Quase um ano após início de revolta, divisões abalam oposição síria

Disputas ideológicas e étnicas enfraquecem movimento contra o presidente da Síria, Bashar Al-Assad

The New York Times |

O agravamento dos conflitos que atingem algumas cidades sírias, como Homs, provocou uma nova onda de indignação e fez com que países árabes e ocidentais começassem a buscar novas maneiras de apoiar os manifestantes e ativistas que são vítimas de ataques por parte do governo.

Mas diplomatas de cerca de 80 países - reunidos na Tunísia na sexta-feira em busca de uma estratégia para fornecer ajuda aos cidadãos sitiados da Síria - perceberam que seus esforços estavam comprometidos antes mesmo de começarem, pela falta de uma liderança coesa por parte da oposição local.

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AP
Mulher segura sua filha em sacada de prédio danificado por bombardeio em Idlib, na Síria (27/02)

Quase um ano após as manifestações terem começado, a oposição continua sendo composta por grupos políticos fragmentados, exilados de longa data e militantes armados, todos profundamente divididos em linhas ideológicas, étnicas ou sectárias, e muito desarticulados para chegar a um acordo e criar uma estratégia que consiga derrubar o governo do presidente Bashar Al-Assad.

A necessidade de uma oposição unida será o foco das intensas discussões que foram anunciadas como parte do encontro inaugural dos Amigos da Síria. Promover um movimento de protesto aparentemente unificado, possivelmente sob a égide de uma aliança chamada de Conselho Nacional Sírio, será o tema em segundo plano.

As divisões internas do Conselho impediram que os governos ocidentais e árabes o reconhecessem como uma espécie de governo no exílio e a reunião de cúpula de Túnis provavelmente não irá mudar isso. A Rússia, principal apoiadora internacional da Síria, está evitando comparecer à reunião.

As divisões e as deficiências dentro do conselho ficaram completamente em evidência na semana passada, quando seu comitê executivo de 10 membros se reuniu no Hotel Four Seasons em Doha, no Catar, cujo lobby ainda estava enfeitado com rosas e outras flores vermelhas que sobraram do Dia de São Valentim.

O conselho tem sido lento em reconhecer questões críticas como a transformação da revolta da Síria de um movimento não violento para uma insurreição armada, de acordo com membros, diplomatas e outros analistas.

Além de representar apenas cerca de 70% de vários grupos que são contra o governo de Assad, o conselho ainda tem de lidar com o fato de que terá que integrar seriamente alianças cada vez mais independentes em Homs e outras cidades da Síria, presas em uma batalha desigual por sobrevivência.

"Eles estão enfrentando uma luta constante, o que atrasa qualquer trabalho produtivo que precise ser feito em relação à revolução", disse Rima Fleihan, uma ativista que se arrastou por cercas de arame farpado da Síria até a Jordânia em setembro, para escapar da prisão.

Ela representava os Comitês Locais de Coordenação da Síria, uma aliança de ativistas presentes no conselho, mas deixou a organização por estar frustrada com certas questões internas. "Eles brigam mais do que trabalham", disse Fleihan.

Mesmo quando comparada com a Líbia, onde a luta interna entre as milícias rivais e a incapacidade do Conselho Nacional de Transição em exercer qualquer autoridade criou tumulto depois da revolta no país, a oposição da Síria parece dispersa.

Os membros do conselho disseram ter feito algum progresso entre um grupo de pessoas que não se conheciam quando se reuniram em Istambul, em setembro, e que o questionamento sobre sua natureza representativa é mais uma campanha de desinformação patrocinada por Damasco.

"Este problema foi inventado", disse Burhan Ghalioun, o presidente do conselho, em uma breve entrevista depois de uma reunião do comitê executivo na semana passada. "Algumas pessoas independentes não querem aderir ao Conselho, mas não existe nenhum poder forte o suficiente da oposição fora ele."

Ele disse que a falta de dinheiro é o problema mais preocupante que o grupo enfrenta. Embora o governo de Qatar tenha pago pelos gastos da reunião realizada em Doha, membros do conselho disseram que nenhum apoio financeiro significativo de governos árabes ou ocidentais se materializou, apesar das inúmeras promessas feitas, e por isso eles contam com o apoio de ricos cidadãos sírios exilados. Eles esperam que a reunião de sexta-feira em Túnis possa mudar essa situação.

Depois de se comunicarem via Skype com ativistas nas cidades em conflito, como Homs, Hama e Idlib, alguns membros do conselho admitiram timidamente que os ativistas haviam reclamado com eles exigindo saber por que motivo enquanto eles perambulavam por hotéis de luxo nenhum suprimento médico ou qualquer outro tipo de ajuda chegava até a Síria.

Ninguém do grupo Alawite do governo da Síria, a pequena seita religiosa de Assad, faz parte do comitê executivo, apesar das repetidas tentativas feitas para recrutar alguns dos dissidentes mais proeminentes. A luta por lugares curdos permanece instável, embora Massoud Barzani, um líder curdo do Iraque, tenha tentado mediar a questão.

O conselho também não tem se reconciliado com membros de outra coligação da oposição, o Comitê de Coordenação Nacional da Síria, alguns dos quais permanecem no país e que geralmente seguem uma linha mais suave ao permitir que Assad possa realizar uma transição política.

"O tempo está se esgotando para que a oposição Síria estabeleça a sua credibilidade e viabilidade como uma representante da revolta", disse Steven Heydemann, que se concentra em questões do Oriente Médio no Instituto da Paz nos Estados Unidos, um grupo de pesquisa política financiada em parte pelo Congresso .

Por Neil MacFarquhar

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