Rappers do Senegal emergem como poderosa voz política de oposição

Músicos lideram movimento contra o presidente do país africano que desfruta de luxos e não quer deixar o cargo

The New York Times |

Uma revolução liderada por rappers diz muito sobre a política ou a música de um país, ou talvez sobre ambos. No Senegal, o contexto político parece estagnado, ao contrário dos músicos, o que explica como cantores com descontraídos nomes artísticos como Fou Malade ("Doido Doente") e Thiat ("Junior") estão liderando um movimento vigoroso contra o presidente do país que não quer deixar o cargo.

Reuters
Presidente senegalês, Abdoulaye Wade, deu um discurso durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York

Os abusos da pompa de costume – uma estátua de US$ 27 milhões com vista para a capital, um novo avião para o presidente, uma nova Constituição – não pegaram bem em um país pobre, mas orgulhoso e acostumado com condições melhores. Esses luxos levaram a um período de revolta, no melhor modelo norte-africano, nessa ex-colônia francesa.

Houve tumultos nesse verão com gás lacrimogêneo e pneus queimados durante várias manifestações – uma delas chegou a forçar o presidente  a abandonar propostas de mudanças constitucionais que garantiriam seu terceiro mandato no cargo.

Na vanguarda do movimento, estavam os rappers como Fou Malade (nome real: Mallal Talla) e Thiat (Cheikh Oumar Cyrille Toure). Eles têm encorajado as multidões de jovens que tomaram as ruas das cidades, liderando os manifestantes e – ao confrontarem oficiais da polícia de Wade – servindo como mártires na causa contra o governo.

Em julho, dezenas de fãs aguardavam por Thiat diante da principal prisão de Dakar, enquanto a polícia o interrogava sobre um comício, no qual ele teria desrespeitado Wade publicamente.

"Um velho de 90 anos que mente não tem nenhuma função neste país", teria dito Thiat, segundo a acusação (acredita-se que Wade esteja na casa dos 80 anos, embora existam relatos conflitantes). E ele não negou. Em meio a um clamor na mídia e nas ruas, Thiat foi libertado.

No Senegal, não faltam políticos estabelecidos, partidos políticos ou mesmo jornais de oposição a Wade, que muitas vezes veiculam artigos incendiários, uma tradição senegalesa. Os rappers, no entanto, têm atingido o nervo, porque vão direto ao assunto. Sua linguagem é direta, por vezes crua, e bastante ambígua.

"Na política nada além de hipócritas, ladrões de dinheiro. Governo, por que você sempre mente?" canta Fou Malade em francês, na música Vamos contar tudo.

Em wolof, a língua dominante do Senegal, eles continuam, comparando o Estado a um pequeno barco de pesca tradicional: "A piroga está afundando, e quem ousa dizer que passa a noite no DIC", referindo-se à Divisão de Investigações Criminais. Sobre Wade, Fou Malade canta: seus "discursos irritam nossos nervos".

Os rappers não lucraram com o poder, como muitos na oposição política. Jovens em camisetas esfarrapada e bonés – o mesmo estilo adotado pelos milhares de jovens pobres que ganham a vida fazendo mascates, por meio da venda de cartões de recarga para celulares nas ruas, por exemplo – são facilmente identificados e facilmente contrastados com o envelhecido presidente.

Então era natural que os rappers ajudariam a formar um novo movimento político aqui, o Y'En A Marre ("Cansado"), que se tornou uma força poderosa no coração da resistência aos esforços de Wade em permanecer no cargo, apesar de suas promessas anteriores e disposições constitucionais dizerem o contrário.

Embora o grupo seja baseado aqui na capital, Dakar, onde os partidos da oposição e os políticos têm maior apoio, o Y'En A Marre permanece oficialmente não- alinhado. Desde que o grupo foi formado em janeiro, os seus líderes prometeram que não formarão parcerias políticas, optando por agir em bairros operários como Assainies Parcelles.

Em Assainies Parcelles, as ruas sem árvores são arenosas, cabras compartilham o espaço com as pessoas e um Centro de Tratamento de Magia e Bruxaria contra Mau Olhado fica ao lado de um depósito de gás.

Fiel à forma, Fou Malade, ou Talla, não faz cerimônia ao passar as mensagens do grupo. Ele se esparramou em um sofá velho, abriu o jornal e bocejou durante uma entrevista recente na sede do grupo.

"Estamos equidistantes de todas as partes", disse Talla, 37 anos. "Somos um movimento de vigilância. Nós não temos nenhum vínculo com nenhuma das partes", acrescentou.

Wade, em uma entrevista recente ao jornal francês La Croix, questionou diretamente o grau de influência que o novo grupo de oposição poderia exercer. "Os rappers de Y'En A Marre representam apenas a si próprios. Eles não têm nada a ver com a juventude do interior do país", disse.

Mas o tamanho das manifestações recentes e o fato de que Wade teve de recuar seus esforços para mudar a Constituição depois de um grande protesto no dia 23 de junho parecem indicar o contrário.

O Y'En A Marre nasceu da frustração: dos blecautes que duram dias, da pobreza generalizada, e de um líder que não quer abandonar o poder.

"Em um dia tivemos 20 horas de blecaute", disse Fadel Barro, 33 anos, um jornalista e amigo dos rappers, cujo mal iluminado apartamento serviu como base para a criação do movimento. "Eu disse: 'Gente, todo mundo conhece vocês. Mas vocês não estão fazendo nada para mudar o país'.". Aquelas palavras incentivaram os músicos.

O objetivo do movimento é simples, disse Barro: "Que eles parem de fazer prioridades de futilidades, como o Monumento de la Renaissance" – a estátua gigante – "ou a compra de novos aviões. Estamos lutando para que as preocupações dos senagaleses estejam no centro da política local."

Por Adam Nossiter

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