Retrospectiva reaviva memórias do apartheid na África do Sul

Exposição de fotos de Ernest Cole chocam, enraivecem e sensibilizam país que mantém feridas da segregação abertas

The New York Times |

Quando ele tinha por volta de 20 anos de idade, Ernest Cole, um fotógrafo negro com menos de 1, 54 metro de altura, criou um dos registros pictóricos mais angustiantes de como era ser negro em meio ao apartheid (sistema de segregação racial) sul-africano. Ele foi para o exílio em 1966 e, no ano seguinte, seu trabalho foi publicado nos Estados Unidos em um livro, "House of Bondage", mas as suas fotografias foram proibidas em sua terra natal, onde ele e sua obra permanecem pouco conhecidos.

No exílio, a vida de Cole desmoronou. Durante grande parte do final dos anos 1970 e começo dos anos 1980 ele viveu nas ruas de Nova York, desprovido até mesmo de suas câmeras. "Sua vida tinha se tornado uma sombra", revelou um amigo mais tarde. Cole morreu aos 49 anos em 1990, apenas uma semana após Nelson Mandela ser libertado. Sua irmã voou de volta para a África do Sul com suas cinzas no colo.

The New York Times
Foto de Ernest Cole mostra oficial detendo menino no centro de Joanesburgo, na África do Sul
Cole finalmente terá uma outra espécie de regresso à casa. A maior retrospectiva de seu trabalho já montada até agora está em exposição na Galeria de Arte de Joanesburgo, um prédio em estilo neoclássico de quase um século atrás, de uma época em que a África do Sul conquistou grandes fortunas com a mineração feita às custas dos trabalhadores negros. É uma coleção de imagens que ainda possui o poder de chocar e enraivecer.

"Como é que os brancos puderam fazer isso conosco?", perguntou Lebogang Malebana, 14 anos, que parou diante de uma fotografia de  "Como eles poderiam colocar homens negros nus em exposição assim?"

Cole concebeu sua própria ideia de retratar a vida dos negros depois de ver o livro de Henri Cartier-Bresson "As Pessoas de Moscou". Ele conseguiu essa imagem em particular escondendo sua câmera dentro da lancheira que levava à mina, em meio a sanduíches e maçãs, relatou Struan Robertson, que compartilhava um estúdio de revelação e câmara escura com Cole, em um ensaio que acompanha a exposição “Ernest Cole: Fotógrafo”.

Marcas

Em uma tarde recente de sábado no museu local de Joanesburgo, uma cidade dominada pelo crime e abandonada pelos brancos há muito tempo, três visitantes vagavam por galerias cavernosas repletas com o trabalho de Cole. Lebogang, um aluno da oitava série, deixou o apartamento de um quarto que divide com sua mãe, uma empregada doméstica, e seu irmão mais novo nas redondezas para visitar a exposição. "É muito triste", ele disse enquanto observava as imagens em preto e branco.

Jimmy Phindi Tjege, 27 anos, que como muitos jovens negros sul-africanos nunca teve um emprego em uma sociedade ainda marcada pelo apartheid, veio à exposição com sua namorada, Nomthandazo Patience Chazo, 26 anos, que trabalha para o governo e tem um carro. Eles dirigiram desde o bairro negro de Daveyton, a cerca de 30 quilômetros de distância.

Chazo ficou emocionada com uma fotografia de quatro crianças famintas raspando mingau de um único pote sentados no chão concreto. Tjege destacou outra imagem, a de um menino sério de cócoras no chão de uma sala de aula sem mobília, segurando um quadro negro, com duas lágrimas de suor escorrendo pelo lado do seu rosto.

"Eu sinto raiva", disse Tjege, enquanto gesticulava para o resto da galeria. "Esta sala está cheia de raiva".

As legendas e imagens de Cole são repletas de emoções dolorosas. Ao lado de uma fotografia de uma empregada doméstica segurando uma menina branca cujos lábios estão pressionados contra a testa da mulher a legenda diz: "Os servidores não são proibidos de amar. A mulher segurando a criança disse: ‘Eu amo essa criança, ainda que ela vá crescer e me tratar como sua mãe o faz’”.

A legenda de uma foto de uma enfermaria de hospital na qual o chão estava repleto de crianças doentes diz: "Novos casos têm seus nomes escritos em fita adesiva colada nas suas testas".

Uma série de imagens de tsotsis, jovens gangsteres negros, roubando carteiras de homens brancos é acompanhada por uma legenda que diz: "Os brancos se irritam quando tocados por qualquer pessoa negra, mas uma mão negra sob o queixo é ainda pior. Este homem, distraído com sua fúria, não percebe que seu bolso está sendo furtado".

'Mancha negra'

Filho de uma lavadeira e de um alfaiate, Cole abandonou o ensino médio em 1957 aos 16 anos quando a lei de educação bantu que relegava os negros a trabalhos servis entrou em vigor. Quando ele tinha 20 anos, as autoridades do apartheid consideraram a casa de tijolos de sua família e o município onde ficava como uma "mancha negra" e demoliram tudo.

De alguma forma, fingindo ser órfão, Cole tinha até então tinha conseguido convencer os burocratas do Apartheid a reclassificar-lo como raça mista, apesar de sua pele escura. Sua fluência em africâner, a língua da maioria dos mestiços, provavelmente ajudou. Sua habilidade em passar como mestiço o libertou das leis que determinavam que os negros sempre precisavam de uma autorização de trabalho quando em "zonas brancas" e essa mobilidade se provou crucial para sua fotografia.

Joseph Lelyveld, editor-executivo aposentado do New York Times que foi o correspondente do jornal em Joanesburgo em meados dos anos 60 e trabalhou com Cole, descreveu o jovem fotógrafo como um homem irônico e de fala mansa.

"Seus julgamentos podiam ser enraivecidos, mas ele tinha uma natureza irônica quase furtiva, condicionada pelo que estava tentando fazer", disse Lelyveld, amigo de Cole até sua morte. "Não era fácil ser um homem negro andando por Johannesburgo com câmeras caras. Todos acreditariam que você as roubou".

Em meados dos anos 70, quando Cole era pobre e sem-teto em Nova York, Lelyveld disse que eles foram juntos a um hotel barato em que Cole tinha deixado seus negativos e as fotografias que ele tinha de sua mãe, só para descobrir que eles tinham ido a um leilão de itens abandonados.

Mala de imagens

Por anos circularam rumores de que uma mala cheia de imagens de Cole havia sobrevivido em algum lugar na Suécia. David Goldblatt, um fotógrafo sul-africano de renome ouviu dizer que ela estava na Fundação Hasselblad. Quando Goldblatt recebeu o prêmio Hasselblad, em 2006, e viajou para Gotemburgo para aceitá-lo e pediu para ver o material. Ele disse ter ficado surpreso com as imagens, pensando: "Elas não podem ficar em um cofre".

Mais tarde, quando ele estudou cuidadosamente versões digitalizadas das imagens em sua casa em Johannesburgo, Goldblatt, agora com 80 anos, disse que começou a perceber que muitas das fotografias do livro "House of Bondage" haviam sido cortadas severamente para reforçar o seu impacto em uma poderosa polêmica antiapartheid. Mas os quadros completos mostravam melhor o talento de Cole.

"Ele não era apenas corajoso", disse Goldblatt, que fotografa este país há mais de meio século. "Não era apenas empreendedor. Ele era um fotógrafo extremamente bom".

Por exemplo, a imagem dos recrutas nus fotografados em uma fila de costas, os braços estendidos acima da cabeça, continha uma bacia de água na parede no final da fila. Ela foi quase totalmente cortada no livro. "Cole teve o cuidado de incluir a bacia e ela é como o ponto final ou ponto de exclamação de uma frase", disse Goldblatt. "Ela traz uma outra dimensão. Não é apenas dramática, é banalmente dramática. Este é o tipo de coisa que os fotógrafos vivem para mostrar, esses detalhes".

No próximo ano a exposição, organizada pela Fundação Hasselblad, viajará à Cidade do Cabo, Porto Elizabeth, Durban e Mamelodi, a área de negros perto de Pretória, onde a família Cole ainda vive. A fundação já está planejando uma turnê pelos Estados Unidos que provavelmente irá incluir São Francisco, Detroit, Atlanta e Nova York.

*Por Celia W. Dugger

    Leia tudo sobre: áfrica do sulapartheisfotosernest cole

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG