Reminiscências do passado ainda fluem na egípcia Alexandria

Um bar, mostra da diversidade e tolerância da antiga e cosmopolita Alexandria, resiste às forças conservadoras do Egito moderno

The New York Times |

As duas mulheres usavam véus, é verdade. Elas também são religiosas ou pelo menos tão religiosas quanto sua comunidade espera que sejam. Mas não diga que elas não podem parar no bar Sheik Ali e sentar em uma mesa para comer lula frita e conversar enquanto bebem um copo de suco, cercadas por homens que bebem cerveja e uísque.

As mulheres, Nelly Rafat, de 52 anos, e Madga El-Gindy, da mesma idade, são amigas de infância que acreditam que, embora sua religião proíba o álcool, as pessoas são livres para fazer suas próprias escolhas. Essa não é a opinião típica em Alexandria, Egito, atualmente. Mas elas se sentam, comem e desfrutam, sem culpa no ambiente cheio de fumaça de um bar.

"Se alguém sentado aqui quer beber, isso não é da minha conta", disse Nelly, enquanto El-Gindy assentia com a cabeça.

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Egípcias usando véus passam em frente do histórico bar Cap d
Há muita pressão pelas ruas, em Alexandria e em todo o Egito, para que as pessoas ao menos pareçam devotas. Para que as mulheres usem véus. Para que os homens tenham um calo de oração - uma marca escura no meio da testa deixada pela reverência feita cinco vezes ao dia.

E, definitivamente, em especial para as mulheres, para que as pessoas fiquem longe do álcool, especialmente em um bar cheio de homens. "Não é uma tradição muçulmana", disse Muhammad Suleiman, de 32 anos, sentado em uma barbearia ao lado do bar. "O bar não deveria existir. Não gosto dele. Não é a nossa religião. Gostaria que ele fosse fechado."

Mas não é assim que todo mundo quer viver, e não o tempo todo, nem mesmo para as pessoas que concordam em obedecer na questão da aparência, como é o caso de Nelly e Madga.

Especialmente não em Alexandria, uma cidade construída para espelhar o mundo, não a si mesma. O arco da história tem sido cruel para Alexandria, levando a cidade a um declínio lento de quando era o centro de aprendizagem global nos tempos antigos para sua posição atual como uma metrópole decadente e superlotada.

Mas não importa quanto as forças conservadoras sociais do Egito moderno pressionem, Alexandria não consegue dar as costas completamente a um passado tão diferente do atual, quando a diversidade e a tolerância são maiores do que a conformidade e a tradição. A velha Alexandria, a cidade construída por Alexandre o Grande, criou cemitérios no século 19 para todos os cidadãos, com as áreas distintas designadas para os muçulmanos, judeus, cristãos e "livres pensadores".

Aqueles dias se foram, mas ainda estão incorporados na memória e desejo coletivos de muitas pessoas que moram aqui, mesmo aqueles que são jovens demais para se lembrar de quando os alfaiates eram franceses ou gregos, a cozinha italiana, e os judeus uma grande e vibrante parte da cidade.

"Crescemos nas mãos de estrangeiros", disse Francis Zarif, de 33 anos. "É por isso que gosto daqui. A sensação da bondade das pessoas do passado, a humanidade."

Há bolsões de Alexandria onde os moradores têm resistido, ou estão tentando restaurar um senso de curiosidade sobre o mundo, com uma tolerância para a diversidade e a aceitação do outro. A Bibliotheca Alexandrina, a biblioteca pública, centro cultural e de pesquisa, é um lugar onde os visitantes são encorajados a desafiar e questionar uns aos outros e a si mesmos em um esforço para criar uma versão moderna da antiga biblioteca da cidade, que foi destruída em 48 a.C.

Assim é esse pequeno bar, onde a tolerância e uma Stella gelada (a cerveja mais popular do Egito, que não deve ser confundida com a cerveja belga) são abundantes. O álcool é bastante fácil de encontrar no Egito, vendido em hotéis e restaurantes. Mas há poucos bares.

"Venho aqui por causa da história, venho para ter um momento tranquilo", disse um ginecologista sentado tomando uma cerveja e fumando um cachimbo. Já passava das 11 horas e ele estava relaxando "como na Europa", explicou enquanto acenava para amigos em outras mesas. Mas ele não quis dar seu nome, porque lá fora, disse, "a corrente religiosa é muito forte." "Sou um médico de mulheres, você sabe", disse. "Não é bom vir aqui."

O bar é chamado oficialmente de Cap d'Or e é descrito nas palavras desenhadas à mão sobre a loja como um "Restaurante Turístico". Ele foi inaugurado há cerca de 110 anos por moradores gregos, antes que os egípcios reagissem às décadas de subjugação por potências estrangeiras obrigando-os a deixar o país e nacionalizando a propriedade privada.

Quando os gregos fugiram em 1951, Ali Abdel Razeq comprou o bar por quase nada, disse seu neto, Mustafa, que agora o ajuda a cuidar do estabelecimento. Desde então, ele ficou conhecido como Sheik Ali, embora Razeq não tenha o referido título, que pode implicar algumas credenciais religiosas. Ele era um homem que servia álcool e frutos do mar e gostava de apostar em corridas de cavalos.

Ele pode ter adquirido o apelido porque fecha o bar na sexta-feira, dia de oração islâmica e descanso.

Nos primeiros anos, Sheik Ali era como um ponto de encontro de intelectuais, artistas e líderes culturais. Militares com estrelas nos ombros compartilhavam cervejas com os artistas e profissionais.

Agora já não é assim, embora ainda permaneça um lugar aonde as pessoas vão em busca de uma folga das exigências da comunidade e para encontrar amigos. "Esse é um centro comunitário para o pessoas de mente aberta", disse Karim, de 49 anos, que também não quis revelar seu sobrenome porque fora dessa comunidade não é considerado tão respeitável estar em um bar.

O bar dispõe de 13 mesas, cada uma com uma toalha vermelha e branca, e um bar de mármore cinzento longo o suficiente para acomodar cerca de seis pessoas sentadas confortavelmente lado a lado. A torneira de bronze antigo ainda está lá, mas não tem funcionado nos últimos anos. As paredes são cobertas com fotos de Sheik Ali posando ao lado de cavalos de corrida e alguns detalhes arquitetônicos que remontam ao glamour que desapareceu do lugar. As letras de folhas de ouro CDB, por Cap d'Or Bar, ainda estão em um espelho sobre o bar.

Como a cidade em torno dele, os melhores dias do bar estão para trás, um fato que fez pouco para diminuir a lealdade dos clientes de longa data. "A vida fora dessas portas é difícil", disse o contador Osama Tantawi, de 40 anos, que explicou que visitou o Sheik Ali no dia em que completou 21 anos e se tornou um cliente assíduo desde então. "A vantagem de vir aqui é que o separa da vida lá fora."

Enquanto falava, seu amigo, Mahmoud Sherif entrou pela porta. Eles se conheceram no bar a cerca de um ano atrás. "Fico feliz quando estou aqui", disse Sheriff. Ele tomou um gole de uísque. Tantawi pediu outra cerveja.

* Por Michael Slackman

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