Recessão pode trazer a volta dos valores tradicionais

LONDRES - As lojas caras da Rua Bond e Rua Sloane ficaram assustadoramente silenciosas, enquanto as mais baratas se disseminaram por toda a cidade. Os britânicos estão cortando seus grandes gastos com divertimento e a preocupação com o futuro está se espalhando pela nação como uma corrente elétrica, assim como em todos os lugares.

The New York Times |

Mas há um pensamento paralelo no ar: talvez a queda, embora dolorosa, leve à volta de valores do passado. Talvez os últimos 15 anos ou mais sejam considerados um tipo de loucura, uma anomalia, um sonho estranho. Em um país onde a identidade moderna foi forjada em parte pelos princípios do pós-guerra como economia, prudência e viver dentro de pretensões, talvez as pessoas diminuam suas expectativas amplas e exageradas e voltem a se contentar com o que têm.

Acho que há um clima de contenção, disse Vince Cable, porta-voz da tesouraria do Partido Liberal Democrata, em um discurso recente. Uma reação contra a ambição, o gasto, o desperdício, as fraudes nos impostos e ao comportamento egoista e em benefício próprio.

As pessoas já estão perdendo seus empregos e residências, consumidores estão ficando em casa e negócios estão falindo em toda a Grã-Bretanha; a queda, que está sendo chamada de recessão por lá, parece ser muito séria. Mas o que era impressionante na era passada é que a maior parte do incrível boom nos gastos dos consumidores foi estimulado por pessoas que, mesmo em bons tempos, não podiam bancar o que estavam comprando.

Protegido pelo crédito fácil e pelo preço inflacionado das propriedades, a população britânica gastou até se colocar em uma dívida total de $ 2,49 bilhões. Uma família britânica comum atualmente deve $ 102,000, incluindo hipotecas. Um terços dos consumidores endividados em toda a Europa é mantido pelos britânicos, disse Chris Tapp, diretor do Credit Action, que aconselha pessoas sobre como lidar com dívidas.

Em outros tempos

Audrey Hurren, 65, secretária aposentada que esperava o metrô do centro de Londres, disse que isso tudo estava excessivo demais.

Eu acho que não faria mal algum se as pessoas da geração mais jovem fossem menos gananciosas", disse ela. Não é algo muito legal de se dizer, mas talvez eles pudessem se comportar de maneira mais sensível.

Hurren foi criada logo após a Segunda Guerra Mundial, acreditando que se não pudesse bancar algo, não devia comprar. Em comparação, segundo ela, suas netas têm mais coisas do que ela jamais sonhou e ainda assim são insatisfeitas. Elas não dão valor a nada, disse ela. O que ven fácil, vai embora fácil. Elas ganham um celular; se não gostam, jogam fora e compram um novo.

Em uma entrevista, Tapp disse que pessoas com trinta anos ou menos, muito jovens para terem vivido a última recessão, no começo dos anos 90, cresceram em um mundo onde o crédito tem sido sempre fácil, barato e disponível. Para eles, não há precedentes para moderação. A austeridade do final dos anos 40, do começo dos anos 50 e as privações dos anos 70 ¿ quando a eletricidade foi brevemente racionada e o país só trabalhava três dias por semana para economizar combustível ¿ são histórias para se ler em livros. A idéia de economizar para comprar, isso era o que se fazia quando não existia cartões de crédito, disse Tapp.

Nos anos do boom, as supostas seções agradáveis dos jornais de Londres cresceram em torno de artigos sobre bens cada vez mais caros e serviços adequados para as respeitáveis massas consumidoras. Mas de repente, mesmo os jornais estão falando como se tivessem sido acordados com uma sacudida após uma longa farra de drogas e doces.

Estou feliz em observar que as décadas de excesso vulgar finalmente estão acabando, escreveu o colunista India Knights no "Times" de Londres. Há um forte senso coletivo de que todos nós estamos voltando à Terra. É como um imenso cheque nacional da realidade e, indesejado, pode resultar na mudança de nossas prioridades".

Por SARAH LYALL

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