 para abrir o “setor de interesse" da Líbia na capital americana. Kadafi tinha acabado de renunciar às armas nucleares, o que levou o presidente George W. Bush a restabelecer os laços diplomáticos entre os países.

Em janeiro de 2009, Aujali – que afirma não conhecer bem o líder líbio – tornou-se o primeiro embaixador do seu país nos Estados Unidos em 35 anos. Ele começou a renovar a mansão do grande embaixador perto da Avenida das Embaixadas, que cheirava a mofo depois de ter permanecido fechada por décadas. "Eu vim com a grande esperança de que seríamos capazes de estabelecer melhores relações", disse.

Sua relação com Kadafi parece ter envolvido o tipo de compromissos complicados que pessoas ambiciosas na vida pública às vezes aceitam. Ele ajudou a organizar reparações pelo bombardeio do voo 103 da Pan Am em de 1988, sobre Lockerbie, na Escócia, mas ficou do lado de Kadafi ao defender a transferência do responsável pelo bombardeio para a Líbia em 2009.

Ainda assim, ele foi elogiado por se encontrar com críticos de Kadafi e trabalhar para abrir os Estados Unidos a estudantes, empresários e turistas líbios. ''Ele era um profissional e um homem razoável'', disse Elliot Abrams, que aconselhou Bush sobre democracia e direitos humanos. "Eu não fiquei chocado quando a onda de deserções começou de saber que ele começou fazia parte dela”.

Desde que anunciou que iria deixar o governo Kadafi, Aujali tem defendido a quem queira ouvir – repórteres, senadores e até mesmo a secretária de Estado Hillary Rodham Clinton – que a Casa Branca deve reconhecer o governo paralelo dos rebeldes. Ele insiste que Kadafi deve ser deposto. "Não podemos confiar em Kadafi", disse ele.

Mas o que ele imediatamente é que o Departamento do Tesouro libere os US$ 30 bilhões em ativos líbio que congelou recentemente. “Assim poderemos abrir um escritório, comprar de ajuda humanitária para o nosso povo”.

Não tão rápido, disse um funcionário do governo, que falou anonimamente para discutir a situação de Aujali. Embora o Departamento de Estado aceite Aujali como um representante do conselho rebelde, disse o oficial, "nós o consideramos um cidadão comum agora" e ele deve "ajustar seu visto de acordo”. A reunião com Clinton, segundo ele, foi parte de um esforço para "ter uma noção de quem são essas pessoas e qual é a sua posição”.

Enquanto amigos de Aujali veem sua ruptura como um ato de coragem, alguns especialistas na Líbia enxergam conveniência política. Afinal, se os rebeldes prevalecerem, ele poderá conseguir seu emprego de volta – com suas empregadas domésticas, motorista e todo o resto.

"Eu acho que todas estas demissões aconteceram em um momento em que parecia que a oposição tinha uma chance muito boa de vitória", disse J. Diederick Vandewalle, um cientista político da Faculdade Dartmouth, que tem viajado extensivamente pela Líbia. "Eu acho que eles estavam apenas tentando proteger as suas costas".

Aujali insiste que ele está apenas tentando fazer o que acreditar ser melhor para o povo líbio. Em sua casa, sua família – incluindo um filho que frequenta a Universidade George Mason, dois netos, uma filha e um genro que se demitiu da missão da Líbia na ONU em Nova York – se reuniu na cozinha. Ele colocou de lado as perguntas sobre quanto tempo poderão permanecer no país dizendo que sua situação é a menor de suas preocupações. "Eu estou muito, muito ocupado", disse o ex-embaixador. "Há muitas coisas que temos de fazer”.

*Por Sheryl Gay Stolberg

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