Relatos de soldados israelenses sobre conflito em Gaza geram furor em Israel

JERUSALÉM - Nos dois meses desde que Israel terminou sua ofensiva militar em Gaza, palestinos e grupos internacionais de direitos humanos acusaram o país de usar força excessiva e matar desenfreadamente durante a operação, mas os militares israelenses disseram ter seguido padrões éticos e evitado a morte de civis.

The New York Times |


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Agora surgiram testemunhos de soldados rasos e oficiais alegando a existência de uma atitude permissiva em relação à morte de civis e à destruição cruel de propriedades que deve inflamar o debate doméstico e internacional a respeito da conduta do exército em Gaza.

Na quinta-feira, o principal advogado geral militar solicitou uma investigação a respeito do relato de um soldado a respeito de um atirador matar uma mulher e seus dois filhos que andavam por engano perto demais de uma área proibida e outro que afirmou que um soldado matou uma idosa que chegou perto de uma casa de comando.

Quando questionado sobre porque a idosa foi morta, o comandante disse: "Em Gaza você vê uma pessoa em uma calçada e ela não tem que estar armada para você simplesmente atirar. No nosso caso foi uma idosa que não carregava armas quando eu olhei. A ordem era de execução desta mulher no minuto em que a visse. Sempre há cautela, sempre pode ser um terrorista. Eu senti que havia uma grande sede por sangue".

Os testemunhos de soldados que vazaram nos jornais Maariv e Haaretz, faziam parte de um relatório publicado pelo curso de preparação militar da Faculdade Acadêmica de Oranim da cidade de Tivon. Os jornais prometeram publicar muitos outros relatos nesta sexta-feira.

O diretor da academia, Dany Zamir, disse à Rádio Israel: "Estes foram duros testemunhos a respeito da morte de civis e da destruição de propriedades que revelam uma atmosfera na qual qualquer um se sentiria no direito de usar a força contra os palestinos".

O ministro da defesa Ehud Barak disse à Rádio Israel que acredita que tais incidentes sejam uma exceção, acrescentando que: "o exército israelense é o mais moral do mundo e eu sei do que estou falando porque sei o que aconteceu na antiga Iugoslávia e no Iraque".

Ficou claro que Zamir temeu que suas preocupações, que foram mencionadas em uma carta ao tenente general Gabi Ashkenazi, não haviam sido levadas a sério e por isso ele publicou os testemunhos.

Cerca de 1.300 pessoas morreram na guerra em Gaza, mas quantas delas eram combatentes permanece uma controvérsia. Israel perdeu cerca de 10 soldados em Gaza, alguns para o fogo de suas próprias forças.

O Centro Palestino de Direitos Humanos, baseado em Gaza e responsável pela documentação das mortes na região, diz que cerca de um terço dos 1.300 eram civis, entre eles 121 mulheres e 288 crianças, que são definidas como pessoas com idade inferior à 18 anos.

Mas o Instituto Anti-Terrorismo de Israel disse na quinta-feira que analisou os nomes informados pelos palestinos e descobriu que algumas das pessoas listadas como civis eram militantes do Hamas inscritos em websites do grupo. Algumas das crianças eram jovens de 17 anos armados, disseram, acrescentando que mais de 500 dos descritos pelo centro como civis devem ser considerados "desconhecidos" porque a maioria é composta por homens em idade de combate cujas atividades não podem ser rastreadas.

O grupo argumenta que a proporção de mulheres e crianças entre os mortos foi relativamente pequena, mostrando que Israel não matou deliberadamente.

As revelações de quinta-feira causaram furor local, com alguns soldados e reservistas dizendo não reconhecer as histórias contadas como verdadeiras.

Gur Rosenblat, comandante durante a operação em Gaza, disse em uma entrevista: "dizer que pessoas foram mortas sem justificativa é o oposto da verdade. Nós colocamos soldados em risco para evitar que civis sejam feridos".

Especialistas israelenses disseram que muitas mulheres foram usadas como bombas no passado e portanto os soldados em Gaza não sabiam o risco representado por uma mulher que se aproximasse.

Um dos testemunhos dos soldados envolvia o assassinato de uma família. Ele disse: "Nós tomamos uma casa e a família foi instruída a sair e caminhar para a direita. A mãe e dois filhos ficaram confusos e foram para a esquerda. O atirador não recebeu ordens de que isso era OK e atirou para matar. Ele seguiu as ordens".

Por ETHAN BRONNER

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