Raízes na Caxemira atraem hindus de volta para casa

Há 20 anos, 400 mil hindus fugiram do Vale da Caxemira por temer os separatistas muçulmanos; agora eles estão voltando à região

The New York Times |

A cerimônia é simples e comum. Um sacerdote hindu acende uma fogueira, coloca algumas ervas, manteiga e outras ofertas sobre ela e, por meio de sua alquimia peculiar, a fumaça que exala purifica tudo o que toca. Mas nada sobre este ritual de Maha Yaghya, realizado em 5 de maio no santuário de Vichar Nag, antes abandonado, era simples.


Uma semana de chuvas deixou o chão do santuário molhado e pútrido. A madeira estava encharcada e o fogo não acendia. Mas o mais peculiar sobre essa cerimônia era sua localização, em uma das zonas de conflito religioso mais marcantes do mundo, entre dois países nucleares que já travaram três guerras, duas delas pelas terras onde se encontra o santuário.

Há 20 anos, quase 400 mil hindus fugiram do Vale da Caxemira, temendo uma insurgência separatista por parte da maioria muçulmana da região. Agora eles estão voltando, um sinal para muitos em Srinagar de que o Vale da Caxemira, após anos de violência, está vivendo um ainda difícil mas promissor período de paz.

Os hindus de casta superior do vale, conhecidos como pandits, estão retomando seu lar ancestral, alguns para ficar e muitos para visitar. Mais de uma dezena de santuários foram reabertos nos últimos anos, disse Sanjay Tickoo, estudioso da Caxemira que nunca deixou a região e agora encoraja seus compatriotas a voltar para casa.

Sua presença já foi parte do que certa vez fez do Vale da Caxemira uma região única e idílica da Índia. Minoria abastada, mas não excessivamente poderosa, os pandits viveram durante séculos em relativa harmonia com seus vizinhos muçulmanos.

O mosaico de uma convivência relativamente pacífica na Caxemira começou a ruir durante o fracionamento da Índia britânica, em 1947. Mas foi mais de uma década de insurreição, que teve início em 1989, que transformou a região em um campo de batalha feroz entre a Índia hindu e o Paquistão muçulmano, cada qual que domina parte da Caxemira.

Embora nem todos os receios ou tensões do passado tenham se dissipado, quase todos aqui professam a vontade de que os pandits voltem para o vale. Uma vez que viveram aqui por muitas gerações, não existe o temor de que venham para diluir a maioria muçulmana da região.

"A maioria esmagadora dos moradores da Caxemira acredita realmente que o local é incompleto sem a sua diversidade", disse Omar Abdullah, ministro de Jammu e da Caxemira. O motivo da partida dos pandits, e se a reação rápida foi exagerada ou uma resposta racional a uma ameaça mortal, é motivo de debates até hoje.

Agora, duas décadas depois, ambos os lados da divisão religiosa questionam suas decisões. Gulam Rasoul, policial aposentado que vive perto do templo reaberto, disse recentemente que ambos os lados partilham a culpa. "Eles fugiram e nós os expulsamos", disse. "Agora eles lamentam e nós também lamentamos a perda."

* Por Lydia Polgreen

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