Quando vizinhos se divorciam

Em prédios de Nova York, brigas e outros aspectos da vida pessoal dos moradores podem ficar expostos

The New York Times |

Eu adorava meus vizinhos. Nas noites de sexta-feira nós bebíamos juntos no corredor e abríamos as portas para que as crianças, que tinham quase a mesma idade, pudessem correr de um apartamento para o outro.

Em outras noites, comíamos pizza ou pedíamos pratos chineses de nosso restaurante favorito logo ali na esquina. Fofocávamos, cuidávamos dos filhos e animais de estimação uns dos outros e emprestávamos utensílios.

Então as brigas começaram. O casamento de um dos casais começou a ruir e suas brigas faziam com que as crianças corressem para outros apartamentos.

De repente, nossa convivência se tornou difícil e assustadora. Amigos já haviam se separado antes, mas nós nunca testemunhamos o processo tão de perto.

Quando o casal finalmente se divorciou e deixou o prédio, todos nós sofremos. As portas nunca mais foram abertas da mesma maneira. Os drinques pararam. Mesmo as crianças deixaram de correr pelo prédio.

É um clichê da vida em Nova York, especialmente em prédios residenciais, que não se conheça os vizinhos e sua vivência seja isolada. Mas em alguns prédios, especialmente nos menores, exatamente o oposto acontece. Vidas são expostas para que todos acompanhem - mesmo os momentos mais intensamente pessoais.

A discórdia doméstica consegue destruir uma comunidade e eu descobri que nosso prédio não era o único a passar por isso. Quanto mais eu contava a história aos outros, mas ouvia coisas parecidas.

Joseph Cilona, psicólogo clínico de Manhattan, disse que nos últimos meses teve três casos envolvendo clientes que tentavam lidar com os relacionamentos problemáticos de seus vizinhos.

"É natural que a reação seja fecharmos as portas", ele disse. "Mas os vizinhos devem ser ativos, falar sobre o que aconteceu e tentar fazer com que as coisas voltem ao normal".

Holly Forsman, 68, lembra da noite em que a convivência foi estragada no seu prédio em Midwood, Brooklyn, uma década atrás. O casal do andar de cima, a quem ela conhecia bem, brigava há muitos anos, principalmente quando bebiam demais. "Havia uma forte tensão na família", disse Forsman. "E a tensão começou a vazar para o resto do prédio. Quando bebiam, todos ficavam assustados".

Uma noite, ela e seus vizinhos ouviram gritos extraordinariamente intensos. Quando Forsman abriu a sua porta, ela viu os três jovens filhos do casal, um menino e duas meninas, sentados na escada, com olhar preocupado e ansioso.

"Eu não pensei duas vezes e fiz com que entrassem", disse Forsman. "E lhes disse que tudo ficaria bem". Ela lhes deu biscoitos e aumentou o som da televisão para que não ouvissem a briga.

Finalmente, alguém chamou a polícia e o pai foi preso quando a mãe foi encontrada levemente ferida. “Ele não bateu nela, mas a puxou para dentro de apartamento e machucou seu braço", disse Forsman. “Mas quando ele foi preso as crianças ficaram realmente chateadas".

O pai passou a noite na cadeia e voltou para casa no dia seguinte. Mas em menos de um ano ele se mudou e o casal se divorciou.

The New York Times
Cynthia Karalla em seu apartamento em Nova York
Nem sempre é claro quando devemos nos envolver. Cynthia Karalla, artista de 43 anos do bairro de Upper East Side, tentou ajudar muitas mulheres em seu prédio.

"Eu ouço este rapaz gritar o todo tempo com suas namoradas", disse Karalla, que vive em um prédio de 40 apartamentos. "Foram quatro ou cinco namoradas diferentes ao longo dos anos".

O problema começou há 20 anos, quando Karalla e seu namorado encontraram uma mulher na frente do prédio com o olho roxo e o lábio sangrando.

Karalla tentou convencer a mulher a ficar em seu apartamento - "ele a colocou na rua, mas ela não queria minha ajuda".

Eventualmente, o casal se separou. Mas não demorou muito para que outra tomasse o seu lugar e as brigas recomeçassem.

“É uma situação muito estranha", ela disse. "É como se acontecesse com alguém em sua família".

Às vezes eu paro e penso como será que os nossos vizinhos - aqueles que se separaram - se lembram do nosso prédio, se os ajudamos ou machucamos, se ficaram felizes com a nossa presença ou secretamente desejavam que sumíssemos.

Quando você vai se separar, disse Forsman, a primeira coisa que quer é privacidade. Mas este não é um luxo ao qual muitos dos nova-iorquinos não podem se dar.

Por Helene Stapinski

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