Refugiados somalis redescobrem o medo em Uganda

Principal destino de refugiados da Somália, país entra em alerta após ataque de insurgentes islâmicos durante a final da Copa

The New York Times |

© AP
O somali Ahmed Uleh, 34 anos, em sua casa em Kampala, na Uganda
"Às vezes tenho sonhos ruins", disse Ahmed Uleh, os olhos escondidos por trás de óculos escuros. "Sonho que eles estão tentando cortar minha cabeça."

Uleh, 34, disse que foi sequestrado na Somália no ano passado pelo Al-Shabab, grupo insurgente islâmico que reivindicou a responsabilidade pelo ataque de torcedores de futebol em Uganda durante o jogo final da Copa do Mundo este mês, matando 76 pessoas e colocando a África Oriental em alerta máximo.

Os sequestradores de Uleh amarraram seus braços e pernas atrás de uma cadeira e o espancaram.

Depois de ser libertado, Uleh disse que vestiu a burca de uma mulher, fingiu ser uma mãe carregando um bebê nos braços e passou pelos postos de fiscalização rebeldes até chegar à capital da Somália, Mogadíscio, onde pegou um voo para deixar o país.

Ele chegou na capital da Uganda, Kampala, no ano passado, juntando-se a milhares de somalis que fugiram de muitas décadas de violência em casa, para morar em um país que os diplomatas e funcionários das Nações Unidas chamam de paraíso para refugiados.

Agora este paraíso está ameaçado. Desde os ataques, a presença da polícia militar tem aumentado, alguns viajantes do Chifre da África foram barrados nas fronteiras e as mudanças no protocolo para asilo tem preocupado somalis como Uleh.

Somando-se a ansiedade entre os refugiados, uma agência de trabalho local que ajudava a recolocá-los nos Estados Unidos, deixou abruptamente o país, gerando temores de que centenas temham sido abandonados.

A situação pode comprometer a atração da Uganda como um ponto de trânsito ou destino final para a massa de pessoas que foge dos muitos perigos da Somália, incluindo a brutalidade de grupos insurgentes como o Shabab.

Segundo a Organização das Nações Unidas, a Somália produz o terceiro maior número de refugiados no mundo, atrás apenas do Afeganistão e do Iraque, e a Uganda é o principal destino deles. O país tem uma das políticas mais liberais para refugiados na África - a concessão de autorização para praticamente todos os requerentes de asilo da região.

Em Kampala, os somalis criaram uma comunidade próspera e assimilaram um bairro que muitos chamam de Pequena Mogadíscio. Milhares de somalianos estão no meio de um processo de pedido de imigração para os Estados Unidos.

A polícia parou de registrar novos refugiados imediatamente após os ataques durante o segundo tempo da final da Copa do Mundo. O processo já foi reaberto com novos regulamentos e tem havido um aumento no número de registros, mas os líderes comunitários disseram acreditar que há muitas pessoas que optam por não se registrar por medo.

Os Estados Unidos recebem milhares de somalis a cada ano. Mais de 50 mil foram aceitos no país desde o ano fiscal de 2004, de acordo com o Departamento de Estado.

Por Josh Kron

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