Revoltas árabes e Irã desviam atenção de problemas palestinos

Em meio a levantes e programa nuclear iraniano, palestinos perdem espaço em discussões da comunidade internacional

The New York Times |

Desde que revoltas começaram a se espalhar pelo Oriente Médio e pelo norte da África e a tensão aumentou em torno do programa nuclear do Irã , a liderança palestina foi quase completamente abandonada. Politicamente dividida, com os acordos de paz com Israel estagnados e seu apoio internacional diminuído, a Autoridade Nacional Palestina está se sentindo marginalizada, confusa e preocupada com a possibilidade de seu povo apelar para a violência.

"O maior desafio que enfrentamos - além da ocupação - é a marginalização", disse Salam Fayyad, primeiro-ministro da ANP. "Esta é uma consequência direta da Primavera Árabe, em que as pessoas estão preocupadas com seus próprios assuntos internos. Os Estados Unidos estão em um ano eleitoral e têm problemas econômicos, a Europa tem suas preocupações. Fomos deixados de lado."

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O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, discursa em Ramallah, na Cisjordânia (25/09)

Durante décadas, quando governaram seus vizinhos como autocratas, os palestinos estiveram no centro da política do Oriente Médio, e sua luta contra a ocupação israelense concretizava o desejo árabe de ter liberdade e dignigade pós-colonialismo. Logo após o presidente Obama ter tomado posse ele disse que um Estado na Cisjordânia e em Gaza seria a chave para o progresso regional.

Mas este mês, quando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu visitou Washington , o assunto que dominou as conversas foi o Irã , e não as negociações de paz ou a ocupação da Palestina.

Na região, a Primavera Árabe pode ter aumentado a atenção popular para a causa palestina, fazendo com que os egípcios e outros do mundo árabe expressem seus sentimentos anti-israelenses. Mas isso apenas dificultou ainda mais as coisas para a Organização de Libertação da Palestina, que negociava com Israel. O povo acabou favorecendo os islamitas do Hamas. Eles também têm dificuldades, no entanto, em abandonar a sua sede política na Síria , ter que lidar com pouca ajuda vinda do Irã e com divisões internas cada vez maiores.

O resultado é uma fragmentação do movimento palestino, uma perda de patrocinadores e um impedimento para aqueles que tentam construir um Estado ao lado de Israel. Apenas seis meses atrás, houve um momento de otimismo quando a ANP pediu o reconhecimento da Organização das Nações Unidas (ONU) e, posteriormente, quando o Hamas fechou um acordo para libertar centenas de seus prisioneiros em troca da libertação de um soldado israelense, Gilad Schalit .

Zakaria al Qaq, um especialista em segurança nacional palestina na Universidade de Al Quds, em Jerusalém, disse que recentemente se juntou a dezenas de outros estudiosos estrangeiros para uma série de palestras sobre sua especialidade nos Estados Unidos. Ninguém sequer mencionou a questão palestina.

O Presidente da ANP, Mahmoud Abbas, conhecido por ser um político um tanto quanto indeciso, parece estar dividido sobre como proceder nesta situação. Ele e seus assessores trabalharam durante semanas em uma carta de várias páginas que deve ser entregue a Netanyahu, expondo todas as razões pelas quais acreditam que Israel esteja impedindo um progresso pacífico.

Ele planeja entregar uma cópia aos líderes americanos e europeus, explicando por que ele acha que deve abandonar o acordo de paz entre Israel. Mas embora os diplomatas se solidarizem com a sua frustração devido a recusa de Israel em interromper a contrução de assentamentos na Cisjordânia e no leste de Jerusalém, eles suspeitam que Abbas, conhecido como Abu Mazen, se sinta politicamente incapaz de comprometer-se com Israel especialmente durante este momento turbulento.

"O preço político que Abu Mazen paga por estar atualmente negociando com Netanyahu é muito alto”, disse um diplomata ocidental de alto escalão, que falou sob condição de anonimato. "As pessoas nesta região acreditam que ou você está protestando ou está sendo protestado. Ele decidiu que é melhor protestar."

No entanto, o problema não é apenas palestino. O governo de Netanyahu e os seus apoiadores também disseram que os tumultos regionais dificultam ainda mais que possam ceder território.

"Os israelenses sempre se preocuparam com o que aconteceria caso fizessem uma concessão difícil e estratégica no processo de paz. O que irá acontecer caso os regimes com os quais assinaram um acordo sejam derrubados?", observou Dore Gold, presidente do Centro de Jerusalém para Assuntos Públicos e assessor de Netanyahu.

"Israel tem que ser extremamente cauteloso e levar em consideração até mesmo suas preocupações de segurança. Será que a Autoridade Palestina ainda vai ser a Autoridade Palestina daqui a um ano? Quando os diplomatas europeus vierem a Israel para pedir novas concessões territoriais, será como nos perguntar se queremos colocar uma barraca no olho de um furacão."

Outros argumentam que conforme cresce a frustração palestina cresce também a possibilidade de uma explosão na Cisjordânia. Os confrontos com as tropas israelenses têm piorado nos últimos meses.

Enquanto isso, as distrações do mundo árabe, juntamente com as manobras israelenses, têm contribuído para um agravamento da crise fiscal para a ANP, embora o setor privado do país trabalhe para construir uma moderna infraestrutura no país, criando uma nova classe de pequenos porém impressionantes negócios.

O crescimento econômico da Cisjordânia, que de 2008 a 2010 teve uma média de 10%, desacelerou para 5,7% em 2011, com o desemprego ainda em torno dos 17%, de acordo com Oussama Kanaan, do Fundo Monetário Internacional. No ano passado, todos os países árabes juntos deram apenas US$ 340 milhões à Autoridade Palestina, deixando-a com US$ 200 milhões a menos do que o esperado.

A autoridade tem sido incapaz de pagar suas dívidas a empresas privadas e fundos de pensões públicos, fazendo com que ainda tenha cerca de US$ 500 milhões em atraso, além de sua dívida de US$ 1,1 bilhões com bancos privados.

Acordos entre os ministérios das finanças palestinas e israelenses para melhorar a arrecadação de fundos palestinos não foram implementados porque o governo israelense não assinou nenhum deles. Fayyad disse que a menos que essas medidas entrem em vigor, ele não poderá participar de uma conferência de doadores prevista para este mês em Bruxelas.

Enquanto isso, tropas israelenses intensificaram seus ataques noturnos contra cidades da Cisjordânia ao fecharem recentemente duas estações de televisão, contribuindo ainda mais para a sensação de impotência.

"Precisamos prestar atenção às nossas finanças, à nossa segurança e à violência vinda do Exército israelense", disse Fayyad. "O que o Exército vem fazendo é errado e perigoso. Eles fazem com que nossa autoridade pareça fraca. Eles talvez não estejam cientes de que pode haver um momento em que as coisas irão simplesmente sair de controle."

Por Ethan Bronner

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