Revista de turbantes, símbolos de identidade, incomoda afegãos

Após o assassinato de ex-presidente afegão por uma bomba escondida em turbante de terrorista, revistas tornam-se mais rígidas

The New York Times |

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Retrato de Hajji Rahim Dad da província de Ghor, em Cabul, Afeganistão
Com a coluna ereta e um porte quase real, Malik Niaz, 82 anos, entrou no composto presidencial afegão esse mês orgulhosamente vestindo o seu melhor turbante: feito de seda do Turquestão, cinza, preto e branco, com a cauda longa caída graciosamente por cima do ombro

Ele assistiu, incrédulo, ao guarda pedir ao senhor à sua frente que tirasse seu turbante e o colocasse sobre a mesa. Niaz, que havia viajado mais de oito horas por estradas ásperas, estremeceu. "Isso nos envergonhou tanto, e me deixou muito triste", disse. "Eu me senti desonrado quando o guarda disse”, hesitou Niaz, como se até a recordação o entristecesse, “‘desfaça o seu turbante’”.

"Eu queria ver o presidente", ele acrescentou, "mas depois da revista eu achei que teria sido melhor se eu não tivesse vindo."

A revista de turbantes no palácio presidencial do presidente Hamid Karzai tem sido rigorosamente aplicada desde o assassinato do chefe do processo de paz no Afeganistão, Burhanuddin Rabbani, que foi morto por uma bomba escondida no turbante de um terrorista. Esse foi o terceiro assassinato do tipo em quatro meses, levando os jovens em Cabul a cunhar o termo "turbanator" e os soldados americanos a inventar a nova sigla TBIED, para dispositivo explosivo improvisado em um turbante.

Os outros dois casos foram o assassinato de um clérigo sênior, em julho, quando ele rezava em uma mesquita em Kandahar, e poucas semanas depois o prefeito de Kandahar . As buscas são profundamente perturbadoras para a maioria dos homens afegãos, já que o turbante simboliza ao mesmo tempo a fé religiosa e a nação – isso sem dizer que se trata de uma peça de moda.

Os turbantes são usados em todo o mundo muçulmano porque acredita-se que o profeta Maomé tenha usado um, e eles são especialmente favorecidos por imãs e mulás. No Afeganistão, que é um país profundamente religioso, seu uso é mais amplo, com dezenas de estilos e cores. Existem aquelas feitos de materiais sintéticos fabricados no Paquistão, que custam cerca de US$ 20, os de seda de Herat que custam o dobro e os feitos de sedas mais exuberantes do norte do Afeganistão que custam ainda mais.

O povo do sudeste do Afeganistão usam o turbante de maneira mais solta, assim que pareça que a estrutura pode desabar a qualquer momento. Os moradores de Cabul preferem um formato mais apertado. Aqueles no leste do Afeganistão dobram o último pedaço de pano para fora do turbante como uma crista de galo, conhecido como "Shimla", e seu tamanho tem algo a ver, vagamente, com a visão que uma pessoa tem de sua própria posição. O Taleban era conhecido por usar turbantes feitos de um algodão muito suave, que tinham caudas longas e eram especialmente pretos ou brancos – os pretos significam que os membros da família daquele que o usa são descendentes de Maomé.

No entanto, a maioria dos turbantes usados no Afeganistão agora – assim como na era pré-Taleban – são cinzas sutis, verdes profundos como azeitona, verdes mais suaves e marrons. "Eu tenho quatro ou cinco turbantes", disse Hajji Mohammad Zaman Ahmadi, 57 anos, morador de Cabul, que estava em um bazar para comprar um solidéu branco para usar em casa, mas que usava um turbante durante a sua jornada de trabalho.

Ele tinha acabado de comprar um turbante em miniatura para seu sobrinho de 2 anos de idade, disse. "É feito da lã mais macia do nosso país", disse.

Ahmadi, como Niaz, acredita que terroristas que usam seus turbantes para esconder explosivos cometem um crime não apenas contra o Islã, mas contra a nação. Eles estão tentando "difamar os turbantes afegãos e fazer com que os afegãos sejam perseguidos por suas antigas tradições e deixem de usar os turbantes por medo", disse.

Nas ruas do bazar localizado no centro de Cabul, onde os turbantes são vendidos dobrados com esmero e embrulhados em páginas arrancadas de revistas, os homens que usam turbantes estão tão irritados com a situação que culpam os americanos. Antes de sua chegada, as buscas intrusivas não existiam.

"Meu pai, meu avô, meu bisavô, meu profeta usavam turbante, e é por isso que eu também uso", disse um homem mais velho, parecendo irritado com a pergunta. Ele acrescentou: "Quem trouxe esses ataques à bomba nos turbantes e as revistas dos turbantes? Vocês", disse ele, com raiva, se referindo aos ocidentais, que muitos afegãos acreditam ser agentes do declínio da sua sociedade.

Muitos clérigos têm uma visão mais contemplativa. A fé transcende a vestimenta, e um homem pode orar em qualquer roupa, desde que a oração venha do coração, mas é uma honra para Deus se vestir adequadamente, disse Abdul Raouf Nafee, mulá da mesquita Herat, localizada no centro de Cabul.

Como exemplo, ele falou sobre açougueiros: "Mesmo que suas roupas estejam sujas de sangue, eles podem orar e Deus aceitará as suas orações, mas é meio desrespeitoso. Deus gosta de beleza e organização, mas ele aceitará as suas orações", disse Nafee.

Sentado sobre uma almofada enquanto lia o Corão em um pequeno cômodo ao lado da sala de oração de sua mesquita, Nafee usava um simples solidéu branco. Seu turbante estava bem preparado e à espera em um sofá ao lado – ele iria vesti-lo para a oração do meio-dia. Repleto de poesia e pragmatismo, ele vê o turbante como um elo entre a vida santa e as necessidades físicas das pessoas.

O turbante, como o cobertor tradicional ou xale usado por homens e chador usado pelas mulheres, é prático, bem como religioso e cultural, disse ele. "Você se cobre para afastar a poeira – e agora a poluição", disse. "Se está frio, você pode se envolver nele; para o calor, você pode se sentar sobre ele, você pode usá-lo para amarrar um animal, uma ovelha ou uma cabra, e você pode usar a capa do turbante para carregar água."

Há também uma visão mais sombria sobre os ataques com turbantes: que os terroristas estavam tão perturbados que a santidade de seus turbantes já não importava mais, e que eles foram forçados a usar todos os meios disponíveis para se vingar dos americanos.

"É errado responder aos assassinatos dos civis que vocês cometeram com seus aviões que disparam do ar e nem sequer têm pilotos", perguntou Hajji Ahmad Farid, mulá e membro conservador do Parlamento da região de Kapisa, perto de Cabul. “Pense sobre por que um homem explode a si mesmo: alguns soldados estrangeiros entram na sua casa e o acusam e amarram suas mãos e o desonram ao revistar sua esposa e suas filhas, e esse pobre homem apenas assiste sem poder fazer nada."

"Quando um homem perdeu a sua dignidade, ele não se preocupa com o seu xale ou seu turbante."

Por Alissa J. Rubin

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