Relatos revelam miséria causada por política da Coreia do Norte

Entrevistas feitas com oito norte-coreanos na China pintam retrato assustador do desespero existente no regime de Pyongyang

The New York Times |

O operário de construção norte-coreano vivia na miséria. Seu empregador estatal não lhe pagava havia tanto tempo que ele esquecera seu salário. Na verdade, ele pagava seu chefe para poder deixar o local de trabalho e ser um funcionário fantasma. Assim, ele e sua esposa ganhavam a vida vendendo pequenos sacos de detergente no mercado negro.

Parecia difícil que a vida pudesse piorar. Mas então, em uma tarde de sábado em novembro, sua irmã entrou em seu apartamento em Chongjin com notícias chocantes: o governo norte-coreano havia decidido desvalorizar drasticamente a moeda do país. As economias da família, de cerca de US$ 1.560, foram reduzidas ao equivalente a US$ 3.

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o Rio Tumen, que separa parte da China da Coreia do Norte
No mês passado, o operário lamentou os anos de sacrifício em vão, sentado em um esconderijo na movimentada cidade de Yanki, na região norte da China. Vegetais para seus pais, o remédio para a asma de sua mulher, o agasalho azul marinho que sua filha de 15 anos queria – tudo foi negado com base na teoria de que, mesmo na Coreia do Norte, vale a pena poupar para o futuro. “Ai!”, exclamou, xingando entre soluços. “Trabalhamos tanto para poupar aquele dinheiro! Pensar nisso me deixa louco.” 

Os norte-coreanos estão acostumados com dificuldades e decepções. Mas a desvalorização da moeda, que aconteceu em 30 de novembro, aparentemente em uma tentativa de impulsionar uma economia estatal em dificuldades, foi para alguns o pior desastre desde a fome que matou centenas de milhares em meados dos anos 1990.

Entrevistas feitas no mês passado com oito norte-coreanos que deixaram o país recentemente – um fugitivo da prisão, contrabandistas, pessoas em exílio temporário para trabalhar na China, a mulher de um oficial do Partido dos Trabalhadores em viagem – pintam um retrato assustador do desespero existente dentro da Coreia do Norte, uma nação de 24 milhões de pessoas, e do crescente ressentimento em relação ao seu errático líder, Kim Jong-il.

O que parece não existir – pelo menos por enquanto – é instabilidade social. As crescentes dificuldades, a revolta popular com a desvalorização da moeda e a crescente incerteza política conforme Kim busca estabelecer seu terceiro filho como sucessor não se transformaram em uma resistência notável contra o governo. Pelo menos dois dos entrevistados na China repetiram a propaganda oficial de que a Coreia do Norte é vítima de inimigos obstinados, sua pobreza uma trama armada pelo Ocidente e sua sobrevivência ameaçada pelos EUA, Coreia do Sul e Japão.

A acusação feita pela Coreia do Sul de que a Coreia do Norte afundou um de seus navios de guerra , o Cheonan, em março, é apenas parte da trama, afirmou a esposa do oficial do partido.

“É por isso que temos armas para nos protegermos”, disse durante uma visita a parentes no norte da China – período no qual aproveitou para ganhar um dinheiro extra como garçonete. “Nossos inimigos estão nos atacando por todos os lados e é por isso que não temos eletricidade e uma boa infraestrutura. A Coreia do Norte deve manter suas portas fechadas.”

Outros se mostraram mais desconfiados em relação à propaganda do governo, mas ainda assim consideram uma guerra algo inevitável. “Estamos sempre esperando a invasão”, disse uma ex-professora de escola primária. “Meu filho diz que gostaria que a guerra chegasse, porque a vida é difícil demais e nós provavelmente morreremos de fome de qualquer maneira.”

Eles e outros norte-coreanos falaram apenas sob condição de não revelar seus nomes em conversas em grande parte arranjadas por igrejas clandestinas operando na China logo depois da fronteira. Se fossem identificados como viajando ou trabalhando ilegalmente na China, eles poderiam ser deportados e presos, assim como seus parentes.

Aproximadamente metade dos entrevistados disse que planeja voltar à Coreia do Norte; a outra metade espera desertar para a Coreia do Sul. Seus relatos se encaixam em muitos detalhes. Eles também reforçaram as descrições feitas por economistas e analistas políticos de um país abatido.

Uma economia em retração

Citando fotos aéreas de chaminés que não soltam fumaça, os economistas dizem que aproximadamente três em quatro fábricas norte-coreanas estão inativas. A economia está em retração desde 2006, quando Kim Jong-il abandonou negociações multilaterais que visavam a encerrar seu programa de armas nucleares. O afundamento do Cheonan retrairá ainda mais a economia: a Coreia do Sul suspendeu quase todo o comércio , privando o Norte dos US$ 333 milhões por ano em vendas de peixes, frutos do mar e outras exportações.

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Posto de controle da fronteira na cidade de Nanyang, Coreia do Norte
Quando a Península Coreana foi dividida em 1945, a Coreia do Sul era mais pobre do que a Coreia do Norte. Atualmente, o trabalhador ganha em média 15 vezes mais no Sul, segundo dados corrigidos pelo custo de vida. O número de desertores que chegam à Coreia do Sul pela China tem crescido constantemente na última década, chegando a quase 3 mil no ano passado. 

As taxas de mortalidade infantil e materna aumentaram pelo menos 30% de 1993 a 2008, e, no mesmo período, a expectativa de vida caiu em três anos para 69, segundo dados do censo norte-coreano e do Fundo de População das Nações Unidas.

O Programa Alimentos para o Mundo da ONU diz que uma entre três crianças norte-coreanas com menos de cinco anos é desnutrida. Mais de uma entre quatro pessoas precisa de ajuda alimentar, segundo a agência, mas apenas um entre 17 a receberá este ano, em parte porque os doadores não desejam enviar ajuda a um país que insiste em desenvolver armas nucleares.

A desvalorização da moeda apenas aumentou o sofrimento. Seu objetivo era desviar os rendimentos da ampla economia clandestina norte-coreana – seus mercados de rua – para as empresas estatais sem dinheiro.

Os mercados são a única fonte de renda de muitos norte-coreanos, mas eles são uma afronta ao credo do governo no socialismo econômico. Teoricamente todos, com a exceção de menores, idosos e mães de crianças pequenas, trabalham para o Estado. Mas as empresas estatais estão definhando há 30 anos e os norte-coreanos fazem tudo o que podem para escapar do trabalho nelas.

Os fazendeiros cuidam de seus próprios jardins enquanto ervas daninhas tomam conta de fazendas coletivas. Trabalhadores urbanos evitam suas obrigações em empregos estatais para venderem de tudo, de metal retirado de fábricas desativadas a televisores contrabandeados da China.

“Se você não vender, você morre”, disse a ex-professora, uma mulher de 51 anos com rosto redondo e cabelo preso. Ela passou de uma funcionária pública obediente a uma comerciante ilegal, mas não conseguiu escapar de sua situação difícil.

Com fome demais para estudar

A ex-professora ensinou durante 30 anos em uma escola primária em Chongjin, a terceira maior cidade da Coreia do Norte, com cerca de 500 mil habitantes. O que antes era um emprego de período integral, em 2004 se transformou em uma posição de meio expediente: as escolas passaram a fechar ao meio-dia. Pelo menos 15 de seus 50 alunos abandonaram os estudos ou deixavam a escola após uma hora, com fome demais para poder estudar. “É muito difícil ensinar uma criança faminta”, disse. “Até mesmo sentar na carteira é difícil para elas.”

Os professores também passavam fome. Seu salário mensal quase não comprava um quilo de arroz,  disse. Com formação universitária, ela tirou sua própria filha da terceira série em 1998, optando por enviá-la a uma vizinha para aprender a costurar.

Ela deixou seu emprego em 2004 para vender macarrão no principal mercado de rua de Chongjin, um espaço de barracas com cobertura de plástico que ocupa metade de quarteirão da cidade, onde comerciantes vendem principalmente produtos chineses, incluindo pasta de dente, agulhas para costura e DVDs das novelas sul-coreanas proibidas.

Mas o macarrão não dava lucro, então ela tentou uma tática mais arriscada vendendo produtos controlados pelo Estado: pinhão e frutas vermelhas usados em um chá popular. O esquema ruiu em outubro. Após ela e seus parceiros pegarem 17 sacos de produtos em uma aldeia, um guarda confiscou toda a mercadoria em vez de aceitar suborno para que passassem. Ela ficou com uma dívida equivalente a US$ 300.

Como ela, o operário de construção, um homem muito magro de 45 anos de idade com cabeça boa para números, pensou que o empreendimento privado seria a única salvação de sua família. Mas, como homem, teve mais dificuldades para se livrar do trabalho oficial.

No papel, disse, uma construtora estatal de Chongjin o emprega. Mas a empresa tem pouco material de construção e não tem dinheiro para pagar seus funcionários. Assim, disse o operário, como mais de um terço dos trabalhadores, ele paga cerca de US$ 5 por mês para que um funcionário registre sua presença na empresa e ele possa trabalhar em outro lugar.

Tais pagamentos, comuns nas empresas estatais menores, supostamente mantêm as empresas solventes, disse uma mulher de 62 anos que é comerciante em Chongjin. Mesmo uma empresa grande, como a usina de aço da cidade, não paga salários desde 2007, disseram ela e outros entrevistados, ainda que os trabalhadores recebam ração alimentar suficiente para dez dias. “Como as empresas sobreviveriam se não recebessem dinheiro dos trabalhadores?”, questiona sem ironia.

Recentemente, a firma do operário de construção se tornou mais ativa. O Estado reformou a única rua pavimentada de Chongjin e construiu um hospital e uma universidade para o centenário do nascimento de Kim Il-sung, pai de Kim Jong-il e fundador da Coreia do Norte, em 2012.

Mas o boom em projetos teve um custo: cada família foi obrigada a entregar 17 sacos de pedras todo mês para o comitê local do partido. O operário de construção alistou seus pais idosos para procurar pedras em leitos de riachos e campos, que a família quebrava na mão para transformar em pedregulhos do tamanho de uvas.

Sem um salário do Estado, ele ganha dinheiro com sua inteligência. Em outubro, vende lulas pescadas com um barco que pilota por águas traiçoeiras na costa do país. Em outros meses, pedala cerca de 30 quilômetros à procura de bens para vender, geralmente detergente comprado de uma fábrica e revendido por sua mulher com lucro de 12% em uma barraca armada do lado de fora do mercado central.

O governo periodicamente tenta controlar os mercados, regulando preços, horas, tipos de bens vendidos, idade e sexo dos vendedores e mesmo se transportam seus produtos de bicicleta ou nas costas.

O fim das economias

Em um comunicado de 2007 do Comitê Central, Kim Jong-il reclamou que os mercados haviam se transformado em “um berço de todo tipo de práticas não socialistas”. A desvalorização da moeda em 30 de novembro os virou de cabeça para baixo. O Estado decretou que um novo e mais valioso won substituiria o velho won, mas que as famílias poderiam trocar apenas 100 mil wons, cerca de US$ 35 no índice do mercado negro, pelo novo. A medida eliminou as reservas privadas de dinheiro.

Para amortecer o golpe, dizem os trabalhadores, eles receberam a promessa de que seus salários seriam restaurados caso retornassem a seus empregos públicos. Na verdade, segundo o operário de construção e outros entrevistados, eles receberam um mês de salário em janeiro e o pagamento desapareceu novamente.

Aqueles que têm algum contato político evitaram o pior. Uma mulher de Hamhung, a segunda maior cidade da Coreia do Norte, disse que o diretor do banco local permitiu que seus parentes trocassem 3 milhões de wons, 30 vezes o limite oficial.

A mulher do oficial do partido, com o cabelo suavemente encaracolado, uma bolsa de marca pirata ao lado, vangloriou-se de sua casa de seis cômodos com duas televisões coloridas e um jardim. Na sequência, elogiou a desvalorização monetária como uma punição merecida para aqueles que tentaram enganar o Estado, apesar de reconhecer que isso levou ao caos e lembrar que um oficial de alto escalão foi executado pela administração por mau gerenciamento dessa política.

“Muitas pessoas ruins enriqueceram por meio do comércio ilegal com a China, enquanto as pessoas boas nas empresas estatais não tinham dinheiro suficiente”, disse. “Assim, os que tinham perderam para os que não tinham.”

A ex-professora perdeu tudo o que tinha. Depois que seus credores a despojaram de todo o seu dinheiro, disse, ela atravessou a pé o congelado Rio Tumen à noite e entrou na China em busca de ajuda de parentes que vivem no país. Faminta e apavorada, bateu aleatoriamente às portas até que um estranho a ajudasse a contatá-los.

Agora segura no lar de seus parentes, maravilha-se sobre como eles desfrutam de iguarias como pepinos no inverno. Mas abandonar temporariamente seu filho e filha, ambos na faixa dos 20 anos, deixa-a tão cheia de culpa que às vezes não consegue engolir os alimentos. “Não sei se meus filhos conseguiram algum dinheiro ou se morreram de fome”, disse com os olhos cheios de lágrimas.

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Norte-coreana usa sabão chinês para lavar roupas na Coreia do Norte

Para o operário de construção, a notícia da desvalorização dada por sua irmã provocou uma corrida para tentar salvar as economias da família. Ele esvaziou a gaveta do armário na sala de estar onde guardavam suas economias e dividiu com sua esposa e filha, dizendo: “Comprem o que conseguirem, o mais rápido que puderem.” Os três seguiram rapidamente de bicicleta até o mercado de Chongjin. “Parecia um campo de batalha”, disse.

Milhares de pessoas tentavam freneticamente dar um lance mais alto do que as outras por produtos, em uma tentativa frenética de converter o dinheiro que logo não valeria nada em algo palpável. Alguns preços subiram 10.000%, disse, antes dos comerciantes fecharem, percebendo que seus lucros logo não valeriam nada.

Os três disseram que voltaram para casa com 30 quilos de arroz, uma cabeça de porco e 99 quilos de tofu. A filha do operário conseguiu comprar uma pequena tábua de cortar e uma calça usada. Juntos,  disse, eles conseguiram gastar o equivalente a US$ 860 em itens que teriam custado menos de US$ 20 no dia anterior.

Sua filha tentou confortá-lo. “Pai, terei essas calças até minha morte!”, prometeu. Ele disse que a tábua de cortar seria seu presente de casamento.

“Naquele momento, realmente queria me matar”, afirmou. Ele gesticulou em direção à janela do esconderijo e à noite de Yanji, amplamente iluminada e com tráfego agitado. “Não é como aqui”, disse. “Aqui não é difícil ganhar dinheiro. Lá, é sofrimento e sofrimento; sacrifício e sacrifício.”

Ele disse que permanece acordado noite após noite, pensando no agasalho azul marinho que sua filha queria. Ela dizia que ele era muito melhor que o seu casaco de inverno e calças comuns. Ele a fez mudar de ideia, porque os mais baratos custavam quase US$ 15. Quando ela insistiu demais no assunto, ele xingou e gritou: “As pessoas nesta casa precisam comer primeiro!”

“Não posso descrever quão terrível me sinto por não ter comprado aquele agasalho para ela”, disse com voz trêmula.

Um isolamento profundo

Os norte-coreanos que nunca cruzaram a fronteira não têm como ter ideia de suas restrições. Não há internet no país. Os aparelhos de rádio e televisão sintonizam apenas os canais do governo. Até mesmo a mulher do oficial do partido não tem telefone e lamenta sua falta de contato com o mundo exterior. Sua primeira pergunta a um estrangeiro foi: “Sou bonita?”

No entanto, lentamente as informações estão entrando. Os comerciantes que voltam da China relatam que as pessoas são mais ricas e comparativamente mais livres no país, e os sul-coreanos supostamente são ainda mais. Alguns dos celulares dos comerciantes usam operadoras chinesas e podem ser emprestados a preços exorbitantes.

A punição por assistir a filmes e programas de televisão estrangeiros é pesada. O comerciante disse que um vizinho de 35 anos passou seis meses em um campo de trabalhos forçados no ano passado, após ser pego assistindo “Twin Dragons”, um filme de ação estrelado por Jackie Chan. Para o horror da ex-professora, seu filho de 26 anos corre os mesmos riscos.

Sua irmã é casada com um oficial do governo na capital, Pyongyang, disse, mas nenhuma delas é fã de Kim Jong-il. Em sua visita mais recente, ela disse que sua irmã sussurrou em seu ouvido: “As pessoas o seguem por medo, não por amor.”

Desde a desvalorização da moeda, segundo ela e outros entrevistados, as pessoas estão claramente mais ousadas com tais comentários. “Agora, no mercado, as pessoas falam tudo”, disse o operário de construção. “Elas dizem que o governo é ladrão – mesmo em plena luz do dia.”

Sua mulher não é uma delas. Durante semanas depois da desvalorização, disse, ela ficou deitada na esteira no chão da sala de estar, imobilizada pela depressão. “Não tinha força para dizer nada a ela”,  disse. Finalmente, ele pediu que ela se levantasse. Era hora de recomeçar.

* Por Sharon La Franiere

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