Relatório de general sobre Afeganistão pode ser catalisador para Obama

WASHINGTON ¿ O presidente Barack Obama poderia ler a rigorosa avaliação, feita pelo principal comandante militar no país, sobre a situação no Afeganistão de duas formas possíveis.

The New York Times |

Ele poderia ler o documento escrito pelo general Stanley A. McChrystal como um último apelo brusco e exaltado para que haja uma estratégia renovada contra a insurgência, amparada por mais tropas de combate para recuperar a missão, que já dura há oito anos.

Ou, ele poderia lê-lo como uma dura acusação das operações militares da OTAN lideradas pelos EUA, e por um governo civil afegão corrupto, se opondo, de maneira surpreendente, a uma crescente insurgência adaptável e perigosa.

De qualquer uma das formas, o relatório de 66 páginas de McChrystal, com o título ilusoriamente brando de Commanders Initial Assessment (Avaliação Inicial do Comandante, em tradução livre), serve para catalisar o pensamento do presidente ¿ que está bem informado dos perigos históricos de uma guerra prolongada ¿ sobre o que ele realmente pode conquistar nesse conflito, e se sua visão de guerra e o compromisso das tropas dos EUA são os mesmos que os de seu general.

Dificuldades

Obama enfrenta a deterioração da segurança no Afeganistão, a oposição crescente à guerra por parte dos democratas americanos e o desejo de adiar qualquer decisão maior sobre as tropas. Além disso, o presidente ainda precisa de muito capital para aprovar sua reforma da saúde no Congresso.

Mas, enquanto expressa ceticismo quanto a mandar mais tropas americanas para o Afeganistão até que seja estabelecida a estratégia correta, ele também luta com uma dura realidade: será muito difícil dizer não a McChrystal.

A Casa Branca espera que a exigência de McChrystal não seja apenas de tropas americanas, mas também de forças da OTAN. Nesta semana, o governo está enviando perguntas sobre o relatório de volta ao general em Cabul, no Afeganistão, e espera receber resposta até o fim da próxima semana.

Pressão

O senador Carl Levin, democrata de Michigan, presidente do Armed Services Committee, disse em uma entrevista na segunda-feira que quer saber como a incerteza ao redor da recente eleição afegã e o plano de reintegrar combatentes do Taleban na sociedade do Afeganistão poderia afetar a exigência de tropas de McChrystal.

Até o momento, Obama teve apenas uma reunião sobre o relatório, mas no plano de ajuda há mais três ou quatro marcadas para depois de sua volta do encontro do G-20, em Pittsburgh, no fim desta semana.

A assistência disse que levaria semanas, e não meses, para tomar uma decisão.

O presidente deixou bem claro, em nossa conversa, que está com a cabeça aberta e não se deixará afetar pela repreensão política de um ou de outro, disse o general James L. Jones, conselheiro de segurança nacional, em entrevista. Diversas pessoas terão diferentes opiniões, e ele quer ouvi-las, mas no fim das contas ele terá que fazer o que acha certo para os EUA e, especialmente, para os homens e mulheres que responderão às suas ordens.

Situação terrível

Oficiais seniores que trabalham com McChrystal disseram que ele ficou surpreso com a terrível situação da missão afegã, quando assumiu o comando em junho.

Sua preocupação foi além da força e do recuo da insurgência. McChrystal ficou surpreso com a falta de eficiência na organização militar nos postos de controle da OTAN e que uma porcentagem significativa de tropas não estava posicionada de maneira eficaz para operações contra-insurgência.

Havia uma sensação na equipe de McChrystal de que os esforços militares no Afeganistão estavam separados e não tinham aprendido as lições dos últimos anos de guerra.

Não estamos lutando no Afeganistão há oito anos, disse um oficial. Lutamos no país por um ano, mas oito vezes em cada linha de frente.

Adversário fortalecido

Em sua avaliação, McChrystal também retratou um adversário mais sofisticado no Taleban, que usa uma propaganda eficiente e penetra no sistema prisional afegão utilizando-o como território de treinamento.

Os líderes do Taleban com base no Paquistão indicam governadores para a maioria das províncias, instalam seus próprios tribunais, impõem tarifas, recrutam combatentes e manejam propagandas experientes. Eles têm um grande contraste em relação a um governo inepto e corrupto.

E os combatentes do Taleban não exercem controle apenas por meio de bombas e balas.

Os insurgentes promovem uma guerra silenciosa de medo, intimidação e persuasão, ao longo do ano ¿ não apenas quando as coisas esquentam na temporada de guerra ¿ para ganhar controle sobre a população, disse McChrystal em seu relatório.

Oficiais da administração disseram que, apesar de muito importante, a avaliação de McChrystal, é apenas um de vários componentes sobre o quais o presidente refletirá.

Por ERIC SCHMITT


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