Ressentimento da era soviética reflete na política de cidadania

Sociedade da Estônia, país ex-membro do antigo bloco comunista, inverte russificação e etnia russa perde posição privilegiada

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O principal documento de viagem de Oleg Bessedin é conhecido como “passaporte estrangeiro”, como se fosse uma espécie de mordaça. Mas é tudo o que ele tem quando se aventura no exterior – um lembrete de sua relação conflituosa com Estônia, e das tensões étnicas explosivas que resistem em toda a antiga União Soviética quase duas décadas após a queda do comunismo.

Bessedin, 36 anos, de etnia russa, nasceu e cresceu na Estônia, e vive no país com sua família. Legalmente, porém, ele não é estônio, nem cidadão de qualquer outro lugar. Ele está entre as cerca de 100 mil pessoas na Estônia, em sua maioria de etnia russa, que são apátridas, como se fossem refugiados em seu próprio país.

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Oleg Bessedin é um dos 100 mil habitantes da Estônia que são de etnia russa
“Eu amo meu país e fiz muito por ele”, disse Bessedin. “Mas o meu país não tem feito muito por mim”.

Ele acusa as autoridades da Estônia por condená-lo ao ostracismo, enquanto eles, por sua vez, culpam os líderes da antiga União Soviética pela bagunça que deixaram para trás.

Geografia

Seja de quem for a culpa, um conflito profundo é o legado das políticas étnicas e demográficas da União Soviética, que moveram milhares de pessoas por seu território – e mudaram muitas fronteiras – a fim de cimentar o controle do Kremlin sobre um grande território.

Os resultados disso continuam a aparecer e os países pós-soviéticos estão constantemente confrontando a situação. A política de cidadania tem sido talvez a questão mais provocante, em certo sentido, pois representa de certa forma a reação do governo da Estônia para os planos de Josef Stalin.

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Passaporte estrangeiro é o documento usado em viagens por aqueles não têm cidadania
Antes de a Estônia ser ocupada pelos soviéticos em 1940, sua população era em grande parte de etnia estônia – o clima de ressentimento era tão forte que muitos ficaram do lado dos alemães quando Hitler invadiu em 1941. Nas décadas subsequentes, para garantir a fidelidade ao governo soviético, muitos russos étnicos foram enviados para morar no país. Hoje, quase metade das pessoas em Tallinn – nem todos de etnia russa – falam russo como língua materna.

Com a independência no início dos anos 1990, o governo inverteu a russificação. Agora, o ensino do estoniano é obrigatório nas escolas, bem como seu uso em repartições do governo. Além disso, o país adotou uma política que deixou pessoas como Bessedin apátridas: com poucas exceções, a Estônia concede cidadania apenas às pessoas que a tinham antes da invasão soviética, ou a seus descendentes.

Testes

Os não-estonianos podem obter a cidadania por meio de um teste de língua, mas isso é difícil para muitos da etnia russa, que não sentiam necessidade de aprender o estoniano na era soviética. Há também um exame cívico, em estoniano.

A sociedade da Estônia, em outras palavras, sofreu uma reviravolta, e as pessoas de etnia russa têm perdido a sua posição privilegiada, conforme o colapso da União Soviética tem reordenado as relações étnicas em todo o espaço soviético.

*Clifford J. Levy

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