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Novos ricos russos encontram um lar onde antes havia chocolate

MOSCOU ¿ Talvez seja só uma questão de tempo. Depois dos bares especializado em sushi, em cappuccino, em vinho e dos espaços de arte, os lofts estão chegando a Moscou.

The New York Times |

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Aqui na capital do ex-República Soviética, o primeiro prédio de uma antiga fábrica será convertido em apartamentos ¿ com telhados altos e detalhes granulados que fariam tremer qualquer corretor de imóveis de Nova York ¿ é um símbolo da indústria soviética e da transformação da Rússia em um país capitalista.    

A fábrica de chocolate Krasny Oktyabr ¿ nomeada Outubro Vermelho em memória à revolução de 1917 ¿ está situada em uma ilha no Rio Moscou, lado a lado com as torres do Kremlin e as domas douradas das igrejas. 

Seus muros altos de tijolos vermelhos, construídos no fim do século 19, quando a companhia era de propriedade dos alemães e fornecia aos czares, são um marco afetivo que invocam a imagem da fábrica mágica de Willy Wonka.

Nada disso existe mais. Nessa próspera cidade rica em petróleo, onde o metro quadrado na área central residencial é vendidos por US$ 20 mil e algumas vezes por mais de US$ 50 mil, os planejadores públicos e os acionistas decidiram que as linhas perfeitas próximas ao Kremlin não fazem mais sentido.


Telhado da fábrica Krasny Oktyabr que será convertida em prédio residencial / NYT

Transformação

O destino da fábrica conta a história de como os negócios russos se adaptaram às turbulências da economia do país desde a queda do primeiros Romanovs e depois da União Soviética.  

No século 19, a fábrica alemã Einem, como era conhecida, decorava suas caixas de chocolate com o rostos dos czares. Depois da nacionalização, os novos rótulos mostravam os revolucionários invadindo o Palácio de Inverno. Mais tarde, uma caixa mostrava uma criança sorrindo, com o logotipo, Obrigado, Stálin, pela nossa infância feliz!

No fim dos anos de 1990, os administradores da fábrica corajosamente abraçaram a privatização. Mas, em um tempo em que os negócios estavam se livrando das referências soviéticas, eles mantiveram o nome Krasny Oktyabr; o nome já era conhecido e era melhor para os negócios manter assim. Eles mantiveram também a fabricação de barras de chocolate chamadas Alyonka,  em homenagem a filha da primeira astronauta mulher, e Slava, ou Glória, que evocavam slogans soviéticos.  

Agora, a Krasny Oktyabr, acompanhando os novos tempos, se tornou o que toda companhia russa parece querer ser agora: propulsora dos bens imobiliários.


Modelo do apartamento que será constrído na antiga fábrica de chocolate / NYT

Os trabalhadores, a maioria mulheres, foram tranferidos para outra fábrica de doces, uma das 14 da holding United Confectioners que agora é a proprietária da marca Outubro Vermelho. Eles ainda fazem o mesmo chocolate, mas em novas e modernas máquinas longe do centro da cidade, parte da política da prefeitura de levar as fábricas para os subúrbios.

A Guta-Development, uma empresa de bens imobiliários que comprou 75% da United  Confectioners, planeja fazer dos lofts Krasny Oktyabr a parte central do projeto de construções de luxo na ilha Bolotny, o pedaço da ilha que divide o rio, ao sul do Kremlin. 

Preservação x Destruição

No início, pessoa que defendem a preservação do local ficaram apavorados. Nos últimos 15 anos,  os lançamentos para os novos ricos de Moscou eram ao mesmo tempo rococó, vulgar e colossais. E o governo municipal, que tem o controle final dos projetos, tem um gosto duvidoso, tendo em vista a estátua de mau gosto de "Pedro, o Grande" erguida na extremidade da ilha Bolotny.

Mas a Guta, para o alívio de pessoas como David Sarkisyan, diretor do Museu Shchusev de arquitetura, decidiu comercializar os empreendimentos bilionários. 

Os responsáveis pelo desenvolvimento estão apostando que os russos que hoje se sentem em casa em Nova York e Londres ¿ o pequeno grupo que, nas palavras de Sarkisyan, está começando a ter algum gosto ¿ aprenderam o valor das arquitetura em harmonia com o contexto histórico e com os arredores. Acreditam que tais compradores pagarão milhões de dólares para viver em um ambiente urbano e pós-industrial, com lojas e calçadas abertas ao público. 

A divulgação explica detalhadamente que os lofts são residências comuns, sem paredes internas, primeiramente desenvolvidos pelo rei da pop-art, Andy Warhol. Obviamente, foram artistas pobres que reformaram os lofts das antigas fábricas de Nova York e Londres antes dos abonados descobrirem essas residências. Mas parece que Moscou pulou esse estágio.

A empresa Guta pretende entregar a responsabilidade dessas construções a construtores que transformaram antigas fábricas do século 19 em espaços culturais, chamando a atenção dos moscovitas para  a beleza do ferro e dos tijolos. Gazgolder e Vinzavod, a primeira uma antiga estação de gás e a segunda uma ex-fábrica de vinho, hospedam exposições e shows de música. Krasnaya Roza, ou rosa vermelha, era uma fábrica de seda transformada em escritórios luxuosos.   

Esse é o primeiro caso onde a estética e o comercial não colidem, mas coincidem maravilhosamente, disse Anton Chernov, o diretor de projetos da Guta em uma resposta escrita.  

Muitos detalhes ainda permanecem escondidos. Mas a companhia prometeu manter o espaço aberto ao público, preservar três prédios históricos, incluindo a fábrica e um iate clube imperial na extremidade da ilha, construir os novos prédios em harmonia com os antigos e construí-los de maneira a não bloquear o Kremlin quando visto do centro.

A Guta convidou arquitetos locais e internacionais, incluindo talentos como Norman Foster e Jean Nouvel, para sugerir designs para os apartamentos, escritórios, espaços culturais e um hotel.

Por ANNE BARNARD

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