Repressão contra a imigração nos EUA chega à cozinha

Restaurantes que recrutam estrangeiros como funcionários estão na mira de legisladores que prezam por política em vigor desde 2009

The New York Times |

Para um homem que enfrenta a possibilidade de até 30 anos de prisão, quase US$ 4 milhões em multas e a apreensão de seu pequeno restaurante francês, Michel Malecot tem um ar jovial e estranhamente sereno.

Durante o almoço, recentemente, ele caminhou pelo French Gourmet, seu restaurante para 45 pessoas, padaria e empresa de buffet na cidade de Pacific Beach, abraçando seus clientes regulares e lhes dando um beijo em cada bochecha, antes de voltar para a cozinha e fazer ele mesmo um sanduíche de baguete com arenque e manteiga. "Sirva isso com batatas quentes", disse Malecot ao acrescentar: "C'est bon".

Imigrante do sul da França, ele veio para o país em 1972, fixando residência em San Diego porque o clima lembrava o de casa. Mas agora um problema de imigração fez dele uma causa célebre local, colocando-o no meio de uma das discussões mais controversas da nação, seu futuro em risco e gerou medo na indústria do restaurante, que vale mais de US$ 550 bilhões no país.

The New York Times
O francês Michel Malecot chegou aos Estados Unidos em 1972 e decidiu se estabelecer em San Diego
Em abril, Malecot, 58 anos, foi indiciado por um júri federal, acusado de contratar ilegalmente 12 imigrantes sem documentos, no que os promotores retratam como uma mentira descarada, continuando a empregá-los depois de saber que estavam no país ilegalmente. Ele se declarou inocente.

Mas, se condenado, enfrenta a possibilidade de confisco do prédio do restaurante, juntamente com uma propriedade adjacente de aluguel, onde fica o Bar Froggy's. Especialistas legais dizem que seria uma punição excepcionalmente rígida, mas que poderia ser um sinal das coisas por vir para uma indústria que é uma das maiores empregadoras de imigrantes do país.

"Eles estão usando um corpo de leis destinado a traficantes de droga e lavagem de dinheiro para ir atrás de um estabelecimento icônico e filantrópico", disse Jot Condie, presidente da Associação de Restaurantes da Califórnia, que tem 22.000 membros. "Se sua estratégia é obter a atenção do setor, missão cumprida”.

Política

Sob uma política que entrou em vigor em abril de 2009, a administração Obama está adotando uma postura muito mais dura em relação aos empregadores que contratam imigrantes ilegais do que qualquer governo em décadas. Agentes têm submetido empresas de todo o país a um escrutínio muito maior, usando táticas que eram praticamente inexistentes há até dois anos. Os oficiais federais disseram que esperam anunciar um número recorde de inquéritos e multas até o final do ano. No dia 31 de julho a Agência de Imigração e Alfândega, um braço do Departamento de Segurança Interna, anunciou investigações em 2.073 empresas até agora no ano, superando as 1461 realizada ao longo do ano de 2009.

Restaurantes não foram os únicos sob o holofote, mas até recentemente a aplicação da imigração havia sido notoriamente fraca, ignorando cozinhas cheias de trabalhadores sem registro ou com documentos falsos, dizem oficiais do governo e especialistas do setor. Mas isso está mudando rapidamente, segundo revela o aumento do número de inquéritos e sanções contra restauradores.

Em junho, o proprietário de dois restaurantes de Maryland, que se confessou culpado de empregar e abrigar imigrantes ilegais foi condenado a perder para o governo mais de US$ 700 mil em ativos – além de sua motocicleta – e pode pegar até 10 anos de prisão. Em novembro, o dono de um restaurante no Mississipi, que se declarou culpado de contratar imigrantes ilegais foi condenado a um ano de prisão e um ano de liberdade vigiada. As multas combinadas no caso, compartilhadas entre vários réus, somaram a quantia de US$ 600 mil.

Origem estrangeira

De um total de cerca de 12,7 milhões de trabalhadores na indústria de restaurantes, cerca de 1,4 milhões são de origem estrangeira – tanto imigrantes legais quanto ilegais –, de acordo com o Bureau de Estatísticas do Trabalho. De acordo com estimativas de 2008 do Pew Hispanic Center, cerca de 20% dos quase 2,6 milhões de chefs, sous chefs e cozinheiros são imigrantes ilegais. Dos 360 mil lavadores de louça, 28% estão em situação irregular, de acordo com as estimativas.

Esses números soaram baixos para um chef de Manhattan, que falou sob condição de anonimato porque não quer chamar a atenção para seu restaurante em TriBeCa.

"Nós sempre, sempre contratamos os trabalhadores sem documentos", disse ele. "Não sou só eu, é toda a indústria. Primeiro, eles estão dispostos a fazer o trabalho. Em segundo lugar, eles estão dispostos a aprender. Terceiro, eles recebem menos. É uma decisão econômica. É mais barato contratar uma pessoa em situação irregular”.

Embora muitos restaurantes cumpram a lei, de acordo com funcionários do governo, economistas dizem que os imigrantes têm um apelo porque tendem a ser especialmente leais, estáveis e confiáveis. Eles também são mais propensos do que os cidadãos dos Estados Unidos a trabalhar por salários mais baixos, sem seguro de saúde, dias de doença ou férias pagas.

Barbara Coe, presidente e fundadora da Coalizão para Reforma Imigratória da Califórnia, que defende a limitação da imigração, disse que tem pouca simpatia para com os restaurantes que contratam trabalhadores ilegais. "Qualquer restaurante que opte por contratá-los merece ir à falência", ela disse. "Eles estão enchendo seus bolsos por violar a lei”.

Alguns defensores dos imigrantes concordam. "Nós não achamos que um restaurante deve existir se não pagar os salários legais", disse Ted Smukler, diretor de políticas públicas do Interfaith Worker Justice, um grupo de direitos dos trabalhadores. "Os novos imigrantes têm muito medo de reclamar e isso os torna trabalhadores atraentes para empregadores sem escrúpulos”.

No French Gourmet, o governo diz que, além de Malecot, Richard Kauffmann, gerente e chef, esteve profundamente envolvido no que chama de uma conspiração. Kauffmann enfrenta acusações, tempo de prisão e multas semelhantes, e se declarou inocente.

Histórico

Malecot abriu o French Gourmet, que agora tem cerca de 120 empregados, em 1979. Ele se casou com uma americana e tornou-se cidadão americano em 1985.

Ele é um dos principais fornecedores da cidade, tendo ganho uma enorme quantidade de prêmios locais e estaduais para o negócio. Seus bolos de casamento foram listados na lista de "Melhores para Casamentos" do site Knot.com por vários anos.

Mas o negócio, cujo lema é: "O dia é delicioso no French Gourmet!", atraiu uma atenção menos positiva depois que Malecot ofereceu gratuitamente os alimentos de uma festa em homenagem aos veteranos da Guerra do Iraque, em 2006. Segundo o advogado de Malecot, Eugene Iredale, o pequeno jantar foi realizado em uma base da Força Aérea, onde as medidas de segurança reforçadas e de controle de identidade levaram à descoberta de que um dos funcionários do French Gourmet, um imigrante argelino, estava trabalhando ilegalmente. A partir de então, as autoridades passaram a observar sus operações.

Segundo a acusação, a empresa já tinha recebido cartas de "não reconhecimento" da Administração da Previdência Social, dizendo que os números de Social Security utilizados por alguns empregados não eram válidos. Estas cartas não instruiam os empregadores a tomar medidas contra os trabalhadores, mas sim a apresentar números válidos.

A acusação alega que Malecot então começou a pagar os funcionários em dinheiro, antes que Kauffmann e outros apresentassem novos números de Social Security que certificaram falsamente. E o governo diz que o French Gourmet foi longe para enganar as autoridades – que levou às acusações criminais de abrigar os imigrantes, ou esconder sua situação irregular.

No dia 15 de maio de 2008, as ruas ao redor do French Gourmet foram fechadas e uma dúzia de agentes armados invadiu o restaurante. Eles prenderam 12 trabalhadores, apreenderam documentos e confiscaram os discos rígidos do escritório. Malecot estava na França na época da invasão e nenhuma acusação foi feita contra ele até fevereiro passado. Ele se entregou ao tribunal, sem ser preso, e foi libertado sob uma fiança de US$ 150 mil.

O caso Malecot aponta uma das complexidades da contratação de imigrantes: uma lei federal obriga as empresas a apresentar documentos de trabalho que "em seu rosto pareçam ser razoavelmente verdadeiros", diz a lei. Mas documentos falsos são facilmente obtidos pelos imigrantes. Para evitar ser desarmado por papéis que parecem reais, os empregadores dizem que são forçados a desempenhar o papel de agentes de imigração.

Sistema

As agências governamentais recomendam agora que os empregadores contratem uma empresa de auditoria ou treinem pessoal para a detecção de documentos fraudulentos. Um número crescente de Estados já exige que os empregadores utilizam o E-verify, um sistema online estatal que instantaneamente determina a elegibilidade dos candidatos a trabalhar nos Estados Unidos. Mesmo nos Estados onde o sistema não é obrigatório, segundo especialistas do setor, mais restaurantes estão usando o sistema. O French Gourtmet está entre eles.

Críticos, no entanto, dizem que os dados no sistema pode estar errados e que algumas pessoas que são elegíveis para trabalhar estão sendo recusadas.

A Associação Nacional de Restaurantes está incitando um Congresso paralisado em busca de mudanças nas leis de imigração, incluindo políticas que tornem mais fácil para os trabalhadores sem documentos ganhar status legal.

Malecot, que falou livremente em uma entrevista no restaurante, disse que acreditava que ele tinha apresentado todos os documentos de trabalho adequados para os trabalhadores presos. Esses trabalhadores são agora testemunhas no caso contra ele, de acordo com Iredale.

"Talvez você veja isso apenas como destino", disse Malecot. "Eu vim para cá sem nada. Eu acho que é tudo um jogo. É definitivamente é um golpe, e isso é frustrante".

Figura paterna

Malecot é um filantropo ativo em San Diego, contribuindo para causas como a pesquisa do Alzheimer e do câncer, além da educação para ajudar vítimas de tortura. Seus funcionários o descrevem como uma figura paterna que paga por seus cuidados dentais e creches, aluga um barco de pesca para a festa anual da empresa e fornece a cada funcionário férias pagas de uma semana, algo extremamente raro em restaurantes.

Por causa de seus problemas financeiros como resultado do caso ele não pode mais arcar com algumas dessas vantagens, disse. A próxima data na corte é dia 29 de novembro.

"Ele é muito generoso", disse Assunção Gallardo, um imigrante mexicano que cozinhou no restaurante por 16 anos. "É como se nós somos todos uma família. Nós comemos – ele nos dá três refeições por dia e comida para levar. E depois ele dá comida para os pobres".

Desde a acusação, segundo Malecot, ele perdeu pelo menos US$ 500 mil em oportunidades de servir festas. Essa atividade representa cerca de 70% da receita do French Gourmet, que até agora este ano somou cerca de US$ 4,5 milhões, disse Malecot. Mas os clientes de longa data têm jantado lá mais vezes para mostrar o seu apoio, ele disse.

Um deles, Pat Hyndman, come no French Gourmet há 10 anos e contou: "A minha reação imediata é que isso é um monte de besteiras do governo. Ele é o buffet mais respeitado da cidade. Percebi que isso é muito maior do que Michel".

*Por Sarah Kershaw

    Leia tudo sobre: imigraçãoeuarestaurantesfrançamultalei

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG