Reunião da América Latina no Brasil desdenha Washington

SAUÍPE - Líderes da América Latina deram mais um passo para se afastar da duradoura órbita em torno dos Estados Unidos em um encontro que reuniu quase toda a região, mas excluiu o país norte-americano e a Europa.

The New York Times |


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Além disso, no processo de reunir os líderes de 31 países, o Brasil mais uma vez mostrou ser o indisputado líder do bloco.

Mas o popular presidente do país anfitrião, Luiz Inácio Lula da Silva, aliado dos Estados Unidos, não conseguiu evitar que os líderes presentes celebrassem a inclusão de Raúl Castro, presidente de Cuba, e usassem a ocasião para atacar os Estados Unidos e a Europa por seu papel na fomentação da crise econômica global que também atinge a região.

"Cuba está voltando para seu lugar de direito", disse Hugo Chávez, presidente da Venezuela. "Estamos completos".

Os Estados Unidos foram feitos de saco de pancadas nos três dias de conferência, que terminam nesta quarta-feira, neste paraíso turístico no Estado da Bahia. Castro não estava sozinho nos ataques ao país e ao que chamou de modelo "neo-liberalista" da crise do crédito, que afeta muitas outras economias.

"No meio de uma crise sem precedentes, nossos países estão percebendo que não são parte do problema", disse Lula. "Eles podem, e devem, ser parte da solução".

O momento do encontro, apenas quatro meses antes da próxima cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, é significativo, dizem os analistas. Este encontro, realizado pela primeira vez em Miami em 1994 a pedido do presidente Clinton, incluirá os Estados Unidos e Canadá, mas não Cuba.


Presidente Lula e Rafael Correa, presidente do Equador, na Bahia / AP

Lula fez a sua parte para tirar a atenção da Cúpula das Américas, chegando a enviar aviões da Força Aérea brasileira para garantir a presença de presidentes de países mais pobres da América Central e do Caribe. O presidente Alan Garcia do Perú e o presidente Álvaro Uribe da Colômbia foram os únicos chefes de Estado que não participaram do evento. O vice-presidente Francisco Santos da Colômbia disse que Uribe, firme aliado dos Estados Unidos, ficou em casa para lidar com os resultados de enchentes trágicas no país.

Poder de influência do Brasil

O encontro reuniu coalizões diversificadas dos países da região, inclusive a recém-formada União do Sul, ou Unasul grupo de países da América do Sul que realizou reuniões nos últimos meses que também excluíram os Estados Unidos.

"Não há dúvida de que isso seja sobre exclusão, sobre excluir os Estados Unidos", disse Peter Hakim, presidente do Inter-American Dialogue, um grupo de pesquisa política de Washington. "O Brasil está demonstrando seu enorme poder de influência".

Com a elevação da China ao posto de principal destino exportador e a visita do presidente Dmitri A. Medvedev da Rússia no mês passado para cortejar líderes da América Latina, há sinais cada vez mais frequentes de que os Estados Unidos se tornaram jogadores distantes nos assuntos da região, disse Riordan Roett, diretor do programa de estudos latino-americanos da Universidade Johns Hopkins.

"Os Estados Unidos já não são, e nunca mais serão, o maior interlocutor para os países da região", ele disse.

Um a um, os presidente saudaram a inclusão de Cuba no encontro, uma expressão que indica frustração com as tentativas americanas de excluir o país de deliberações similares, disse Michael Shifter, vice-presidente do Inter-American Dialogue.

Muitos dos líderes, inclusive Lula, pediram o fim do embargo americano a Cuba. "Este é mais um passo para garantir que Cuba ocupe seu lugar de direito com dignidade na região e no mundo", disse Bruce Golding, primeiro-ministro da Jamaica.

Mas mesmo enquanto os líderes latino-americanos usavam seu poder coletivo em busca de união, desafetos regionais se tornaram evidentes.
Na Bolívia, Oscar Ortiz, presidente do Senado e proeminente crítico do presidente Evo Morales, pediu que o novo órgão regional investigue assassinatos cometidos recentemente em seu país, descritos como massacre por uma comissão da Unasul.


Representantes dos países latinos se reuniram na Costa do Sauípe / AFP

Os líderes da região continuam a disputar a escolha de um líder para a Unasul. Tabare Vasquez, presidente do Uruguai, disse em outubro que irá se opor à indicação do ex-presidente da Argentina Nestor Kirchner, uma medida que reflete relações tensas entre os países no passado.

A tensão entre Brasil e Equador também é montante, com o presidente Rafael Correa expulsando executivos da Odebrecht, uma grande construtora brasileira, e discordando de um empréstimo feito pelo poderoso banco de desenvolvimento nacional do país vizinho, que financia projetos de trabalho público em toda a América Latina.

Mas essas disputas podem estar mais relacionadas com a ascensão do Brasil como potência regional e suas corporações multinacionais concorrendo mais agressivamente por negócios além das fronteiras do país. Em Lula, o Brasil tem um líder adepto a lidar com tensões através da diplomacia, mesmo quando a tática foi abandonada por Washington em grande parte da região.

"Lula é um líder que pratica a política do abraço de urso, pensando que todos os problemas podem ser resolvidos com um abraço", disse Larry Birns, diretor do Council of Hemispheric Affairs, um grupo de pesquisa baseado em Washington.

Por ALEXEI BARRIONUEVO

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