Que os jogos sejam dopados

Era uma vez, os lordes dos jogos olímpicos que acreditavam que o único campeão verdadeiro era um amador, um cavalheiro não contaminado pelo comércio. Hoje eles sustentam outro ideal. Os ganhadores das medalhas de ouro devem ser atletas naturais, intocados pela tecnologia. Depois de ¿escândalos¿ suficientes, o mito dos amadores eventualmente morreu por seu próprio absurdo. O mito natural ainda vive em Pequim, mas está se tornando tão ilógico ¿ e potencialmente perigoso ¿ que alguns cientistas e éticos também gostariam de abandoná-lo.

The New York Times |

E se deixássemos os atletas fazerem o que quisessem para se exceder?

Antes de descartar essa noção, considere com o que estamos lidando hoje em dia. O sistema é ostensivamente projetado para criar um campo plano nivelado de competições, proteger a saúde dos atletas e ser um exemplo para as crianças, mas falha em todos os aspectos.

O jornal Nature, em um editorial da edição corrente, reclama que autoridades antidoping estimularam uma cultura esportiva de suspeita, segredo e medo ao se apoiar em testes calibrados de maneira não científica, como o não-confiável teste por testosterona sintética que custou a Floyd Landis sua vitória no Tour de France de 2006. Mesmo se as autoridades conseguissem corrigir os testes, não seria possível acompanhar os avanços cada vez mais rápidos da biologia. Alguns atletas já estão considerando novas drogas como Aicar e GW1516, comentadas recentemente quando pesquisadores no Instituto Salk as utilizaram para transformar camundongos sedentários em campeões da esteira com novos e fortes músculos.

Há uma possibilidade de que os atletas nesta Olimpíada usem essas drogas, diz Ronald Evans, líder da equipe de pesquisa do Salk, que esteve evitando perguntas de atletas sobre os compostos. Ele avisou as autoridades antidoping sobre como detectar as drogas, mas ainda não é possível saber se eles conseguirão fazê-lo de forma competente.

As autoridades terão ainda menos chances de descobrir os atletas que mudarem das drogas e hormônios para o doping genético ¿ via inserção de genes em seu DNA que poderiam aumentar força e resistência sem deixar pistas químicas na corrente sanguínea.

Não há provas de que funcionaria, mas isso não deterá os competidores. Conforme relatado pela Science News, um treinador de corrida na Alemanha foi pego procurando por Repoxygen, um vírus experimental usado para inserção de genes no DNA.

Então o que temos agora não é um campo de competições nivelado. O sistema pune alguns atletas inocentes e premia outros com o conhecimento e as conexões para não ser pego. Quanto mais as autoridades fecham o cerco nas formas conhecidas de aprimoramento, mais incentivos os atletas têm para experimentar drogas novas ¿ e receber seus conselhos de vendedores do mercado negro ao invés de médicos.

Se os atletas não tivessem que trapacear para vencer, eles e a sociedade estariam melhores, diz Kayser, diretor de um instituto de medicina esportiva na Universidade de Genebra. Em um artigo de 2005 em The Lancet, ele e dois bioéticos argumentaram que legalizar o doping encorajaria um uso de drogas mais sensível e informado no esporte amador, levando a um declínio geral na taxa de problemas de saúde associados ao doping.

No Jornal Médico Britânico em Julho, mais de 30 acadêmicos assinaram uma declaração apoiando um artigo co-escrito por Kayser chamando o sistema atual de fracasso que precisa ser alterado. O artigo também critica as autoridades médicas por minar sua credibilidade com mentiras profiláticas que exageram os perigos das drogas como esteróides com base em escassas evidências contaminadas por uma motivação moralista em proteger o esporte.

Ninguém nega que há riscos em tomar drogas como os esteróides anabolizantes, e todos concordam que menores de idade não devem ter permissão para tomá-las (ou outras drogas de desempenho). Mas o medo do uso de esteróides por adultos é baseado, em grande parte, em alguns casos alardeados, como os artigos culpando os esteróides pelo tumor cerebral maligno de Lyle Alzado, o ex-jogador de futebol americano.

Você estaria em terreno científico mais firme se dissesse que o câncer cerebral era culpa da bebida, diz Norman Fost, professor de pediatria e bioética da Universidade do Wisconsin. As alegações de danos fatais ou irreversíveis dos esteróides não têm qualquer fundamento médico. Não há razões para pensar que o risco de ferimentos ou morte seja tão alto quanto o de simplesmente praticar esportes como futebol americano ou baseball.

É possível, obviamente, que o doping genético ou outras técnicas acabem sendo muito mais arriscadas. Mas seria essa uma razão para bani-las? A sociedade sempre permitiu exploradores e aventureiros corressem riscos em troca de glória. Os alpinistas que morreram na K2 neste mês a escalaram sabendo que a cada quatro pessoas que tentam a façanha, uma morre.

Se atletas adultos de elite pudessem forçar os limites do desempenho humano em troca de glória, eles poderiam apontar o caminho para que os reles mortais conseguissem melhores resultados de seus corpos. Se um corredor de 50 anos de idade pudesse descobrir como correr tão rápido quanto ele mesmo corria aos 25, isso poderia ser útil para guerreiros de fim de semana envelhecendo ¿ ou qualquer sedentário envelhecendo.

Eu gostaria de ver o que aconteceria se alguém começasse uma nova competição de vale-tudo para atletas acima de 25. Se você tiver qualquer idéia sobre como organizar ou como chamar isso ¿ MaxMatch? UltraSports? Jogos Mutantes? ¿, apresente-a no endereço nytimes.com/tierneylab (em Inglês). Talvez os fãs se oponham a esses atletas não-naturais. Mas talvez não. Os fãs, afinal de contas, incluem pessoas com olhos corrigidos a laser, dentes quimicamente branqueados e anatomias cirurgicamente moldadas. Pra não mencionar a farmácia que corre em nossas veias.

Todos sabemos que o corpo pode ser melhorado. Sabemos que os atletas olímpicos têm os corpos com o funcionamento mais potencializado do mundo. Eles podem chamar a si mesmos de naturais, da mesma forma que costumavam se chamar de amadores, mas em algum ponto essa alegação pode parecer a coisa mais anormal de todas.

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