Raiva toma japoneses por omissão de informações sobre radiação

Moradores do distrito de Tsushima se sentiram lesados ao saber de ventos que teriam soprado com altos níveis de radiação

The New York Times |

No dia seguinte àquele em que o gigante tsunami deu continuidade ao desastre na usina nuclear de Fukushima Daiichi, milhares de moradores da cidade de Namie se reuniram para deixar o local.

Por não receber nenhuma orientação de Tóquio, as autoridades levaram os moradores da cidade para o norte, acreditando que os ventos de inverno soprariam para o sul e levariam embora qualquer emissão radioativa.

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Encontro em Tóquio reúne rede de pais preocupados com nível de radiação em seus filhos
Durante três noites, enquanto explosões de hidrogênio em quatro dos reatores dispersaram radiação no ar, eles ficaram em um distrito chamado Tsushima, onde as crianças brincaram nas ruas e alguns pais usaram a água de um córrego da montanha para preparar arroz.

Os ventos, de fato, estavam soprando diretamente para Tsushima – e os oficiais da cidade descobririam apenas dois meses depois que um sistema de computadores do governo criado para prever a propagação de radiação havia mostrado exatamente isso.

Mas as previsões não foram divulgadas pelas autoridades em Tóquio, que atuam em uma cultura que procura evitar a responsabilidade e, acima de tudo, as críticas.

No princípio, os líderes políticos do Japão nem sequer sabiam que o sistema existia e, posteriormente, minimizaram os dados coletados através dele, aparentemente com medo de ter de ampliar significativamente ampliar a área a ser esvaziada – e reconhecer a gravidade do acidente nuclear.

"Do dia 12 ao dia 15 nós estávamos em um local com um dos mais altos níveis de radiação", disse Tamotsu Baba, prefeito de Namie. "Estamos extremamente preocupados com essa exposição à radiação."

A retenção dessa informação vital, ele disse, é algo que se assemelha a "assassinato".

Omissão

Em entrevistas e declarações públicas, alguns antigos e atuais oficiais do governo admitiram que as autoridades japonesas se envolveram em um esquema de sonegação de informações essenciais e negaram fatos do desastre nuclear - tudo isso, alguns deles disseram, para limitar o tamanho das retiradas que são caras e perturbadoras em um país que tem poucas terras e para evitar questionamento público da politicamente ponderosa indústria nuclear.

Conforme a usina nuclear continua a liberar radiação, que já chegou aos alimentos do país, a raiva do público apenas aumenta diante daquilo que muitos veem como uma campanha oficial para minimizar o acidente e seus possíveis riscos.

Em uma entrevista, Goshi Hosono, o ministro encarregado da crise nuclear, rejeitou as acusações de que considerações políticas tenham atrasado a divulgação dos dados. "Como princípio, o governo nunca agiu para sacrificar a saúde pública ou sua segurança", disse Hosono.

NYT
Policiais dão orientações à população em Tsushima, no Japão

*Por Norimitsu Onishi e Martin Fackler

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