Rafsanjani: o homem no centro da disputa política do Irã

CAIRO - Mesmo antes de sua filha e quatro outros parentes serem detidos brevemente no domingo, um dos maiores mistérios a envolver o Irã desde que o início da disputa a respeito do resultado eleitoral tem sido o papel do ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani.

The New York Times |

Um dos homens mais ricos e poderosos do país, ex-braço direito do pai da revolução, o Aiatolá Ruhollah Khomeini, Rafsanjani sempre foi crítico aberto do presidente Mahmoud Ahmadinejad durante a campanha e apoiador ferrenho do candidato de oposição, Mir Hussein Moussavi.

Sua ausência do público, juntamente com a provocadora, ainda que temporária, detenção de membros de sua família parecem ter aumentado uma batalha interna entre duas classes da elite política do Irã. Mesmo se os protestos nas ruas forem interrompidos, a divisão ameaça paralisar o Estado e prejudicar a legitimidade que tenta construir desde a revolução de 1979, afirmam analistas.

"Eu vejo a elite política do país mais dividida do que em qualquer outro período dos 30 anos de República Islâmica", disse Karim Sadjadpour, analista político do Dote Carnegie para Paz Internacional. "Rafsanjani, um dos fundadores da república, o homem que fez de Khameini o líder supremo, agora está na oposição".

Rafsanjani, que lidera duas poderosas instituições estatais, tem trabalhado por trás dos panos para que haja um acordo a respeito do resultado da eleição do dia 12 de junho, afirmou um parente no domingo. A prisão de seus membros familiares, segundo este parente, foi uma pressão tática feita por parte de seus oponentes.

Parece claro que o homem de 75 anos está no centro de uma disputa a respeito do futuro da República Islâmica. A visão de Rafsanjani para o Estado e sua posição na história do país estão sendo confrontadas por uma nova elite política liderada por Ahmadinejad e radicais mais jovens que lutaram contra o Iraque na guerra de oito anos.

Ahmadinejad e seus aliados tentaram demonizar Rafsanjani como um político fraco e corrupto, ataques que o Aiatolá Ali Khamenei não desencorajou com força suficiente. Por outro lado, líderes da oposição, especialmente Moussavi, receberam o apoio de Rajsanjani, afirmaram analistas.

"Isso virou um jogo muito perigoso no qual nenhum dos lados ganha nada", disse um consultor político expatriado que pediu para não ser identificado por ainda ter família no Irã.

É uma idiossincrasia histórica que Rafsanjani, íntimo da política local, se veja alinhado a um movimento reformista que antes o atacava como corrupto. Rafsanjani foi um duro antiamericanista nos primeiros dias da revolução que permaneceu permanece suspeito de ordenar o bombardeio de um centro judaico em Buenos Aires, Argentina, em 1994 quando era presidente. Mas, segundo analistas, ao longo do tempo ele evoluiu para uma visão mais pragmática.

Ele apoia uma maior abertura ao Ocidente, a privatização de alguns setores da economia e maior poder a instituições eleitas por civis. Sua visão é contrária a daqueles no poder que defendem um estabelecimento religioso ainda maior e fizeram pouco para modernizar a estagnada da economia.

Por trás do confronto de ideais, a batalha também é pessoal.

"No âmbito político, o que acontece agora, entre outras coisas, é o ápice de uma rivalidade de 20 anos entre Khamenei e Rafsanjani", disse Sadjadpour. "É uma versão iraniana dos Corleones versus os Tattaglias. Não há o bom e o ruim, apenas o ruim e o pior". Um analista político disse que a chave para entender Rafsanjani é um livro que ele escreveu sobre Amir Kabir, o primeiro-ministro sob Nasserdin Shah, que foi morto em 1852 mas é amplamente visto como o primeiro reformista moderno do Irã. Rafsanjani quer entrar para a história como um Amir Kabir moderno, dizem os analistas.

Isso pode explicar sua decisão, por enquanto, de ficar em silêncio e distante das disputas nas ruas bem como da liderança que muitos acreditam ter roubado a eleição presidencial.

"Ele é a dúvida agora", disse o expatriado analista político. "Muitas pessoas esperam que ele seja o homem que vai consertar tudo".

Por MICHAEL SLACKMAN


Leia mais sobre Irã

    Leia tudo sobre: ahmadinejadeleiçõesirã

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG