Refugiados afegãos voltam para casa, mas encontram apenas desespero

AFEGANISTÃO ¿ Há apenas sete meses, Allah Nazar, 10, que ficou paralítico por pólio, tinha uma casa feita de barro com dois quartos, e horários semanais no hospital no Paquistão, onde morava com sua família de 13 pessoas.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

Agora Nazar não tem casa, mora em um deserto no leste do Afeganistão a 24 km de Jalalabad, capital rural, e está sentado em um carrinho de mão feito de madeira, sem perspectiva alguma, imaginando se o inverno que se aproxima será o último que viverá. Mesmo sua cadeira de rodas substituta não tem segurança para um simples passeio pela terra rochosa.

As condições dele estão ficando piores por causa do clima frio e da falta de recursos e tratamento, disse Abdul Wahab, ancião da vila e amigo íntimo da família do garoto. Há algum direito humano aqui?

Um decreto presidencial afegão garante aos refugiados uma volta segura e digna. Mas nos sete anos de empenho na reconstrução do país, essa é uma realidade que acabou na província de Nangarhar e na região ao redor. Aqui, 30 mil afegãos que retornaram vivem à beira do desespero em assentamentos temporários como Chamtala.

Abrigos

Enquanto isso, o governo e os grupos de apoio internacionais têm uma falta de capacidade em lhes dar um abrigo apropriado para se protegerem do cruel inverno afegão que está a caminho.

Olhe para todas essas crianças, disse Khwaga, mãe de Nazar, deitando no berço sua filha recém-nascida. Todas estão gripadas. Não temos um teto sobre nossas cabeças. Estamos cançados de sentir fome.

Nazar e sua família, que voltaram para o Afeganistão em maio, estão entre os 3,5 milhões de afegãos que foram repatriados do Paquistão desde que o Taleban foi expulso em 2001, um dos maiores movimentos de refugiados na história recente, de acordo com a ONU.

Movimentação

A multidão de pessoas que retornaram diminuiu desde 2006. Mas aqui na parte leste do país, que absorveu mais de 60%, quase 300 mil, daqueles que retornaram, a situação é crítica.

Como um sinal claro de que a vida não é possível para tantos que estão chegando, 40% dos afegãos que retornaram ao país, deixaram-no novamente em 2007, devido à insegurança, a falta de abrigos e empregos, de acordo com a Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão.

O governo do Afeganistão, onde a população oscila em 20% desde 2001, já está tensionada diante a deterioração da segurança, da crise alimentícia nacional e da falta de serviços básicos, como eletricidade, mesmo em centros urbanos como Cabul.

Este é, na verdade, um dos piores que encontramos, disse Antonio Guterres, alto comissário dos refugiados da ONU, que visitou dois acampamentos no leste do país, em novembro. Estes são os mais pobres dos pobres, os mais vulneráveis dos vulneráveis.

Passado

Desde o fim dos anos 70, quando a URSS invadiu o território, milhões de afegãos fugiram por causa da guerra. As novas gerações de afegãos nasceram ou se casaram no exterior, principalmente no vizinho Paquistão e no Irã, e nunca chegaram a conhecer a terra natal de seus ancestrais. No Paquistão, eles moravam em assentamentos de refugiados pobres, mas habilidosos. Os homens mantinham empregos de trabalho braçal e a maioria dos afegãos tinha casas, mesmo que simples.

Os paquistaneses foram anfitriãos por décadas. Embora o país ainda mantenha dúzias de acampamentos, ele fechou dois grandes assentamentos na província de North-West Frontier, perto da fronteira com o Afeganistão, nos últimos 18 meses, dizendo que eles se tornaram santuários de grupos militantes como a Al-Qaeda e o Taleban.

Paquistão

O maior acampamento do país, Jalozai, foi fechado em maio, forçando 110 mil afegãos a escolherem entre duas opções péssimas: realocarem-se no Paquistão ou voltarem para casa.

Com a crise alimentícia e de combustível que o Paquistão está sofrendo, e com o grande aumento dos preços do aluguel em cidades próximas como Peshawar, a resposta foi fácil o suficiente para 70% deles.

Nazar, o garoto com pólio, assistiu uma escavadora mecânica demolir sua escola e sua casa. Então, deram a ele e às outras famílias, do serviço de refugiados da ONU, US$ 100 como uma espécie de salário, assim o garoto e seus parentes embarcaram em um caminhão e três dias depois chegaram ao assentamento temporário.

O governo do Paquistão nos forçou a partir, disse Wahab, ancião da vila. E o governo afegão tem nos enganado com falsas promessas, disse.

Falta de serviços

Organizações internacionais de apoio, como o serviço de refugiados da ONU, a UNICEF e o World Food Program (Programa Mundial de Alimentos), têm providenciado serviços mínimos, como tanques de água diários e lençóis de plástico como abrigo. Mas o serviço de refugiado já esgotou seus materiais de habitação dessa região, neste ano.

Em uma conferência internacional de refugiados em Cabul, em novembro, o Ministério dos Refugiados e do Repatriamento do Afeganistão pediu US$ 528 milhões a países doadores para sustentar a reintegração. Caso seja concedido, o dinheiro virá do fundo de Desenvolvimento Estratégico Nacional do Afeganistão de US$ 22 bilhões que começa no primeiro semestre de 2009.

Junto com outros trabalhos, especialistas sobre refugiados deram voz à frustração com o discurso anual dos governos que oferecem assistência como se o inverno viesse de surpresa, disse um especialista.

Governo afegão

Com quatro ministros diferentes desde 2001, tornou-se difícil para o  Ministério dos Refugiados do Afeganistão conseguir a confiança dos observadores internacionais. Especialistas dizem que há a falta de recursos para investir na administração de um planejamento para essa crise. No ano passado, dois ministros afegãos foram demitidos pela incompetência em lidar com a situação dos refugiados.

Guterres, do serviço de refugiados da ONU, disse que a ineficiência e a corrupção também têm culpa nessa parte. Em 2005, o governo anunciou 100 locais para serem entregues aos refugiados como parte do Esquema de Distribuição de Terras. Atualmente, apenas 15 estão em operação.

Por ADAM B. ELLICK

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