Repórter da CBS conta ataque brutal que sofreu no Egito

Lara Logan, que voltou ao trabalho neste mês, foi violentada quando cobria manifestações após a saída do líder Hosni Mubarak

The New York Times |

Lara Logan pensou que ia morrer na Praça Tahrir quando foi abusada sexualmente por uma multidão na noite em que o governo de Hosni Mubarak caiu.

Logan, uma correspondente da emissora CBS, estava na praça para preparar uma reportagem para o programa 60 Minutes no dia 11 de fevereiro quando o clima de comemoração de repente virou ameaça. Ela foi afastada de seu produtor e guarda-costas por um grupo de homens que rasgou suas roupas, tocou e agrediu seu corpo. "Por um longo período de tempo, eles me violentaram com as mãos", disse Logan em entrevista ao New York Times. Ela estima que o ataque envolveu entre 200 e 300 homens.

Logan, que voltou ao trabalho este mês, deve falar longamente sobre o ataque em um program a 60 Minutes especial que será transmitido no domingo à noite.

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Programa da CBS sobre abuso que Lara Logan sofreu no Egito vai ao ar no domingo à noite
Sua experiência no Cairo ressaltou o fato de que as jornalistas são frequentemente confrontadas com um tipo diferente de violência. Embora outras formas de violência física que afetam os jornalistas sejam amplamente cobertas – o traumatismo cranioencefálico sofrido pelo âncora da ABC News Bob Woodruff no Iraque em 2006 foi uma reportagem de primeira página na época – as ameaças sexuais contra as mulheres raramente são mencionadas nos círculos jornalísticos ou nos meios de comunicação.

Com a violência sexual, "você tem apenas sua palavra”, disse Logan na entrevista. "As feridas físicas curam. Você não carrega a evidência daquilo que foi feito com você, como faria se tivesse perdido a perna ou o braço no Afeganistão".

Zonas de conflito

Poucas pesquisas foram realizadas sobre a prevalência da violência sexual que afeta as jornalistas em zonas de conflito. Mas nas semanas seguintes ao ataque sofrido por Logan, outras mulheres relataram serem perseguidas e agredidas durante trabalho no exterior, e grupos como o Comitê para a Proteção dos Jornalistas disseram que irão rever os seus manuais para lidar melhor com os estupros.

Jeff Fager, presidente da CBS News e produtor executivo do programa 60 Minutes, disse que o próximo programa sobre o estupro de Logan busca aumentar a conscientização sobre o problema. "Há um código de silêncio sobre isso que eu acho que é do interesse de Lara e nosso romper", disse ele.

Até agora o único comentário público sobre o estupro ocorreu quatro dias depois que ele aconteceu, quando Logan ainda estava no hospital. Ela e Fager elaboraram uma breve declaração que dizia que ela havia "sofrido uma agressão sexual brutal e contínua, e espancamento". Essa declaração, segundo Logan, "não me deixou carregar o fardo sozinha, como um segredo sujo ou algo do que eu precisasse me envergonhar".

Ataque

O ataque aconteceu no dia em que Logan retornou ao Cairo – a jornalista havia deixado a capital egípcia uma semana antes depois de ter sido detida e interrogada pelas forças de segurança loais. "A cidade estava agitada com a celebração" pela saída de Mubarak, disse ela, comparando o momento a uma festa pública de comemoração do Super Bowl. Ela e uma equipe de filmagem atravessaram a Praça Tahrir, o epicentro das comemorações, entrevistando egípcios e posando para fotos com pessoas que queriam ser vistas com uma jornalista americana.

"Houve um momento em que tudo deu errado", lembrou. Enquanto o cinegrafista Richard Butler trocava a bateria, colegas egípcios que acompanhavam a equipe de filmagem ouviram homens nas proximidades dizendo que queriam tirar as calças de Logan. Ela disse: "Nossos acompanhantes locais disseram: 'Temos que sair daqui’. Foi exatamente neste momento que a multidão me pegou”.

Butler, o produtor de Logan Max McClellan e dois motoristas ficaram "impotentes", disse Fager, "porque a multidão era muito poderosa”. Um guarda-costas que havia sido contratado para acompanhar a equipe foi capaz de ficar com Logan por um breve período de tempo.

"Para Max, ver o guarda-costas sair daquela multidão sem Logan foi uma das piores partes", disse Fager. Ele disse que Logan, "descreveu como sua mão ficou dolorida por dias depois do acontecido – e ela percebeu que havia sido de segurar com tanta força na mão do guarda-costas”. Eles estimaram ter ficado separados dela por cerca de 25 minutos.

"Minhas roupas foram rasgadas", disse Logan. Ela se recusou a entrar em mais detalhes sobre o estupro, mas disse: "O que realmente me impressionou foi como eles foram implacáveis. Eles realmente gostavam da minha dor e do meu sofrimento. Isso incitava ainda mais violência”.

Depois de ser resgatada por um grupo de civis e soldados egípcios, ela foi rapidamente transportada de volta para os Estados Unidos. "Ela ficou muito traumatizada, como você pode imaginar, por um longo período de tempo", disse Fager. Logan disse que imediatamente decidiu que iria falar sobre a violência sexual tanto em nome de outras jornalistas quanto em nome dos "milhões de mulheres que estão sujeitas a ataques como este ou ainda piores".

Líbia

Mais de uma dúzia de jornalistas foram detidos na Líbia nos últimos dois meses, incluindo quatro que estavam trabalhando para o New York Times. Uma das jornalistas, Lynsey Addario, disse que foi repetidamente tateada e assediada por seus captores líbios.

Para Logan, saber sobre a experiência de Addario foi um "retrocesso" em sua recuperação. Enquanto Logan, principal correspondente da CBS para assuntos estrangeiros, disse que iria retornar ao Afeganistão e outras zonas de conflito, mas que decidiu – por enquanto – não voltar a países do Oriente Médio onde os protestos são generalizados. "A própria natureza do que fazemos – a comunicação de informações – é o que está desfazendo esses regimes", disse ela. "Mas isso nos torna o inimigo, quer queiramos ou não”.

Antes do estupro, Logan disse que não sabia dos níveis de assédio e abuso que as mulheres no Egito e em outros países experienciam. "Eu teria prestado mais atenção à questão se soubesse disso", disse ela. "Quando as mulheres são perseguidas e submetidas a isso em sociedade, eles deixam de ter uma posição igualitária nessa sociedade. Os espaços públicos não pertencem a elas. Os homens os controlam. Eles reafirmam o papel opressivo dos homens na sociedade”.

Depois que o programa 60 Minutes for transmitido, no entanto, ela não tem a intenção de dar outras entrevistas sobre o assunto. "Eu não quero que isso defina quem eu sou", disse.

Ela disse que a bondade e o apoio demonstrados por Fager e outros na CBS, além de outras pessoas – como uma sala de aula no Texas e um grupo de mulheres da ABC News, que escreveram cartas a ela – também foi uma parte "muito grande na minha recuperação e restauração da minha dignidade e autoestima”.

Entre as cartas que recebeu, segundo ela, há aquela de uma mulher que vive no Canadá e foi estuprada no banco de trás de um táxi no Cairo no início de fevereiro, em meio aos protestos. "Essa pobre mulher teve de entrar no aeroporto implorando por ajuda das pessoas", contou Logan. Quando ela conseguiu voltar para casa "sua família lhe pediu que não falasse sobre o assunto”.

Logan disse que enquanto lia a carta começou a chorar e soluçar. "Para mim foi um lembrete de como eu era feliz antes”, disse.

*Por Brian Stelter

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