Repreensão coloca presidência de Barack Obama em risco

Símbolo de mudança, Obama tornou-se alvo da correnteza que o elegeu e terá de reafirmar autoridade para evitar derrota em 2012

The New York Times |

Em algum ponto ao longo do caminho, o apóstolo da mudança tornou-se seu alvo, tragado pela mesma correnteza que o levou à Casa Branca há dois anos. Agora, o presidente Barack Obama deve encontrar novos caminhos com nada menos que sua presidência em risco.

O veredito dos eleitores na terça-feira efetivamente acabou com suas ambições de transformação e o deixou em busca de um novo caminho diante de um horizonte mais limitado de possibilidades. Diante de uma Câmara hostil com poder de intimação e de uma maioria reduzida no Senado, ele terá de descobrir a combinação certa entre conciliação e confronto para reafirmar sua autoridade e evitar uma derrota em 2012.

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Obama reconheceu decepção de americanos com ritmo de recuperação econômica
A questão mais urgente enfrentada por Obama diante dos resultados da manhã de quarta-feira é a lição que ele aprenderá dessa inversão eleitoral. Foi essa uma reação natural e inevitável em um momento de dificuldades econômicas históricas, ou foi um repúdio a um governo ativista de grandes gastos? Foi principalmente uma falha na comunicação, como a Casa Branca sugeriu recentemente, ou uma desconexão fundamental dos valores e das prioridades do público americano?

“Ele vai estudar os resultados cuidadosamente e ouvir a mensagem que o povo americano está enviando” disse David Axelrod, conselheiro sênior do presidente, em uma entrevista. "Eu acho que ele vai fazer isso com cuidado e humildade. Mas ele também está muito centrado e quer se concentrar no que devemos fazer agora e como podemos responder de maneira construtiva”.

Obama permaneceu longe dos olhos públicos na noite terça-feira, acompanhando a apuração na residência da Casa Branca com sua família, mas em coletiva, na quarta-feira, ele falou diretamente sobre a frustração do público que levou à vitória republicana, e garantiu que convidará líderes de ambos os partidos para que se reúnam em prol de uma agenda comum para consertar a economia e domar o déficit.

Mas com suas vitórias recentes, os republicanos podem ter pouco incentivo para seguir Obama. “O povo americano enviou uma mensagem inequívoca, que basicamente diz: mude de rumo”, disse na noite de terça-feira o deputado John Boehner, de Ohio, novo presidente republicano da Câmara.

Nos dias que antecederam a eleição, o senador e líder republicano Mitch McConnell, do Kentucky, disse que “a única coisa mais importante que queremos conquistar é que o presidente Barack Obama seja um presidente de um mandato”. Mike Pence, de Indiana, um dos principais republicanos na Câmara, já disse várias vezes que não haveria “nenhum” acordo com Obama.

A viabilidade da nova ordem política em Washington será rapidamente testada quando o Congresso retornar à cidade para uma última sessão este mês. Obama pode ter de ceder e aceitar pelo menos uma extensão temporária dos cortes de impostos para os americanos mais ricos e não apenas para a classe média, que ele favorece. Ele será pressionado a mostrar que fala sério sobre refrear o crescimento dos gastos do governo e lidar com a dívida nacional. E pode ser mais difícil também convencer o Senado a aprovar, por exemplo, o tratado de controle de armas com a Rússia.

Autoridade

Para além do curto prazo, o presidente provavelmente se voltará a mais iniciativas no Congresso e a um uso mais agressivo de sua própria autoridade executiva para avançar sua agenda. Em uma entrevista recente, Obama listou três áreas nas quais pensa ser capaz de trabalhar com um novo Congresso: reforma imigratória, redução de gastos e déficit e reforma do sistema educacional.

“O presidente é alguém que sabe que não vai conseguir o que quer nas questões em que precisa dos republicanos e tem a capacidade de envolvê-los”, disse o secretário de Transportes, Ray LaHood, republicano mais proeminente no governo.

Ainda assim, grande parte do tempo de Obama pode ser gasto na defesa, rechaçando os esforços republicanos para revogar ou recusar-se a financiar o programa de saúde que ele conseguiu aprovar este ano. Claro, ele ainda terá uma relativa liberdade na política externa, como vai demonstrar ao deixar a cidade na sexta-feira para uma viagem com muito atraso à Ásia.

Repetição

Obama se encontra em uma posição semelhante à de seus dois antecessores mais recentes, Bill Clinton e George W. Bush, cada um dos quais sofreu com uma eleição que entregou o Congresso para a oposição. Ainda que distintas por vários fatores, cada uma dessas eleições foi vista como um referendo sobre o presidente. Nas pesquisas de boca de urna, 37% dos eleitores disseram que seu voto buscava expressar oposição a Obama, em comparação com 24% que disseram estar tentando apoiá-lo – números quase idênticos aos de Bush quatro anos antes.

Bush respondeu demitindo o então secretário da Defesa Donald Rumsfeld um dia depois da eleição de 2006, mas entrou em disputas com os democratas sobre os gastos com guerras e outras questões. Bill Clinton se posicionou no centro depois de 1994 e fez acordos com os republicanos sobre o bem-estar enquanto fez manobras para vencê-los durante o desligamento do governo.

Os estrategistas de ambos os lados disseram que as lições do passado têm utilidade limitada. Por mais politicamente tóxica que era a atmosfera em Washington na década de 1990, os dois lados parecem ainda mais polarizados hoje. Os republicanos podem estar mais subordinados a um movimento Tea Party que abomina acordos, enquanto Obama não demonstra o mesmo tipo de sensibilidade centrista que Clinton teve e preside em um momento de maior desemprego e déficit.

“O presidente Clinton foi um conhecido meu. Obama não é o presidente Clinton”, disse o ex-deputado Dick Armey, do Texas, que como líder republicano na Câmara ficou contra Clinton na época e hoje é um dos principais agentes do movimento Tea Party. “Pessoalmente, eu acho que ele já perdeu a sua reeleição”.

Isso ainda será determinado, mas ele pode esperar dois anos difíceis adiante. Clinton e Bush viram o que pode acontecer quando o outro lado adquire o poder de intimação.

Ainda assim, Obama empunha a pena de veto, e seus aliados democratas no Senado irão providenciar uma muralha contra as iniciativas republicanas. Há grande possibilidade de bloqueio. E na Casa Branca há esperança de que os republicanos adotem ações fratricidas entre seu setor estabelecido e os insurgentes do movimento Tea Party, enquanto Obama se apresenta como um politico acima de tudo isso.

Causa comum

Tom Davis, republicano de Virgínia, disse que seria difícil ver Obama encontrar uma causa comum com McConnell ou Boehner, os líderes republicanos. “Obama denegriu Boehner e McConnell por nome – algo não muito presidencial”, disse Davis. “Vai demorar um pouco para que eles fiquem juntos e resolvam esses problemas”.

Além disso, ambos os lados terão de responder a seus partidários à esquerda e à direita, com pouco interesse em um acordo. “Vai haver muita união de base”, disse Davis. “Eu acho que vai ser feio, pelo menos no início”.

*Por Peter Baker

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