Recrutas da polícia afegã impõem 'imposto islâmico' a moradores

Ex-insurgentes que se entregaram ao governo e esperam para integrar corpo policial cobram por proteção como milicianos

The New York Times |

Ghulam Hazrat deveria ser o garoto propaganda da reintegração pacífica de rebeldes que querem mudar de lado. Seis meses atrás, ele era um comandante do Taleban na conturbada zona de Imam Sahib, na província de Kunduz, norte do Afeganistão. Agora, ele e 10 de seus seguidores estão em processo de se tornarem policiais, momento em que o governo vai começar a pagar os seus salários.

Enquanto isso, no entanto, Hazrat está levantando o dinheiro da mesma forma que ele fez como um comandante do Taleban, impondo um "imposto islâmico" às pessoas do seu distrito. "O governo está me dizendo para lutar contra o Taleban e proteger a área, para isso eu preciso pedir ajuda às pessoas a fim de cuidar de mim e dos meus amigos", disse.

AP
Oficiais da polícia afegã treinam na província de Wardak, no Afeganistão
Ele e outros milicianos que se entregaram para o governo e esperam entrar para a polícia local, um grupo conhecido como arbakai, insistem que as pessoas dão o dinheiro voluntariamente. A julgar pelo clamor público, no entanto, os doadores veem as coisas de forma diferente. Eles são muitas vezes obrigados a entregar um décimo de seus salários, como faziam quando eles eram do Taleban.

Um programa financiado pelos Estados Unidos visa converter as forças insurgentes na autodefesa das aldeias afegãs, a chamada a polícia local, distinta da força policial nacional. Essa é a iniciativa favorita do comandante da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no Afeganistão, o general David H. Petraeus, que a considera uma parte fundamental de sua estratégia contra a insurgência.

Áreas remotas

Oficiais da polícia afegã veem a tática como uma maneira barata de aumentar suas forças, particularmente em áreas remotas. A polícia local afegã é organizada e treinada pelas unidades das Forças Especiais americanas, em colaboração com as autoridades afegãs e, como trabalha apenas em uma aldeia, recebe a metade do que ganham os policiais nacionais.

Até agora, o programa, que começou no ano passado, já capacitou 6,2 mil agentes em 41 distritos e visa recrutar 30 mil em 100 municípios de 14 províncias do país até o fim do ano.

Mas ele tem despertado preocupação entre agentes humanitários e oficiais das Nações Unidas, que dizem que há riscos de habilitar os senhores da guerra locais, que têm pouco respeito pelos direitos humanos ou pelo comportamento adequado.

Muitos afegãos temem uma volta aos dias de guerra civil, que durou do final dos anos 80 ao início dos anos 90, ainda mais do que temem os Talebans, que chegaram ao poder em grande parte porque as pessoas estavam fartas das milícias locais rivais.

*Por Rod Nordland

    Leia tudo sobre: afeganistãopolíciataxarecrutastalebaneuaotan

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG