Repensando as possibilidades da guerra do Afeganistão

O que teria acontecido se os EUA tivessem se concentrado no conflito afegão, reconstruído o país e ignorado o Iraque?

The New York Times |

Muito antes da guerra no Afeganistão se tornar o maior confronto na história americana, a dúvida era: poderia ser diferente?

Os arguementos eram: se tivéssemos sido inteligentes o suficiente, a "boa guerra" não teria sido ruim. Se tivéssemos entrado em Tora Bora com uma força esmagadora no inverno de 2001 e capturado Osama Bin Laden. Se tivéssemos destacado uma força considerável no país em 2002, ao invés de assumir que os Talebans haviam sido "eviscerados", o termo usado, e agora lamentado, por militares americanos. Se tivéssemos cumprido a promessa do presidente George W. Bush de uma "Manobra Organizada" para o Afeganistão. Se nós não tivéssemos nos distraído com o Iraque, ou deixado passar o ressurgimento do Taleban, ou confrontado a realidade de o Paquistão estar lutando de ambos os lados da guerra...

Se apenas tivéssemos feito isso diferente.

As revelações feitas pelo WikiLeaks em julho deram nova vida a este mar de dúvidas. Os milhares de relatórios militares revelaram pouco que fosse fundamentalmente novo, muitos deveriam ter sido carimbados como "segredos abertos". Mas em sua crueza, eles revelaram como pressupostos deram origem a erros de julgamento, e como erros de julgamento contínuos diariamente se transformaram em confrontos mortais.

Reuters
Soldado americano é visto durante patrulha em Kandahar, no Afeganistão

Eles também revelaram uma verdade nua: dois anos atrás ainda havia debate em Washington sobre George W. Bush ter atrapalhado a estratégia no Afeganistão e subestimado os recursos necessários para o país. Hoje não há praticamente nenhum debate: liberais e conservadores, generais e até mesmo políticos do governo Bush concordam que a abordagem americana foi seriamente danificada durante os primeiros seis ou sete anos.

“Eu não conheço ninguém no topo da liderança militar que não acredite que fizemos tudo errado entre 2002 e 2006”, afirmou recentemente um alto comandante americano, recusando-se a divulgar seu nome nesta era pós-McChrystal , quando declarações públicas podem levar a uma última e breve visita ao Salão Oval. “A questão é saber se as alternativas que você vê teriam produzido um resultado diferente".

E sobre isso, observou ele, há uma abundância de argumentos.

Só porque uma estratégia é falha, não significa que uma outra abordagem teria funcionado. Os britânicos passaram um século debatendo se uma mão mais leve ou uma ação militar devastadora poderia ter derrubado a Revolução Americana. Em sua autobiografia "My Early Life”, Winston Churchill questiona a mesma coisa sobre o Afeganistão em 1897. Sobre um esforço para subjugar o Vale Mamund, onde hoje é a fronteira entre Afeganistão e Paquistão, ele escreveu: "Nós destruímos as casas, enchemos os poços, derrubamos as torres, cortamos os reservatórios”. Mas as baixas aumentaram. “Se valeu a pena, eu não sei dizer”.

Foram necessárias várias décadas para que os britânicos, e depois os soviéticos, em uma época diferente, percebessem que não valeu. O presidente Obama defende que o Afeganistão ainda é uma "guerra de necessidade".

Mas o que deu errado para os Estados Unidos? Aqui estão alguns momentos cruciais, com alguma especulação sobre o que poderia, ou não, ter acontecido caso Washington tivesse escolhido um caminho diferente.

1. Decidir usar pouca força

Remover o Taleban do poder em 2001 foi enganosamente fácil, levando Washington a crer que os afegãos poderiam cuidar do país a partir dali. Menos de mil soldados americanos e oficiais da CIA, alguns a cavalo, se uniram às forças locais para expulsar o líder Taleban, Mullah Omar, e suas forças de Cabul. Este teria sido o momento, argumenta-se, para colocar entre 20 mil e 30 mil soldados norte-americanos - e talvez um número semelhante de forças da Otan - no país como força de estabilização.

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Soldados americanos durante operação em Helmand, no Afeganistão (13/02/2010)
Mas Bush e seu secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, não quiseram ouvir falar nisso."O consenso era de que pouco poderia ser feito no Afeganistão, dada a sua história, cultura e composição, e haveria pouco retorno mesmo se tudo saísse melhor do que o esperado”, escreveu recentemente Richard Haass, oficial sênior do Departamento de Estado do governo Bush, que defendeu a inserção de uma força muito maior. "Eles não tinham apetite para a construção da nação".

O resultado foi um arremedo de segurança em Cabul e ilegalidades no resto do país. Quando Bush recebeu o novo líder do país, Hamid Karzai, na Casa Branca, ele prometeu: "Vamos ajudar o Afeganistão a desenvolver suas próprias forças armadas”. Mas o governo decidiu não construir um aparato de segurança maior do que os afegãos poderiam eventualmente pagar. O resultado foi desastroso: os soldados recebiam menos do que os insurgentes do Taleban. Em seguida, uma "Manobra Organizada", prometida por Bush alguns meses depois, nunca chegou a acontecer - a Casa Branca disse que o Afeganistão não têm a capacidade de gastar o dinheiro bem.

Para a maioria dos especialistas, esses foram os pecados originais do Afeganistão. Mas quem sabe se uma força de 30 mil, ou mesmo 60 mil, poderia ter trazido estabilidade a um país amplo onde as tribos, e não os governos, tomam as decisões? O aumento de tropas poderia ter simplesmente adiado o inevitável. O Taleban – um movimento nativo – quase certamente teria esperado, imaginando que Washington não poderia sustentar uma força tão grande por muito tempo. Além disso, mesmo quando as forças americanas em 2007 finalmente atingiram o nível defendido por Haass, as forças armadas e policiais afegãs ainda se mostraram extraordinariamente difícil de treinar. O ritmo de formação e de reconstrução foi lento. É o que os comandantes militares americanos no Afeganistão chamam de "Lei de Seis Anos”. Tudo leva seis anos a mais do que deveria.

2. Nenhuma resposta a um ressurgimento inimigo

Na Guerra do Vietnã, a métrica enganosa era a “contagem de corpos": diariamente, os militares anunciavam quantos inimigos foram mortos, como se isso fosse uma medida de progresso. No Afeganistão, a métrica enganosa foi os ataques contra forças americanas. De 2002 a 2005, os números eram pequenos e foram informados em documentos de inteligência para oficiais americanos e diplomatas da Otan como prova de que os Talebans haviam sido derrotados.

Novamente não passou de um erro.

"Eles não estavam mortos, mas estavam ganhando tempo", disse Bruce Riedel, membro sênior do Centro Saban do Instituto Brookings, que conduziu a revisão da política para o Afeganistão em 2009. Em 2006, os ataques aumentaram. "Este era o momento para cortar o Taleban antes que o grupo saísse do controle", disse Riedel.

Nessa época, o general David H. Petraeus, comandante americano no Iraque, finalmente ganhou a discussão para um aumento de tropas no país e, assim, uma força muito menor foi enviada ao Afeganistão, apenas para mostrar que o país não tinha sido esquecido. Não havia tropas suficientes para ataques simultâneos.

AP
Afegãos fazem protesto contra morte de duas pessoas em Jalalabad; eles dizem que os mortos eram civis, enquanto a Otan afirmou que eram insurgentes

Será que uma força maior teria vencido o Taleban? Talvez. Mas é bem provável que os Talebans teriam desaparecido através da porosa fronteira com o Paquistão, para onde sabiam que as forças americanas não poderiam segui-los. Na verdade, foi nessa época que os paquistaneses estabeleceram um refúgio para o grupo, por vezes fornecendo armas e apoio ao Taleban. Bush nunca falou sobre isso em público, (embora ele reclamasse da prática em privado), acreditando que romper publicamente com um Paquistão armado com ogivas nucleares seria um convite a represálias.

3. Missão: expansão e compressão

Conforme o problema do Afeganistão se tornava mais difícil durante a presidência Bush, as metas de Washington se tornaram mais ambiciosas. E mais ambiciosas.

Apesar de toda a sua relutância a respeito da construção da nação, Bush reconheceu que não podia dar sinais de que estava abandonando o Afeganistão, como seu pai foi acusado de fazer após a retirada soviética. Então, houve discursos sobre transformar o Afeganistão como foi feito com a Europa após a Segunda Guerra Mundial. Houve uma corrida para eleições, para criar as armadilhas de um modelo de democracia.

Outros países foram convidados - muitos dos quais voluntários na esperança de que não haveria exigências de que contribuíssem com forças para o Iraque. Cada um recebeu uma função. O Japão teria de desarmar 100 mil ex-combatentes, a Grã-Bretanha estabelecer um programa antinarcóticos, a Itália criar um modelo de sistema judicial, a Alemanha iria treinar a polícia.

Não havia uma central de coordenação. Como reclamou certa vez o conselheiro de segurança nacional de Bush, Stephen Hadley: "Quando todo mundo é responsável, ninguém é responsável”. Os fracassos alimentaram o argumento do Taleban de que os estrangeiros deveriam ser expulsos do país.

“O erro da missão no Afeganistão nos anos Bush foi passar da luta contra o terrorismo após o 11/09 – destinada a destruir a Al-Qaeda – à construção da nação com o objetivo de implantar uma democracia de estilo ocidental", disse Robert Blackwill, que coordenou a política de Bush no Conselho de Segurança Nacional. "Dada a história e a cultura do Afeganistão, essa estratégia foi longe demais”.

Ninguém sabe o que teria acontecido se esses esforços tivessem tido êxito. Mas agora Obama tem caminhado na direção contrária. "Nós não estamos lá para construir uma nação", disse o vice-presidente Joseph R. Biden na semana passada (mas ao seguir a secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, em sua visita ao país você verá uma série de projetos com este objetivo, incluindo novas escolas para meninas). A questão agora é: se o governo Bush criou falsas esperanças, o governo Obama irá criar esperança de menos?

4. A magia e maldição dos prazos

O presidente Obama acrescentou um novo elemento na constante evolução da estratégia para o Afeganistão em dezembro passado: prazos. Ou pelo menos a ideia de prazos.

A esta altura no próximo verão nenhuma tropa americana será enviada ao Afeganistão, supostamente para que comecem a deixar o país. A rapidez desta retirada passa por intenso debate, dentro e fora do governo. A intenção de Obama é clara: ele quer que as forças afegãs saibam que logo terão de defender seu próprio país, ele quer que o governo afegão saiba que não pode mais ficar entocado em Cabul, contando com os norte-americanos para manter o país unido.

Mas os Talebans exploram e distorcem o cronograma de Obama, declarando ameaçadoramente que depois que os americanos deixarem o país, eles ainda estarão por perto. Alguns democratas no Congresso alegam que se os Estados Unidos estão comprometidos com o encerramento da guerra, por que sofrer mais baixas? Julho foi o pior mês para a morte de norte-americanos em combate – 66% em contagem não-oficial – desde o início da guerra.

Embora o prazo exerça pressão sobre o governo de Karzai, ele também criou uma certa sensação de desespero entre os norte-americanos – especialmente entre os militares – que precisam demonstrar um enorme progresso em um curto espaço de tempo. "Esse prazo faz de todos os outros problemas uma crise", David Kilcullen, australiano especialista em contrainsurgência que trabalhava no governo Bush, disse ao Comitê de Relações Exteriores do Senado. Além disso, "nos encoraja a continuar buscando soluções a curto prazo, soluções rápidas", argumentou.

E se há uma lição a ser aprendida com os últimos nove anos é que, no Afeganistão, soluções rápidas não solucionam nada.

Por David E. Sanger

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