Quantos super-heróis são necessários para se esgotar um gênero?

Por A.O. SCOTT Batman não tem limite, diz Bruce Wayne a seu mordomo Alfred no começo de O Cavaleiro das Trevas e os contadores da Warner Brothers, estúdio responsável pelo filme, provavelmente concordariam. Eu não tenho tanta certeza assim.

The New York Times |

Eterna disputa entre o bem e o
mal no novo "Batman" / Divulgação

"O Cavaleiro das Trevas", elogiado pelos críticos por seu tema sombrio e enorme ambição, provou ser um grande sucesso de bilheteria num verão já dominado por super-heróis de vários tipos. Mas qualquer fã de histórias em quadrinhos sabe que um herói no auge está mais perto do perigo mortal, pois sua confiança excessiva atrai mais inimigos. Estarão Batman e seus colegas se deleitando no infindável triunfo de um verão ou o sol já começa a se pôr para eles?

A temporada começou com "Homem de Ferro" em maio, que antecipou "O Cavaleiro das Trevas" ao conquistar muitos críticos como sendo uma agradável surpresa e hordas de cinéfilos como um filme imperdível. A semana do 4 de julho pertenceu a "Hancock", que brincou com o arquétipo do super-herói ao torná-lo mal-humorado e ligeiramente embriagado, ao invés de um cientista brilhante, um bilionário interessantíssimo ou uma combinação dos dois. Nesse caso, as críticas foram mistas, mas a bilheteria fluiu. Mesmo o opaco "O Incrível Hulk" conquistou uma estréia robusta, da mesma forma que "Hellboy II", um filme-quadrinho de certa forma mais esotérico.

A força comercial do gênero de super-herói obviamente não é novidade. Desde que Tobey Maguire foi mordido por uma aranha em 2002, essa década se tornou a era de ouro dos grandes filmes de ação que mostram homens em uniformes high-tech combatendo poderosos criminosos igualmente fantasiados. Alguns deles (principalmente os filmes do "Quarteto Fantástico") se contentam em ser entretenimento descartável da cultura popular. Mas a maioria quer ser algo mais, ou levada a sério como seus heróis e vilões levam a si mesmos.

Esses filmes expõem seus corações alegóricos ao vestir sua história com mensagens diretas, como os seqüestradores afegãos em "Homem de Ferro", e indiretas, como as reflexões sobre a tortura em "O Cavaleiro das Trevas". Eles também estão cheios de atores do primeiro escalão que, ao invés de atuar por um cheque como Marlon Brando fez em 1978 em "Super-Homem", ao menos tentam representações reais e comprometidas.

Mais do mesmo?

Heath Ledger e Aaron Eckhart fazem seu melhor em "O Cavaleiro das Trevas", como faz Robert Downey Jr. em "Homem de Ferro". Diretores como Sam Raimi e Bryan Singer lustraram sua reputação com as franquias de "Homem-Aranha" e "X-Men", como fez Christopher Nolan, diretor de "O Cavaleiro das Trevas" e seu antecessor, "Batman Begins". Esses cineastas se tornaram autores lucrativos na economia de Hollywood, colocando sua assinatura artística em projetos que vem com orçamentos acima de US$ 100 milhões, enorme apelo de massa e um crescente prestígio cultural.

Claro que erros e decepções aconteceram ao longo do caminho ("Hulk", de Ang Lee em 2003; "Superman Returns", de Singer; o terceiro filme da série "X-Men", dirigido por Brett Ratner), mas isso não afetou o poder do gênero. A atenção dos executivos dos estúdios e das platéias não parece ter previsão para acabar. Os estúdios já marcam datas para o próximo round de estréias. Anote em seu calendário: o primeiro subproduto de X-Men, "X-Men Origins: Wolverine", será lançado em maio de 2009, e "Homem de Ferro 2" deve chegar às telonas em abril de 2010, dois meses antes de "The Green Hornet" (O Besouro Verde), com Seth Rogen no papel título.

Ainda assim, eu tenho um palpite (ou uma esperança), que "Homem de Ferro", "Hancock" e "Cavaleiro das Trevas" juntos representam um ápice, não apenas um nível antes inatingido de qualidade e interesse, mas também o começo de um declínio. Em suas diferentes formas, esses filmes descobrem os limites existentes no gênero do super-herói como o conhecemos.

Não quero iniciar nenhum tipo de debate com fãs devotos ou críticos embasbacados. Sou capaz de reconhecer que "Cavaleiro das Trevas" é um filme tão bom quanto se pode ser nesse gênero. Mas também pode ser amaldiçoado por falsos elogios. Não há dúvida que Batman, um marco da cultura popular americana por quase 70 anos, forneceu a Nolan (e seu irmão e parceiro na elaboração do roteiro, Jonathan), a plataforma para suas ambições criativas.

Não se pode criar um suspense psicológico, ou mesmo um drama policial urbano, e esperar receber algo como o orçamento de US$ 185 milhões que Nolan teve a seu dispor em "Cavaleiro das Trevas". Esse dinheiro, além de pagar por alguns cenários e sequências de ação impressionantes, permitiu que Nolan e sua equipe criassem uma atmosfera visual evocativa e consistente, uma representação de Gotham geralmente vivida de cima.

Boa fase do gênero pode ser o início do
fim da era de ouro dos heróis / Divulgação

Fórmula

Mas para parafrasear algo que o Coringa diz a Batman, "O Cavaleiro das Trevas" tem regras, e elas são as convenções que nenhum filme desse gênero consegue ignorar. O clímax precisa ser uma luta com o vilão, durante a qual a simbiose do bonzinho e malvado, implícita em toda a narrativa, precisa ser articulada. O fim precisa dar sinais de uma continuação e uma aura de conseqüência moral deve ser sustentada mesmo que as mortes, explosões e perseguições se multipliquem. Os valores alegóricos do super-herói são ampliados (não se trata apenas dos bons combatendo os maus, mas do Bem contra o Mal, da Ordem contra o Caos) precisamente para autorizar um nível mais intenso de violência. Claro que cada gênero de filme é governado por suas próprias convenções e cada gênero decente explora as zonas de liberdade dentro desses parâmetros imutáveis.

Assim, "Homem de Ferro" permite que Downey explore a malícia de Tony Stark, o playboy milionário gênio da engenharia que cresce e constrói uma armadura de metal para si mesmo. Mas, nesse caso, assim que a personagem principal está uniformizada e pronta para batalha, a originalidade acaba e o lado comercial volta a imperar (a grande luta, a extravagância crescente das cenas de ação).

"O Cavaleiro das Trevas" tem algumas vantagens em ser o segundo filme de uma série, com menor necessidade de exposição e desenvolvimento básico da personagem, por isso seu ato final não é tão decepcionante.

Ao invés disso, a decepção acontece na forma como o filme explica e explica temas muito sérios. Que tipo de heróis nós precisamos? Onde traçar a linha entre o que é justiça e o que é vingança? Quanta autonomia devemos sacrificar em nome da segurança? A perda de vidas inocentes se justifica em algum momento? Essas são questões muito urgentes e até fascinantes, mas anunciá-las, como quase todas as personagens do filme fazem em algum momento, não é o mesmo que explorá-las.

Ainda assim, declarar esses temas é o máximo que a atual onda de filmes de super-heróis parece ser capaz ou estar disposta a fazer. Os filmes de caubóis dos anos 1940 e 50, obcecados com temas similares, em sua melhor forma (como em "Searchers", de John Ford, e "Rio Bravo", de Howard Hawks) eram capazes de encontrar ambigüidades e tensões enterradas em seus próprios rígidos paradigmas.

Mas os antigos caubóis não agiam sob os mesmos fardos que seus descendentes mascarados. Esses pobres e incompreendidos defensores da lei precisam gerar lucros em escala global e satisfazer uma audiência faminta pela energia das novidades e o conforto do conhecido.

Leia mais sobre: Batman: "O Cavaleiro das Trevas"

    Leia tudo sobre: batmanheath ledger

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG