Renascimento de Grozny não esconde cicatrizes do conflito checheno

Moscou injeta bilhões na Chechênia pós-guerra em apoio ao presidente Kadyrov, um ex-guerrilheiro que já combateu a Rússia

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Um espetacular complexo de torres arranha-céus foi inaugurado em 5 de outubro em Grozny, cidade antes devastada pela guerra, com bandeiras, luzes piscantes e celebridades convidadas, incluindo Vanessa-Mae no violino.

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Homem e mulher caminham em mesquita central recentemente construída em Grozny, Rússia (7/9/2011)
O novo desenvolvimento imobiliário de Grozny é a peça central de uma transformação que mudou a capital da Chechênia dos destroços carbonizados que foram deixados para trás após as guerras da década de 1990 e que marcavam a paisagem até poucos anos atrás.

No lugar de bombas e artilharia, Moscou investe bilhões de rublos em uma Chechênia pós-guerra para apoiar e tranquilizar o seu líder escolhido, o presidente Ramzan A. Kadyrov, ex-guerrilheiro que já lutou inclusive contra tropas russas.

Os novos edifícios chegam a uma altura de 45 andares e observam do alto uma cidade inteiramente nova, com parques e avenidas largas, fontes e canteiros de flores, e dificilmente um arranhão para lembrá-la de mais de uma década de guerra separatista.

No lugar da carcaça quebrada e vazia que a guerra deixou para trás, uma espécie de Grozny de fantasia está quase completa, incluindo uma pista de patinação no gelo, espaço para feiras e planos para um parque aquático, uma pista de corrida, um centro cultural e um resort de esqui.

"Eles finalmente perceberam que a guerra custa mais", disse Andrei Mironov, que trabalha com o grupo de direitos humanos Memorial, de Moscou, sobre o Kremlin. "O regime da Chechênia parece um vencedor, que recebe dinheiro de um país derrotado."

As construções e o surgimento de uma nova Grozny são desenvolvimentos extraordinários em uma república com quase nenhuma economia própria. O desemprego está em 85%, disse Lyoma Turpalov, editor do jornal Groznensky Rabótchi. Mas a região recebe enormes subsídios de Moscou, disse ele.

Não importa o quanto a cidade seja remodelada, no entanto, o trauma da guerra continua a atormentar seus moradores, disse Taisa Isayeva, 40, uma ex-jornalista que agora relata abusos de direitos humanos.

"Você pode julgar por todos essa bela arquitetura, mas não pela psicologia do povo", disse. "Todos falam sobre os novos edifícios. Mas, durante 15 ou 16 anos, todos vivemos em guerra. Estávamos prestes a chegar à ruína; 90% dos chechenos têm doenças psicológicas."

Apesar de todas as armadilhas de paz e prosperidade superficiais, Grozny ainda pode ser perigosa. Ela foi controlada pelo regime de Kadyrov, mas as suas ruas calmas contêm uma violência reprimida.

Policiais vestidos com uniformes de camuflagem azul carregam rifles automáticos ao patrulhar os parques e cafés, as pizzarias e as agências de turismo com cartazes que anunciam férias no Mediterrâneo.

A segurança estabelecida para a celebração de quarta-feira, que também marcou o 35º aniversário de Kadyrov, foi rigorosa. As principais ruas foram fechadas, e houve relatos de que a polícia tinha ido de casa em casa para verificar documentos.

A cantora colombiana Shakira negou no Twitter que havia sido contratada para participar da inauguração em Grozny, mas Kadyrov insistiu que ela tinha sido e que ficou assustada com os grupos de direitos humanos.

"Ativistas de direitos humanos escreveram uma carta a Shakira dizendo-lhe que não viesse porque as autoridades aqui matam pessoas e os direitos humanos são violados", disse em um comunicado divulgado pela France-Presse. "Apenas inimigos do povo poderiam escrever isso."

Em troca de sua generosidade, o Kremlin tem desfrutado de relativa estabilidade na Chechênia, o que é visto em Moscou como um sucesso para o primeiro-ministro Vladimir V. Putin.

O governo em Moscou cedeu autonomia a Kadyrov, e ele está impondo seu próprio mandato, que inclui a imposição de padrões islâmicos, incluindo a proibição de bebidas alcoólicas e de jogos de azar e pressão sobre as mulheres para que adotem as vestimentas islâmicas.

"Eles gostam da situação atual", disse Andrei Piontkovsky, um comentarista político em Moscou. "Eles gostam do fato de que são independentes, além de receber dinheiro de Moscou."

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Mulher espera em ponto de ônibus perto de muro crivado de marcas de disparos em Grozny, Rússia (8/9/2011)
Kadyrov e seus homens, muitos dos quais vêm de regiões de floresta, conseguiram suprimir boa parte da insurgência, tornando a Chechênia uma das repúblicas mais estáveis na região do Cáucaso.

Os construtores de Grozny estão otimistas. "Nossa cidade hoje tem as características de uma metrópole como Moscou e São Petersburgo", disse o arquiteto-chefe, Nasukhanov Shadid. Mas, para muitos daqueles que passaram por ele, o conflito continua.

Zarema Utsiyeva, 38, professora de jornalismo, disse que a perda de ambos seus filho e do marido continuavam a assombrá-la. "Cada pessoa tem sua própria guerra interior", disse.

*Por Seth Mydans

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