Retrato da dor provoca debate sobre guerra no Afeganistão

Capa da revista "Time" que mostra jovem mutilada cria discussão sobre futuro das mulheres afegãs após retirada americana

The New York Times |

Reprodução
A jovem Aisha na capa da revista "Time"
Ela não sabe ler nem escrever e nunca tinha ouvido falar da revista "Time", até que um visitante lhe trouxe uma cópia da edição da semana passada, na qual seu rosto, sem nariz, ilustra a capa.

Na quarta-feira, a jovem, cujo nome é Aisha, deixou Cabul para uma longa viagem aos Estados Unidos onde irá passar por uma cirurgia reconstrutiva. No começo do dia, enquanto se preparava para deixar o abrigo de mulheres em um local secreto que tem sido o seu refúgio nos últimos 10 meses, a jovem de 18 anos não sabia da controvérsia em torno da publicação da referida imagem.

"Eu não sei se isso vai ajudar outras mulheres ou não", ela disse, instintivamente cobrindo com a mão o buraco no meio do rosto, como faz sempre que estranhos olham diretamente para ela. "Eu só quero meu nariz de volta".

A reação à cobertura da revista "Time" se tornou uma espécie de teste decisivo sobre as atitudes em relação à guerra e à responsabilidade dos Estados Unidos no Afeganistão. Os críticos da presença americana no país qualificam sua publicação de "chantagem emocional" e até mesmo de “pornografia de guerra", enquanto aqueles que temem as consequências da retirada do Afeganistão a veem como um forte apelo à consciência.

O debate foi alimentado em parte pela escolha do texto que acompanha a imagem: "O que acontece se deixarmos o Afeganistão", claramente sem um ponto de interrogação.

"Isso é exatamente o que vai acontecer", disse Manizha Naderi, referindo-se a casos como o de Aisha. Uma afegã-americana, cujo grupo Women for Afghan Women (Mulheres pelas Mulheres Afegãs, em tradução livre) coordena o abrigo no qual Aisha se hospedou, Naderi concedeu o acesso de fotógrafos à jovem afegã - embora não soubesse que a "Time" veicularia sua fotografia na capa. "As pessoas precisam ver isso e saber o custo de se abandonar o país", disse Naderi.

Como Naderi admite, no entanto, as coisas já estão ruins o suficiente para as mulheres no Afeganistão sem o retorno de um governo Taleban. A emissora Noorin TV de Cabul tem transmitido o que chamou de uma série investigativa sugerindo que os abrigos, todos operados por instituições independentes, são apenas instituições de fachada para a prostituição A série não ofereceu evidências e a emissora nunca enviou ninguém para visitar os abrigos.

O presidente Hamid Karzai, visto como um defensor das mulheres que não conseguiu cumprir suas promessas de indicá-las a cargos em seu gabinete, convocou uma comissão para investigar as denúncias contra os abrigos. Um relatório deverá ser apresentado em breve. O presidente do painel é um mulá conservador, Nematullah Shahrani, que defende publicamente a existência de prostituição nos abrigos.

The New York Times
Aisha é vista em abrigo para mulheres em Cabul, no Afeganistão

Mesmo na ausência de um governo Taleban, as mulheres afegãs sofrem com o extremismo religioso, apesar de terem se beneficiado de um grande progresso. Milhares de escolas para meninas foram abertas desde a queda do regime Taleban e as mulheres atuam ativamente no Parlamento e em grupos de assistência comunitária, nos quais cerca de meio bilhão de dólares em ajuda internacional agora são destinados a programas de igualdade de gênero.

“As feministas há muito afirmam que a invocação da condição da mulher para justificar a ocupação é uma manobra cínica", escreveu Priyamvada Gopal no "The Guardian", um jornal liberal britânico, na quarta-feira, “e a capa da revista Time já é acusada disso”.

O BagNews, um site de esquerda sobre a política das imagens nos meios de comunicação, acredita que a questão tem inclinações de conspiração. "Este título é uma chantagem emocional e a exploração política de gênero para vender o status quo – um envolvimento continuado das forças militares americanas - não é?" Escreveu Michael Shaw.

Richard Stengel, editor da "Time", disse que não. "A imagem é uma janela para a realidade do que está acontecendo – e do que pode acontecer – em uma guerra que atinge e envolve todos nós", ele escreveu em um comunicado no site da revista.

Aisha (ela pediu que seu sobrenome de família não seja revelado) é um símbolo apto dos excessos do Taleban e da sociedade tribal pashtun das partes remotas do Afeganistão. Seu rosto, apesar da desfiguração, é tão bonito como o da menina refugiada afegã cuja fotografia na capa da National Geographic em 1985 se tornou uma imagem icônica da situação do país.

Aos 12 anos, Aisha e sua irmã mais nova foram dadas à família de um combatente Taleban na província de Oruzgan por causa de um costume tribal de resolução de litígios conhecido como "baad". O tio de Aisha havia matado um parente do futuro noivo e, de acordo com o costume, para liquidar a dívida de sangue seu pai deu as duas meninas à família da vítima.

Quando Aisha atingiu a puberdade, ela foi casada com o combatente Taleban, mas uma vez que ele vivia escondido, ela e a irmã foram alojadas com os animais e seus sogros as usavam como escravas, muitas vezes as espancado como punição pelo crime do tio.

Aisha fugiu do abuso, mas seu marido a localizou em Kandahar um ano atrás e a levou de volta para Oruzgan. Em uma montanha isolada, ele cortou seu nariz e suas orelhas e a deixou sangrando. Ela disse que ainda não se lembra de como conseguiu caminhar para encontrar ajuda.

Na cultura pashtun, se diz que um marido que é humilhado por sua mulher “perdeu o nariz”, explicou Naderi. Por isso, do ponto de vista do marido, ele puniu Aisha na mesma moeda.

Trabalhadores de instituições americanas na província de Oruzgan levaram Aisha ao abrigo para mulheres afegãs em Cabul, onde no início ela estava traumatizada demais até mesmo para falar. Eles a apresentaram a um psicólogo e, gradualmente, ela se recuperou, aprendeu a fazer artesanato, mas mostrou pouco interesse no trabalho escolar. Mesmo antes da capa na revista "Time", a organização havia encontrado o apoio da Fundação Grossman Burn, em Calabasas, na Califórnia, que concordou em custear os oito meses de cirurgia reconstrutiva.

The New York Times
Aisha se prepara para viajar aos Estados Unidos, onde fará cirurgia reconstrutiva

Uma vez, durante a estada de Aisha no abrigo, seu pai lhe visitou para tentar convencê-la a voltar para casa de sua família, mas ela se recusou. "Eu ainda estou com raiva do que fizeram comigo", ela disse. Ainda assim, ela gostaria de poder ligar para casa para dizer-lhes que estava indo para a América, ela disse, mas não há cobertura de telefonia celular na área dominada pelo Taleban de onde ela vem.

Aisha usou um terninho rosa brilhante com bordados e pérolas em seu último dia em Cabul, e distribuiu abraços nas outras meninas e mulheres do abrigo. Ela disse que estava feliz e animada com sua viagem para os Estados Unidos.

Ela colocou um vestido preto mais neutro para a viagem ao aeroporto e arrumou o véu debaixo dos olhos. Naderi pegou seu bebê de 14 meses de idade em seu ombro e seguiu para o avião, com Aisha segurando sua camiseta enquanto andava. Este não é um final feliz, salientou Naderi.

"Sua irmã de 10 anos de idade, ainda está lá e não temos ideia de como ela está", disse ela. "Eles provavelmente estão descontando toda a sua raiva sobre ela agora, ou exigindo uma outra menina de sua família para substituir Aisha”.

Por Rod Nordland

    Leia tudo sobre: afeganistãoeuaimprensa

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG