Restaurante no Camboja reúne coreanos dos dois lados da fronteira

Em momento incerto em Pyongyang, estabelecimento tenta gerar capital líquido com ambicioso projeto que quer estabelecer franquias

The New York Times |

Em um restaurante de beira de estrada perto das antigas ruínas de Angkor Wat, turistas da Coreia do Sul chegam em ônibus cheios para assistir a um espetáculo exótico: mulheres norte-coreanas com rostos de boneca cantando em espetáculos diversos, de baladas suaves a uma apresentação empolgante de Carmen, de Bizet.

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Turistas sul-coreanos tiram foto com garçonete norte-coreana em restaurante

Na península gelada das Coreias, as relações entre norte e sul permanecem tensas . Mas em Siem Reap, em meio à brisa agradável dessa cidade turística do Camboja, coreanos de ambos os lados da fronteira confraternizam em um restaurante cujo dono é da Coreia do Norte, como se a reunificação estivesse apenas a poucos dias de acontecer.

"Todo mundo está muito animado", disse Jung Myong-ho, um guia turístico da Coreia do Sul durante um show em uma noite recente. "Na Coreia do Sul, não temos a oportunidade de conhecer pessoas da Coreia do Norte."

Você não conseguiria perceber que a Coreia do Norte e do Sul estão tecnicamente em guerra pelos rostos radiantes que vê no local e pelos fortes aplausos para os artistas norte-coreanos e o frenesi de fotos que são tiradas após a apresentação. Nortistas e sulistas posam uns ao lado dos outros, ombro a ombro, um momento que vai além das fronteiras físicas e é capturado pelas câmeras.

O restaurante, batizado de Pyongyang, como a capital da Coreia do Norte, tem um ambicioso plano de expansão e quer estabelecer franquias em alguns lugares exóticos. Já há filiais em Bangladesh, Dubai, Laos e Nepal, segundo Bertil Lintner, o autor de "Grande Líder, Querido Líder: Desmistificando a Coreia do Norte Sob o Reinado do Clã Kim".

Ele chama os restaurantes, que abriram em toda a Ásia na última década e só aceitam dólares americanos, de um "experimento capitalista da Coreia do Norte", onde uma taça de vinho custa US$ 30 e as refeições podem chegar a custar US$ 100 por pessoa.

Esse é um momento estranho para tal empreendimento. Os dias são incertos na Pyongyang verdadeira, onde a morte do antigo líder, Kim Jong Il , e a sucessão de seu filho, Kim Jong Un , geraram temores de instabilidade e criaram uma atmosfera na qual o menor desvio da rígida doutrina comunista é motivo para um mandato de prisão - a ser cumprido em um campo de trabalhos forçados.

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Lintner diz que a cadeia de restaurantes Pyongyang é uma tentativa do governo de gerar capital líquido, um suplemento para as vendas de mísseis e tecnologia nuclear do país. Não há dúvida de que esse empreendimento é necessário, pois o país lida com a escassez de alimentos e combustível, além de uma economia socialista em estado de colapso.

De fato, gerar capital líquido pode ser mais crítico agora do que em qualquer outro momento desde a década de 1990, quando quase 2 milhões de habitantes da Coreia do Norte morreram de fome. Junto com inúmeros problemas econômicos, Kim Jong Il deixou para seu filho uma campanha promissora dizendo que 2012 será "um ano em que a prosperidade irá predominar."

Os sul-coreanos voam milhares de quilômetros para visitar os templos e as lojas - mas aproveitam para ter um pouco de diversão política em uma das duas franquias dos restaurantes que tem funcionários da Coreia do Norte.

Artistas da Coreia do Norte, vestindo o hanbok, uma roupa tradicional, sorriem enquanto tocam bateria, guitarras elétricas e acordeão de maneira viva e alegre ao se apresentarem no palco. Quando uma das acrobatas começa a girar sem parar, fazendo seu vestido de poliéster parecer um pára-quedas, a plateia da Coreia do Sul dá muitos gritos e aplausos.

Especialidades gastronômicas da Coreia do Sul, que vão desde o óbvio (kimchi) ao mais obscuro (caçarola de carne de cachorro) estão no menu, tudo preparado por uma equipe de cinco chefes de cozinha vindos da Coreia do Norte.

As acrobatas, que também trabalham como garçonetes, dizem que vieram da Coreia do Norte para trabalhar no restaurante há três anos. Mas quando uma pergunta é feita para obter detalhes do restaurante e de seu propriétario, seus rostos se fecham em uma expressão vaga. Elas pediram a um repórter e fotógrafo, o único cliente não asiático no restaurante, que excluísse as fotos do local de sua câmera.

Existem lembretes de como são as coisas na Coreia do Norte em todo o lugar, que se parece com um buffet de casamento. As paredes são cobertas com murais pintados que os funcionários dizem ser representações de montanhas da Coreia do Norte. Potes de vidro guardam ervas medicinais e chás da Coreia do Norte. Até mesmo vinho branco feito no país está à venda no restaurante.

Mas talvez o mais impressionante é que não há cartazes de propaganda política, não há slogans e retratos de Kim Jong-un ou de seu pai ou de seu avô, Kim Il-sung. As garçonetes evitam entrar em qualquer discussão sobre política.

Jung, o guia turístico da Coreia do Sul, disse que o restaurante é uma espécie de terreno neutro para que coreanos do norte e do sul possam ficar à vontade. Dentro do restaurante a "política desaparece", disse Jung. "Nós somos como uma grande família."

Por Thomas Fuller

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