Rebekah Brooks chegou ao topo no meio dos tabloides dominado por homens

Chefe-executiva da subsidiária News International, que detém o britânico News of the World, é conhecida por obter informações a preços altos

The New York Times |

Era março de 2003 e Rebekah Wade, na época editora do jornal The Sun, estava sendo interrogada pelo comitê de cultura e mídia da Câmara dos Comuns. O tema: práticas duvidosas de tabloides.

Perguntada se ela já havia pago à polícia para obter informações, Wade, uma pessoa extremamente confiante, parecia imperturbável e impenetrável com seu cabelo vermelho. "Nós já pagamos à polícia para obter informações no passado", declarou.

Ela estava, de fato, admitindo ter feito algo ilegal, como em seguida foi indicado a ela. Mas Wade voltou atrás tão fluentemente como havia feito a declaração, dizendo que ela não conseguia se lembrar de alguns exemplos, e depois prosseguiu na tentativa de tratar toda a situação como apenas mais um incidente em uma carreira cheia deles.

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Rebekah Brooks é conhecida por utilizar meios questionáveis para conseguir informações privilegiadas (7/7)
Agora aos 43 anos e com um novo nome de casada, Rebekah Brooks é conhecida por ter usado de uma combinação vencedora de charme, descaramento, audácia e tenacidade para prosperar no brutal mundo dos tabloides britânicos amplamente dominado pelos homens. Ela cresceu e se tornou chefe-executiva da News International , subsidiária de jornais britânicos de Rupert Murdoch .

Sua proximidade com Murdoch, que dizem considerá-la como uma filha preferida (embora ele tenha quatro filhas reais), tem a protegido durante o recente escândalo envolvendo a empresa, mesmo quando os parlamentares pediram que ela renunciasse.

A longa saga culminou nesta semana com o anuncio do fechamento do News of the World diante do ultraje público e parlamentar sobre revelações de que o telefone de Milly Dowler, uma menina de 13 anos assassinada em 2002, foi grampeado pelo News of the World depois que ela desapareceu, mas antes de seu corpo ser encontrado, dificultando a investigação policial e aumentando a angústia dos pais. Brooks, que era editora do News of the World na época, condenou a invasão e disse não saber de nada. Ela recusou um pedido para ser entrevistada para esta matéria.

Em cenas extraordinárias na Câmara dos Comuns na quarta-feira, legislador após legislador – a maioria deles do Partido Trabalhista – se levantou e exigiu que Brooks, uma das figuras mais poderosas da mídia britânica e uma mulher que muitos temem mesmo agora, deve ser demitida. Brooks deve "assumir a responsabilidade e pedir demissão", disse Ed Miliband, o líder trabalhista.

Mas Murdoch emitiu um endosso a Brooks, dizendo que sua empresa está empenhado em realizar uma investigação completa das recentes alegações, que será liderada por Brooks. Parte de sua abordagem é estratégica, disse a analista de mídia Clare Enders, fundadora da Enders Analysis. Segundo ele, Brooks funciona como uma espécie de paredão para Murdoch – que impede que as acusações cheguem a ele. "Se ela renunciar, isso seria uma admissão de culpa", disse ela.

Mas também é, em parte, uma abordagem emocional. "Rupert Murdoch a adora. Ele é muito, muito apegado a ela", disse uma pessoa que conhece a ambos socialmente. "Para ser franco, a coisa mais sensata que a News Corp. poderia fazer seria demitir Rebekah Brooks, mas ele não fará isso”.

Ascensão

O crescimento de Brooks foi constante e rápido. Ela começou sua carreira no estábulo do império de mídia de Murdoch como secretária no News of the World, chegando ao cargo de editora apenas 11 anos mais tarde. Em 2003, ela tornou-se editora do tabloide The Sun, o jornal de maior circulação diária da Grã-Bretanha, antes de ser promovida ao seu atual emprego há dois anos.

Desde cedo, ela era conhecida por seu talento criativo na obtenção de artigos e sua falta de escrúpulos na forma como ela os conseguia. Em 1994, ela se preparou para a entrevista do News of the World com James Hewitt, um amante da princesa Diana, reservando uma suíte de hotel e contratando uma equipe para "grampeá- com dispositivos secretos em vasos de flores e armários", escreveu Piers Morgan, seu ex-chefe e agora apresentador de talk show da CNN, em seu livro de memórias The Insider.

Em outra ocasião, em seu início de carreira, furiosa que o jornal estava prestes a perder um furo para o Sunday Times que faria uma biografia do príncipe Charles, Brooks se disfarçou de faxineira do Times e se escondeu por duas horas no banheiro do jornal, de acordo com Morgan. Quando as prensas começaram a rolar, ela pegou uma cópia recém-impressa do Sunday Times e trouxe de volta para o News of the World - que usou o material, literalmente, em seu próprio jornal no dia seguinte.

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Rebekah Brooks surpreendeu funcionários do jornal ao anunciar o fechamento do tabloide em vez de sua renúncia (foto de arquivo)
Tais passagens passaram a ser lenda no mundo dos tabloides, assim como o incrível dom de Brooks em cultivar a adoração dos poderosos. Ela foi confidente de Cherie Blair, esposa do então primeiro-ministro Tony Blair, em um momento em que Murdoch apoiava o governo trabalhista. Ela conseguiu o furo da gravidez de Cherie Blair quando seu marido era premiê. Quando os ventos políticos mudaram e Murdoch decidiu apoiar o Partido Conservador, muitos dos amigos trabalhistas de Brooks sentiram que ela os havia traído e pararam de conviver com ela. Brooks simplesmente mudou de amigos.

Agora, ela e seu marido, Charlie Brooks, um ex-treinador de cavalos, fazem parte de um círculo de poderosos que inclui o primeiro-ministro David Cameron e sua esposa, Samantha, a filha de Murdoch Elisabeth e seu marido, o executivo de relações públicas Matthew Freud e James Murdoch, herdeiro de Murdoch, e sua esposa.

'Amizades'

Brooks é hábil na arte de fazer amizades no topo, dizem alguns conhecidos. Quando era secretária e queria se tornar escritora, ela aprendeu a andar a cavalo porque o editor gostava de equitação, lembrou um ex-supervisor. Outro editor jogava golfe, assim que ela aprendeu isso também. Em seguida vieram aulas de vela. "Quem navegava?", questionou o ex-supervisor. "Murdoch".

Em uma entrevista no ano passado em seu escritório, Phil Hall, um ex-editor do News of the World, chamou Brooks de "hábil nos relacionamentos”. "Ela foi muito influente para a organização em termos de conquistar os contatos políticos que Rupert queria ter", disse Hall. "Se Rupert queria passar um fim de semana em Chequers com o primeiro-ministro, então Rebekah organizaria isso”.

Como editora do News of the World, Brooks embarcou em uma série de campanhas, agitando com sucesso a introdução de uma lei permitindo que os pais de crianças pequenas fossem notificados quando criminosos sexuais condenados passassem a morar em seus bairros. Como parte de sua campanha antipedofilia, ela publicou fotografias de criminosos sexuais condenados em um esforço para "citar nomes e envergonhá-los". A campanha saiu pela culatra quando descobriu-se que algumas das fotografias mostravam pessoas erradas e quando vigilantes começaram a assediar e ameaçar os homens quem pensavam ser pedófilos.

Tão dura quanto os homens que chefiava, Brooks se recusava a lidar com chauvinismo e insubordinação. Logo depois de se tornar editora adjunta do Sun - um jornal popular que mostra uma mulher semi-nua na página 3 diariamente – alguns de seus subordinados, ela sentiu, tratavam-na de maneira desrespeitosa. "Ela chamou o líder do grupo em seu escritório e disse: ‘Não se iluda, se você fizer isso de novo estará fora daqui’", lembrou um ex-editor do jornal. "Ela não dava ponto sem nó. Ela era uma daquelas pessoas que você sabia que chegaria a algum lugar”.

Ao mesmo tempo, como repreensão às feministas que exigiam o fim da nudez na página 3, ela tomou cuidado para que a sua primeira P. 3 Girl, como são conhecidas as meninas que posam para o jornal, tivesse o nome Rebekah e fosse identificada como Rebekah de Wapping, bairro onde fica o Sun.

Pessoal

Muitas vezes, as cruzadas de Brooks eram pessoais. Dois ex-funcionários do topo, que pediram anonimato porque continuam a trabalhar com jornalismo, disseram que tiveram de descobrir informações sobre seu marido na época, o ator Ross Kemp, que ela suspeita estar tendo um caso. O casamento acabou mais tarde quando ela foi presa por agredir Kemp. Ela foi libertada sem acusação formal, e a polícia não tomou nenhuma ação adicional.

O uso de detetives particulares no News of the World também foi difundido durante o mandato de Brooks. Mesmo antes do escândalo de escutas telefônicas, o News of the World estava entre diversos tabloides envolvidos quando a polícia invadiu o escritório de Steve Whittamore, um investigador particular.

Registros de faturamento guardados por Whittamore, que se especializava em blagging, ou enganar agências governamentais, companhias telefônicas e outras empresas para obter informações, mostram que ele forneceu dados confidenciais a 19 jornalistas do News of the World; em pelo menos dois casos, ele forneceu a Brooks números de telefones não listados e em um caso foi capaz de obter um endereço com base no número de celular de uma pessoa.

Um porta-voz da News International disse que houve apenas um pedido de Brooks a Whittamore e que "não havia nada que sugerisse que qualquer informação foi obtida através de métodos ilegais".

Tom Watson, um membro trabalhista do Parlamento, recordou o que lhe aconteceu em 2006, pouco depois de ele renunciar à sua posição no governo de Tony Blair e pedir a renúncia do próprio premiê. O editor de política do Sun, George Pascoe-Watson, aproximou-se dele na conferência do Partido Trabalhista em Manchester. O Sun era, na época, um defensor ardoroso do partido.

"'Minha editora, Rebekah Wade, vai persegui-lo para o resto de sua vida. Você nunca vai escapar de nós, meu amigo'", Tom Watson disse ter ouvido de Pascoe-Watson. "Essas foram suas palavras exatas". Em uma entrevista no ano passado, Pascoe-Watson disse "não se lembrar dessa conversa". A News International alegou que "essa não é uma linguagem adota por nós".

Posteriormente, depois que Watson ameaçou processar o Sun por difamação em uma série de artigos imprecisos, o meu vizinho pegou pessoas vasculhando minha lixeira e documentos arquivados na minha garagem", disse ele. "Ele pegou um deles e exigiu saber o que estava fazendo, e a pessoa disse que estava trabalhando para o Sun".

Confiança

É um sinal da confiança que Murdoch tem em Brooks que ele não a tenha demitido apesar de um dos maiores mistérios que a cercam: como uma editora de tabloide respeitável em um negócio tão ferrenho não sabe como os seus próprios repórteres obtêm informações para os artigos veiculados em seu próprio jornal?

"Não funciona assim", disse Ian Hislop, editor da revista Private Eye, que há muito ecsreve sobre os delizes dos tabloides. "Você diz: ‘Onde você conseguiu essa história? E seus jornalistas não dizem: 'Eu não me lembro’. Eles dizem: 'Eu comprei de Mulcaire'", ele acrescentou, referindo-se a Glenn Mulcaire, o investigador particular que trabalhou para o News of the World na época em que grande parte das escutas telefônicas aconteceram. "Ou ela é uma incompetente completa ou sabia”, acrescentou Hislop.

Em um estranho incidente no ano passado que mostrou tanto a proximidade de Brooks e Murdoch e seu amor por gestos ousados, ela e James Murdoch apareceram sem avisar na sede do jornal The Independent antes da eleição nacional. Eles haviam ficado chateados com uma manchete do Independent que dizia: "Rupert Murdoch não vai decidir a eleição. Você vai”.

De acordo com um relato do Daily Mirror, um tabloide que não pertence a Murdoch, "o duo de olhos arregalados, em seguida, começou agredir um confuso editor Simon Kelner com um discurso boca-suja". As palavras que eles usaram não podem ser impressas em jornais que não sejam tabloides.

*Por Sarah Lyall e Jo Becker

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