Plano para reformar sistema educacional antevê rede de financiamento público para escolas privadas, semelhante ao de Nova Orleans

Em meados de outubro, quando meninas de rostos lavados em uniformes engomados entraram pelos portões do Colégio Classique Feminin para iniciar seu primeiro ano escolar pós-terremoto, seu desejo de buscar refúgio ali era palpável.

Chegando de uma rua entupida de vendedores de tapetes e carregadores de telefone para carros, elas se reconectaram com abraços e gritos. Elas comemoraram a ausência das barracas sufocantes em que estudaram nos meses anteriores e acolheram o aviso de um supervisor de que a disciplina rigorosa seria reinstaurada após um período de laxismo em que "todas ficaram traumatizadas".

Caroline Begein (C) reza juntamente às colegas de escola em Porto Príncipe
The New York Times
Caroline Begein (C) reza juntamente às colegas de escola em Porto Príncipe
Ainda assim, nada parecia normal. A porta da escola continha um selo escarlate assustador, colado lá por engenheiros do governo que consideram o prédio inseguro. O edifício central semidestruído se sobressai às oito salas de aula portáteis que claramente não seriam suficientes para 13 séries. E o corpo discente, composto apenas por meninas, havia caído para quase a metade do número de matrículadas antes da catástrofe.

Quando tocou o sino, as alunas, daquelas da primeira série com fitas nos cabelo às veteranas com gloss labial, formaram filas no pátio empoeirado. Em uma estrondosa interpretação do hino nacional, elas cantaram: "Para o país, para nossos antepassados, vamos marchar unidos". Então a diretora Chantal Kenol pegou um megafone.

"Nós vamos adiar o início das aulas até a próxima semana", ela anunciou, explicando que mais reparos seriam necessários e reconhecendo que "essa não é uma boa notícia". Congelando brevemente, as estudantes irromperam em lamentos. Uma voz ecoou: "Não, não é uma boa notícia! Não mesmo!"

Colapso

Um novo plano para reformar o fraco sistema educacional do Haiti antevê uma rede de financiamento público para escolas privadas, semelhante ao que se desenvolveu em Nova Orleans após o furacão Katrina. Seriam necessários subsídios para escolas não públicas que educam cerca de 82% dos alunos do Haiti.

Mas, como o Colégio Classique Feminin (conhecido como CCF), muitas escolas particulares estão em risco de colapso financeiro antes mesmo que uma parceria público-privada possa ser realizada. Elas estão lutando para continuar abertas, para reconstruir e manter alunos e professores.

Quarenta e seis anos após sua fundação, a CCF, antes uma escola de elite para meninas da classe média que aspiravam ser médicas, engenheiras e professoras do futuro do Haiti, está lutando por sua vida. Este também é o caso de muitas outras instituições, de hospitais a universidades, durante este período de limbo antes do início da reconstrução.

Reforma

Na primeira semana de outubro, a comissão de reconstrução do Haiti aprovou um projeto de US$ 500 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento para reconstruir o setor da educação. Naquela mesma semana, a data de volta às aulas marcada para o dia 4 de outubro se mostrou um pouco mais que "simbólica", como Pierre Michel Laguerre, diretor geral do Ministério da Educação, colocou.

Com milhares de escolas danificadas ou destruídas, centenas de prédios temporários ainda estavam sendo construídos pela Unicef, pelo governo, pela Fundação Digicel e outros. As escolas tinham de ser limpas de entulho e as pessoas deslocadas que se alojaram em seus prédios precisavam ser retiradas, as famílias tinham de juntar dinheiro para uniformes e mensalidades.

Bairro por bairro, os estudantes voltaram gradualmente a escolas que possuíam "os mesmos déficits de antes do terremoto – e mais alguns", disse Jacky Lumarque, reitor da Universidade de Quisqueya.

Classe em tenda fornecida pela Unicef, na École Paroissiale de St. Gerard, em Porto Príncipe
The New York Times
Classe em tenda fornecida pela Unicef, na École Paroissiale de St. Gerard, em Porto Príncipe
Antes do terremoto, o sistema educacional do Haiti era, na pior das hipóteses, inacessível – com a metade das crianças em idade escolar fora da sala de aula – e, na melhor das hipóteses, "medíocre", como determinou uma comissão presidencial sobre a educação. "Muitas pessoas que se diziam professores e muitos lugares que se diziam escolas não os eram de fato", disse Mohamed Fall, chefe educacional da Unicef no país.

Após o terremoto, defensores de longa data da reforma educacional, como Lumarque, viram uma oportunidade. Entre maio e julho, uma comissão presidencial elaborou um plano de US$ 4,2 bilhões para reformar o sistema da pré-escola até a universidade.

Anteriormente, a Comissão tinha resistido em aceitar as escolas não públicas como um pivô, mas o momento exige pragmatismo. Criar um sistema de escola pública tradicional "não era realista a curto prazo", disse Marcelo Cabrol, chefe de educação do banco de desenvolvimento. Ele recrutou Paul  Vallas, superintendente do Distrito de Recuperação Escolar da Louisiana, que acompanhou a proliferação de escolas particulares com apoio estadual após o furacão Katrina.

O plano do Haiti pede o subsídio de escolas não públicas para eliminar ou reduzir o custo da mensalidade. Isso acontecia antes do terremoto de maneira muito limitada, mas seu alcance se expandiu muito e agora as escolas passam por um processo de certificação cada vez mais rigoroso. Além disso, grandes escolas à prova de desastres seriam construídas, programas de formação de professores estabelecidos e o currículo nacional de 50 anos de idade modernizado.

Ainda assim, embora o banco de desenvolvimento tenha se comprometido a arrecadar US$ 500 milhões, o plano de reforma de US$ 4,2 bilhões permanece em grande parte sem financiamento. Isso preocupa aqueles familiarizados com o fraco histórico do Haiti em transformar planos estratégicos em realidade.

Pesadelo

Pouco depois do terremoto do dia 12 de janeiro, quatro diretoras da CCF se aventuraram no coração de Porto Príncipe para descobrir o que havia acontecido com sua querida escola.

No pesadelo que era o centro da cidade, o que elas viram na porta da escola foi de parar o coração: quatro mochilas de livros abandonadas. Mais tarde, eles descobriram que as meninas que estavam esperando lá fora por sua carona tinham abandonado as malas e fugido em busca de segurança.

CCF sobreviveu em meio a destroços da capital haitiana
The New York Times
CCF sobreviveu em meio a destroços da capital haitiana
Dentro da CCF, o centro de mídia, onde as meninas normalmente esperavam no final do dia havia sido esmagado. Bem como o escritório administrativo onde Fabienne Rousseau, a diretora de disciplina que as garotas chamam de "luz vermelha" ou " funcionária da imigração", muitas vezes trabalhava até tarde. A mulher olhou através da porta e tremeu. "Ficamos no pátio da escola e choramos como crianças", disse Craft.

As mulheres, duas das quais eram irmãs, tinham herdado a liderança da escola de sua mãe e sua tia. Após o levantamento da destruição, elas foram direto para a casa de uma das fundadoras. Elegante e régia com uma auréola de cabelos brancos, a fundadora, Renee Heraux, 77 anos, cumprimentou as mulheres com um remédio caseiro para a aflição. Uma a uma, ela lhes deu colheradas de uma mistura de xarope de cana de açúcar.

Heraux não estava disposta a ver os danos com seus próprios olhos. "Ver uma obra de 46 anos que foi destruída em poucos segundos era demais para suportar", ela disse, com a voz tremula.

Mas ela não iria deixar as mulheres mais jovens se sentirem derrotadas. "Nós estávamos dizendo: 'A CCF não existe mais'", disse Djenane Sajous, uma das filhas de Heraux. "Mas minha mãe disse: 'A CCF não é apenas um edifício. É um espírito. É uma herança".

No início de 1960, Heraux, uma professora, teve uma visão de uma escola católica independente para meninas que incluiria o ensino religioso, mas não pertenceria à igreja, empregaria freiras ou dependeria de memorização. Ela e suas co-fundadoras começaram com 27 meninas – suas filhas e as filhas de amigos. Abriram em uma casa alugada, acrescentando series anualmente até que construíram um pequeno campus e a reputação de terem os melhores resultados em exames oficiais – e no voleibol competitivo.

Na década de 80, depois que o regime Duvalier terminou, a escola, situada em uma zona urbana volátil, começou a perder alunas. As famílias de classe média alta mudaram para as escolas particulares dos subúrbios com currículo americano ou francês; muitas antigas alunas se recusaram a colocar suas filhas na escola.

No fim, a escola se adaptou. Funcionários públicos, proprietários de pequenas empresas e famílias que dependem de remessas do exterior, verificou-se, cobiçavam o prestígio de uma das melhores escolas do Haiti, mesmo que o preço se mantivesse relativamente alto.

Patricia Marie Jean-Gilles, um recepcionista do Ministério da Justiça, gasta mais de um terço de seu salário mensal de US$ 325 para enviar

Algumas famílias haitianas dedicam um terço do salário à formação escolar
The New York Times
Algumas famílias haitianas dedicam um terço do salário à formação escolar
a sua filha, Caroline Begein, à CCF.

Muitas famílias haitianas dedicam uma parcela equivalente de sua renda à formação escolar. "Os pais estão dispostos a pagar por educação no Haiti, ao contrário de quase qualquer outro lugar", disse Cabrol. Eles têm pouca escolha. O governo gasta o equivalente a apenas 1,5% do Produto Interno Bruto em educação, em comparação com quase 5% na região.

Sacrifícios

Jean-Gilles disse que ela estava determinada a dar a Caroline, 15 anos e na 11 º série, uma chance "de voar acima de suas origens". Ela mesma não chegou à 11ª série até os 22 anos, altura em que ficou grávida, saiu da escola e perdeu seu marido para uma doença hepática. A partir de então, Jean Gilles se devotou a sua filha, enviando-a às melhores escola que poderia encontrar.

"No Haiti, se você quer algo para o futuro de seus filhos, você tem que escolher com sabedoria e fazer o sacrifício", disse Jean-Gilles. "Eu sozinha não poderia dar a ela o que ela obteve na CCF nos últimos 10 anos. Ela se expressa muito bem, eu posso dizer isso. As pessoas me felicitam. E ela quer ser médica". E interveio Caroline: "Mais precisamente, pediatra".

Caroline e sua mãe vivem em uma casa alugada sem eletricidade na periferia de Porto Príncipe. A casa resistiu ao terremoto e Caroline, depois de noites de rezar e cantar nas ruas com os vizinhos menos afortunados, se viu cheia de culpa: "Eu pensei: 'Por que não eu?' Por que eu não estou sob os escombros como os outros?'."

Nos meses que se seguiram, Caroline e suas colegas de classe encontraram umas as outras – todas as alunos de sua turma haviam sobrevivido – e descobriram quem estava sem teto, quem estava ferida e quem estava de luto. Quando Caroline descobriu que algumas estavam sendo enviadas ao exterior, ela lhes pediu que não acabassem com o grupo de irmãs.

"Eu liguei para minhas amigas, dizendo: 'Por favor, se você partir vai estragar tudo'", disse Caroline. "Mas elas deviam respeitar a vontade de seus pais".

Facebook

Antes da escola ser reaberta em abril, Caroline muitas vezes acompanhava sua mãe ao trabalho, onde usou a internet para ver fotos da escola postadas no Facebook por colegas no exterior", a fim de lembrar quem fomos", ela disse.

Caroline, que se descreve no Facebook como "um adolescente que adora romantismo", Skittles e Eminem, fez uma pergunta desafiadora: "E se todas nós nos uníssemos em solidariedade baseada no amor e na determinação. Será que não conseguiríamos levantar o Haiti?".

Haiti pede o subsídio de escolas não públicas para eliminar ou reduzir o custo da mensalidade
The New York Times
Haiti pede o subsídio de escolas não públicas para eliminar ou reduzir o custo da mensalidade
Em abril, as diretoras reuniram os alunos para uma semana de terapia de grupo, liderada por uma psicóloga. Nas barracas que serviam de salas de aula, as meninas ficaram em círculos, deram as mãos e se apresentaram. "Meu nome é Caroline Begein e eu sobrevivi ao terremoto de 12 de janeiro", começou Caroline, que depois persuadiu uma colega às lágrimas a continuar. "Meu nome é Medjina Gene", ela disse, "e eu também sobrevivi ao terremoto de 12 de janeiro". Medjina, cuja mãe foi ferida e teve parentes mortos, estava abalada.

Mas as sessões de grupo a acalmaram, ela disse: "Elas me ajudaram a não chorar e a olhar para as coisas de outra perspectiva – a ter esperança, fazer novas ações e manter os entes queridos que perdi no meu coração".

Legado

Oito das 18 alunas da 10º série, incluindo Caroline e Medjina, haviam retornado. Os dias de aula foram truncados, notas combinadas e atividades extras, como esportes e computadores, deixadas de lado. Todas com exceção de uma aluna da 10ª foram aprovadas nas provas de seu Estado, em julho, e quando se separaram, elas imaginavam que a 11ª série seria o momento de finalmente deixar o terremoto para trás.

Em agosto e setembro, a diretoria se esforçou para encontrar ajuda para a cara demolição e trabalhos de construção. Quando o Ministério da Educação não ofereceu nenhuma orientação, elas usaram conexões para conseguir que uma agência do governo construísse salas de aula portáteis.

O trabalho avançou lentamente, e as diretoras internalizaram sua ansiedade, sofrendo dores nas costas e no peito. As coisas pareciam sombrias. A escola tinha 329 alunos antes do terremoto. Até o prazo final da inscrição em setembro, apenas 19 pais tinham pago o depósito.

Rachaduras

"Acho que o terremoto apenas revelou as rachaduras que já existiam", disse Kenol. "A situação financeira de todo mundo já estava degradada. Os pais eram cada vez menos capazes de pagar. Nós já estávamos pensando que iríamos precisar de algum tipo de subsídio".

Naquele primeiro dia de aula cancelado, as alunos decepcionadas recuperaram seu equilíbrio rapidamente. Após as dificuldades que enfrentaram desde janeiro, este foi apenas um pequeno contratempo. Depois que as aulas recomeçaram, os alunos ficaram felizes em voltar ao casulo da escola. Mas novos problemas continuaram a se intrometer, como furacões e epidemias. Caroline, eleita secretária da classe, organizou um clube de discussão. Questionada sobre os tópicos, ela disse: "Cólera, garotos bonitos, qualquer coisa".

Na contagem final, cerca de 174 alunas voltaram à CCF, o mínimo necessário para que a instituição arque com as despesas. As diretores começaram a questionar se poderiam sustentar o legado que herdaram.

Alguns pais, como Pierre Richard Milfort, disseram que se a CCF fechar irão tirar proveito de seu visto americano e abandonar o Haiti. "Seria um sinal de que tudo realmente está chegando ao fim", ele disse.

Mas Caroline se recusa a contemplar a possibilidade de sua escola morrer. Ela colocou a mão sobre as orelhas e disse: "Não! Pare", acrescentando:" Seria muito desastroso! Para mim, pessoalmente, e para o Haiti".

*Por Deborah Sontag

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