Rei da Noruega mostra poder de recuperação após ataques de julho

Massacre na Noruega foi teste no qual rei Harald foi aprovado, após fazer discurso comovente e abraçar familiares em luto

The New York Times |

Os edifícios do governo onde Anders Behring Breivik detonou uma bomba ainda estão isolados, em reforma, e buracos de bala ainda marcam os prédios da ilha de Utoya, onde ele assassinou diversas crianças. Os ataques de 22 de julho deixaram 77 mortos e os noruegueses não encerraram seu luto.

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Rei Harald V da Noruega posa para foto em seu gabinete em Oslo

Eles querem voltar à vida normal, disse seu monarca, o rei Harald V, mas isso ainda não é possível. "Eu acho que apenas no futuro saberemos como lidar com isso no longo prazo", disse o rei em uma rara entrevista concedida na semana passada. "Ainda não chegamos ao ponto em que as pessoas ficam bravas. Acho que vamos passar por isso também. Isso precisa vir e ir, antes de encerrarmos a questão. E nós temos que deixar isso acontecer."

O rei Harald, 74 anos, foi coroado em 1991 e reinou durante um momento de crescimento econômico advindo do petróleo e do gás. Ele é o primeiro rei nativo desde o século 14, neto do primeiro rei da Noruega após a dissolução da sua união com a Suécia em 1905. Aquele rei, que assumiu o título de Haakon VII, foi importado da Dinamarca, mas consolidou sua reputação por ter recusado uma rendição à Alemanha nazista em 1940.

O 22 de julho foi um teste para o rei Harald e ele foi aprovado – fazendo um discurso comovente ao país naquela noite, se reunindo com famílias angustiadas, chorando em um serviço memorial nacional e servindo como um símbolo visível de patriotismo e solidariedade noruegueses. "Agora é importante que nós estejamos juntos e apoiemos uns aos outros, e que não deixemos o medo tomar conta", disse ele naquela noite para um país abalado.

Um homem jovial, de sorriso fácil, o rei minimiza a sua contribuição, dizendo que “muitas pessoas fizeram as coisas certas”. Quanto ao seu próprio papel, ele disse: "Eu sempre tive a sensação de que em tempos de crise, é para isso que estamos aqui, na verdade. Isso foi verdade em 1940, e vamos ver se será a mesma coisa agora. Você faz o que é natural para você e se isso for correto, melhor ainda. Tudo aconteceu muito rapidamente e nesses casos é melhor agir com a intuição."

Mas para um homem que nunca teve o toque comum de seu pai, o rei Olav V, o rei Harald comoveu a nação mesmo depois de 22 de julho, buscando da melhor maneira possível tocar aqueles que estavam chocados. Perguntado em uma entrevista em seu escritório no palácio real o que ele tirou dessas encontros, ele parou por um momento, então falou com uma honestidade intrigante. "Eu não sei o que eu tirei deles", disse. "Mas espero que eles tenham tirado alguma coisa."

Foi "uma experiência muito estranha", disse ele. "Eu me senti muito impotente, na verdade. Todas essas famílias que tinham perdido alguém ou recebido alguém que passou por aquele momento, era um ambiente muito estranho. Onde quer que você olhasse, havia pessoas em sofrimento".

Ele parou de novo, então riu, para quebrar o clima. "Quando eu voltei eu disse para minha esposa que nunca tinha abraçado tantas pessoas que eu não conhecia!"

O rei Harald causou controvérsia considerável em 1969 ao se casar com uma plebeia, Sonja Haraldsen, mas o matrimônio ajudou a consolidar a "norueguice" da família, que tinha raízes dinamarquesas e britânicas. Seu filho, o príncipe herdeiro Haakon, fez o mesmo, causando outra polêmica ao se casar com uma mãe solteira, uma mulher divorciada que admite ter tido uma juventude rebelde. Mas o futuro rei e rainha também foram destaque após 22 de julho, quando apareceram em um comício e fizeram seu próprio discurso comovente.

O casal estava em sua lua de mel em Long Island, Nova York, em 11 de setembro de 2001, e visitou o marco zero há um ano; o rei Harald e a rainha Sonja visitaram o local pela primeira vez em outubro de 2002 e irão novamente este mês. Eles vão visitar os EUA na companhia de outros quatro chefes de Estado ou representantes reais nórdicos: o rei e a rainha da Suécia, os presidentes da Islândia e da Finlândia, e o príncipe herdeiro e a princesa da Dinamarca.

"Isso é algo muito raro", disse o Rei Harald, rindo novamente. "Acontece apenas em casamentos e coisas assim, mas não com muita frequência." Uma empresa norueguesa de arquitetura, a Snohetta, projetou o pavilhão do museu do memorial do Marco Zero, uma fonte de orgulho nacional.

Depois dos ataques do 22 de julho, o qual muitos noruegueses sentem ter marcado seu país como o 11 de Setembro nos Estados Unidos, há uma nova ressonância para a visita real ao Marco Zero. Mas perguntado se iria se sentir diferente desta vez, o rei disse: "Eu acho que sim, eu não sei, vamos ver." Mas na história da Noruega, disse ele, "os noruegueses vão dizer antes e depois de 22 de julho de 2011, esse será um marco como o 11 de Setembro na América, um marco na maneira de pensar das pessoas."

O rei e sua esposa também vão comemorar o centenário da Fundação Americano-Escandinava depois de uma visita ao coração norueguês-americano em Minnesota e Iowa. Há mais de 5 milhões de moradores que se identificam como noruegueses-americanos e mantêm fortes laços com a Noruega, cuja própria população é de apenas cerca de 4,8 milhões de habitantes.

O rei chegou aos EUA com 3 anos de idade, quando sua família fugiu dos nazistas. Ele passou seus dois primeiros anos escolares em Washington e lembra de ter conhecido o presidente Franklin D. Roosevelt na sua posse em 1945. Seu pai e avô passaram a maior parte da guerra em Londres, com o governo atuante no exílio.

Seu avô tinha apenas 36 quando foi escolhido como rei da Dinamarca. "Ele não conhecia ninguém e não sabia em quem podia confiar e em quem não podia, e teve que descobrir por si mesmo tudo sobre a Noruega."

Harald veio a conhecer seu avô muito bem. "Ele fez uma coisa muito sábia", exigindo um plebiscito para que os noruegueses optassem se o queriam como rei. "Muitas vezes depois, quando ele tinha problemas com os nossos políticos, ele dizia, 'Ah, lembre-se, eu também fui eleito!'"

Perguntado se o 22 de julho definiria seu reinado, como 1940 fez pelo seu avô, o rei Harald disse simplesmente: "Eu não sei. A história dirá". Mas ele disse se lembrar de uma fotografia de seu avô em seu carro a caminho de se encontrar com os alemães, em abril de 1940, quando ele disse o seu famoso "não".

"Ele dirigiu em seu carro sozinho", disse o rei, com admiração. "Mas ele nunca dirigiu sozinho antes. Ele sempre tinha seu assistente ao lado", disse. “Mas desta vez não havia ninguém. Tenho certeza que ele não achava que iria voltar."

A Noruega está em boas mãos, ele disse. Aprender a ser rei é um "aprendizado que se faz ao longo da vida", disse, mas seu filho, o príncipe herdeiro, passou pelo próprio teste em 22 de julho. "Ele veio com algumas idéias muito boas e fez um discurso forte", disse seu pai. "Ele se saiu muito bem. Somos uma equipe muito boa, eu acho."

Por Steven Erlanger

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