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O Lutador tem combates falsos, mas sentimento verdadeiro

Todos sabem que a luta livre profissional é falsa. Todos sabem o mesmo a respeito de filmes. Em ambos os casos, os espectadores entusiasmados simultaneamente admiram o artifício e fingem que o mesmo não está ali, permitindo-se acreditar que aquelas pessoas no ringue ou na tela estão realmente causando dor um ao outro.

The New York Times |

O Lutador ¿ o quarto longa-metragem de Darren Aronofsky e ganhador do prêmio máximo no Festival de Veneza este ano ¿ cuidadosamente explora este paralelo e ao mesmo tempo mostra que, tanto no cinema quanto na luta livre, a linha entre a realidade e o faz-de-conta pode ser menos visível do que acreditamos. Filmando seu herói desgastado principalmente com tomadas de câmera na mão, Aronofsky ¿ que dirigiu anteriormente o quebra-cabeça Pi e o arrebatador, fantástico e impossível de assistir Fonte da Vida ¿ faz aqui uma demonstração convincente de brutal realismo.

Os supermercados, estacionamentos de trailers, salões dos veteranos de guerra e anfiteatros dilapidados de Nova Jersey são convincentemente monótonos, e a película traz uma aura de desgaste e conquista com gosto azedo e salgado. Mas a história que emerge é cativantemente doce, em alguns momentos chega a ser pura sacarina ¿ uma parábola familiar de esperanças perdidas e segundas chances. Talvez seja um pouco falso, ma, recusar-se a aceitar a profunda sentimentalidade do filme seria como enganar a si mesmo se privando do profundo prazer que ele oferece.

Randy The Ram Robinson, com a elaborada e grandiosa interpretação de Mickey Rourke, está longe de ser um personagem falso, mesmo que nada nele seja realmente genuíno. Seu nome verdadeiro, o qual ele não suporta ouvir, é Robin Ramsinski, seus músculos são inflados por esteróides e é difícil acreditar que sua longa cabeleira seja loira de verdade. Mas, sua falsidade calculada é, de certa forma, o que garante a veracidade de Randy, um performista nato, autêntico e passional. A descrição também serve para Rourke.

Nos anos 80, tanto o verdadeiro ator e o lutador ficcional eram celebridades (um monólogo enaltecendo essa época e maldizendo a seguinte tem um duplo significado óbvio e apimentado: a fala é dirigida à personagem interpretada por Marisa Tomei, atriz que viveu alguns dramas em sua carreira no final dos anos 90, tornando-o ainda mais comovente).
Rourke era um cara durão de coração mole, sorriso torto e de uma delicadeza que transparecia mesmo nas poses de durão e nos filmes ruins. Randy, por sua vez, era um gigante no topo do mundo da luta livre profissional, inspirando personagens de ação e videogames e praticando suas habilidades em arenas importantes como o Madison Square Garden.

Agora, 20 anos depois, ele ¿ Randy, no caso ¿ foi rebaixado a ginásios decadentes. Ele passa por dificuldades para pagar o aluguel de seu trailer, e sua saúde está deteriorando. Seu profissionalismo, no entanto, não diminuiu, e as cenas mais comoventes e persuasivas em O Lutador mostram os bastidores de Ram com os homens que são seus camaradas e rivais, trabalhando nos pontos mais precisos de suas rotinas com um carinho e um respeito completamente opostos à maldade que eles apresentam no ringue.

Randy é gentil e carinhoso com um lutador mais jovem, elogiando a habilidade do garoto e pedindo a ele que se mantenha no esporte. Sem parecer artificial, ele chama de irmão outros personagens do filme ¿ muitos deles interpretados por lutadores profissionais ou aposentados na vida real.

Apesar das lutas serem coreografadas, a dor e o sangue muitas vezes são reais. Mantemos em segredo os truques do ramo, como o pequeno pedaço de lâmina de barbear que Randy usa para cortar sua face durante uma luta. Testemunhamos uma luta horrível envolvendo vidro quebrado, arame farpado e um grampeador industrial, tudo ocorrido conforme o consentimento dos combatentes.

Também percebemos que toda luta é um pequeno teatro moral. Num determinado momento, Randy e um adversário sentam em cadeiras, trocando tapas na cara. Quando o vilão designado dá seu golpe, a plateia vaia; quando é ele quem recebe, a plateia aplaude. A regra básica é definida por um antigo inimigo de Randy em poucas palavras: Eu sou o calcanhar, e você é o rosto.

E sobre este rosto, Aronofsky não se priva de tempo para mostrá-lo ¿ oscilando por trás de Rourke e nos oferecendo visões indiretas durante os primeiros minutos do filme, antes de revelar a face em ruínas que, apesar de desgastada e inchada, é estranhamente bela como em Quando os Jovens se Tornam Adultos ou Nos Calcanhares da Máfia. Danificado, cansado, desgastado o quanto for ¿ ou não for... Os filmes não são verdadeiros! ¿ Rourke ainda é, no linguajar da luta livre, o rosto, o pólo magnético do nosso interesse, o sujeito por quem estamos torcendo.

Mas Randy é também, fora do ringue, algo como um calcanhar.  Ele é afastado de sua filha, Stephanie, (Evan Rachel Wood), que demonstra raiva, insinuando alguns erros do passado, quando ele tenta uma reconciliação. Ele também é apaixonado por uma stripper conhecida como Cassidy (Tomei) que, com sua dança e conversa amigável, o faz acreditar em interesse recíproco.

A notícia que Tomei interpreta uma stripper pode fazer você virar os olhos ¿ pode, na verdade, fazê-los sair de órbita ¿ mas seu trabalho é mais do que uma desculpa para exibir seu corpo do que o de Rourke na tela. Randy e Cassidy (também não é seu nome real) são artistas, ambos especialistas em falsear algo que os clientes querem desesperadamente acreditar que seja real. Os lutadores não se odeiam na realidade, e a stripper na realidade não te ama.

O fato de Randy não conseguir entender isso em se tratando de Cassidy ¿ mesmo percebendo que eles fazem algo em comum ¿ é parte de seu charme. Ele não é tão esperto, mas tem um talento genuíno. Algumas partes de O Lutador, escrito por Robert D. Siegel, são idiotas de sua própria maneira, ou da maneira que muitos filmes são. A trama secundária entre Randy e Stephanie não é persuasiva, e os últimos reveses do romance entre Randy e Cassidy beiram o ridículo. Mas assim como o herói da trama, o filme é de uma honestidade exuberante, apresentando mesmo seus movimentos falsos com convicção e elegância.

Assista ao trailer de O Lutador:

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